Paixões, amorosas ou políticas, atropelam as escolhas
Democracia não sobrevive a dietas de votos, de opiniões e de manifestações livres, conforme as regras naturais do jogo. Tampouco se mantém por inércia
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Ao contrário dos delírios de muitos, a democracia sobreviveu a momentos piores e correu riscos maiores. | Imagem: Freepik

No gostoso Samba da Bênção (música de Baden Powell), o poeta Vinicius de Moraes diz em verso que “a vida é a arte do encontro” (a propósito, no belíssimo filme Um Homem, uma Mulher, 1966, de Claude Lelouch, geralmente apontado como o trabalho que marcou o fim da nouvelle vague, pode-se ouvir a versão francesa do irresistível samba, feita por Pierre Barouh). 


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Compositores de todas as correntes são lembrados no balanço irresistível do samba. Trinta anos depois, Chico Buarque faria algo semelhante na toada Paratodos.

Como se sabe, a vida é feita de escolhas. Em condições normais, no curso da trajetória escolhemos alimentos, roupas, programas, viagens, livros, músicas, filmes, carros, jornais e revistas, bebidas e restaurantes, para ficar nessas opções cotidianas. 

As paixões, amorosas ou políticas, atropelam as escolhas. Elas chegam sem aviso prévio e depois se acomodam, ou se demitem sem qualquer formalidade. No entanto, em situações anormais, podem ser mantidas ou insufladas artificialmente. 


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Encontros e escolhas têm afinidades, mas podem colidir. Não sei se o episódio é mostrado no filme Marighella (2020), de Wagner Moura, que ainda não assisti. Em 1962, no sepultamento de Cândido Portinari (paulista), Carlos Marighella (baiano) pronunciou a fala de despedida, pois Candinho, como o pintor ficou conhecido, também era comunista. 

Mesmo sendo um orador fluente e inflamado, Marighella não falou de improviso. Leu o discurso. Ao seu lado, Luís Carlos Prestes (gaúcho), secretário-geral do PCB, assentia. Carlos Lacerda (fluminense), governador da Guanabara, famoso tribuno da época, compareceu e, naquele dia, ouviu em silêncio. 

Líder da direita, o ex-comunista Lacerda, por sua vez, fizera a leitura do manifesto de lançamento da Aliança Nacional Libertadora. Os três Carlos – Marighella, Prestes e Lacerda –, àquela altura, adversários, colocaram de lado suas divergências na homenagem um grande artista brasileiro. 

Depois, cada um deles seguiu, à direita e à esquerda, para cuidar da vida e das respectivas ideologias. Tiveram seus encontros e fizeram suas escolhas. 

Em tempos de cultura do cancelamento e de linchamentos nas redes (ditas) sociais, da naturalização da intolerância política, à qual se pretende somar um fanatismo religioso que o país nunca conheceu, esses fatos do passado são impensáveis hoje. 

Em linguagem chula, nega-se o direito de escolha. É a face mais visível da ignorância, disseminada pelas redes, às quais, as crianças têm acesso. Serviço completo para as gerações futuras. Outras práticas insidiosas se escondem em campanhas de desinformação, nas distorções intencionais e nas fake news, que prosperam facilmente entre as deficiências do ensino em todos os níveis. A degradação social acontece na velocidade da escuridão. A quem interessa? 

Estão chegando as eleições. Há quem desdenhe delas, até por conveniência de ocasião, ou por convicção. A democracia não sobrevive a dietas de votos, de opiniões e de manifestações livres, conforme as regras naturais do jogo. Também não se mantém por inércia, exigindo pensamento e movimento. Ao contrário dos delírios de muitos, a democracia sobreviveu a momentos piores e correu riscos maiores. 

A diferença nesse processo incessante é a motivação: enquanto alguns fazem suas escolhas por opção, outros escolhem por conveniência. É a medida entre a educação e a sobrevivência. Há muito tempo, fala-se em reformas disso ou daquilo, como panaceias para um Brasil novo. Os resultados são pífios. Só não se ouve falar na reforma que realmente conta. 

Estão fazendo más escolhas. Às vezes (ou até frequentemente), o pensamento é pequeno. Interesseiro também. 

* Carlos Augusto Junqueira de Siqueira é advogado.  Atuou na Comissão de Valores Mobiliários (CVM) e é autor de Fechamento do capital social e Transferência do controle acionário.

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