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Golpes, autogolpes e suas novas fórmulas
Olhando pela janela, o que vemos no horizonte está mais para pirâmide ruindo
Golpes, autogolpes e suas novas fórmulas
O próximo governo, seja qual for, deve manter o nariz alerta, porque golpe cheira longe | Imagem: Freepik

Os idiomas têm vocábulos genéricos e, na língua portuguesa, a palavra coisa é imbatível. Mas, examinando bem, o termo golpe não fica muito atrás. Geralmente usado com conotação negativa, também aparece associado a acontecimentos agradáveis. 


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Golpe de sorte, grande golpe, golpe de mestre ou golpe final — podem ser aplicados em qualquer situação. Já o golpe de vista, geralmente empregado em relação ao goleiro que torce para a bola não entrar, também é relacionado aos motoristas. Nesse caso, porém, prefiro golpe de direção, que a gente dá quando desvia de motocicletas na contramão. 

No esporte acontecem golpes regulamentares, como no boxe e no judô. Só precisa ter cuidado: Fernando Collor anunciou um ippon na inflação e acabou caindo de mau jeito. 

Fora dos regulamentos, há os golpes – ou autogolpes – políticos. Teoricamente, um desacato dessa natureza requer condições pré-existentes. Sem isso, são arriscados e a maioria deles não deu certo (1938, 1954, 1955, 1961). Mesmo em 1930, quando Getúlio Vargas já estava a caminho da capital federal, uma Junta tentou tomar pé no poder, mas acabou de mãos vazias. 

Em 1937, Vargas aplicou um autogolpe, usando fake news preparadas (na verdade, traduzidas de original francês) por Mourão Filho, então um agitado capitão de extrema-direita, militante no integralismo, que era a nossa versão do fascismo. Em 1954, Vargas seria deposto, após ser traído pelo seu vice Café Filho, que fez um acordo com a oposição, tendo Carlos Lacerda como interlocutor. 

Depois disso, só Jânio Quadros, que não batia bem (segundo a maioria das opiniões), tentaria um autogolpe, também conhecido como golpe da renúncia. Durante seu governo, Jânio dedicou atenção especial aos costumes, proibindo o uso de biquínis nas praias e dos maiôs cavados nos desfiles de misses. De modo geral, nessa área, agiu como um bedel. 

De uns tempos para cá, fala-se em golpe por perto: ideia, projeto, tentativa, ameaça. Não parece viável e, se fosse, já teria acontecido. A população quer votar, e um golpe não conta com apoio da sociedade civil. 

Quanto aos militares, a vida na caserna se assenta na hierarquia, como vimos recentemente na notável síntese: um manda, outro obedece. A hierarquia, entretanto, não obsta que os militares assessorem as autoridades, no sentido de evitar o uso indevido das forças armadas com objetivos políticos. 

Externamente, um golpe não teria respaldo, nem sequer tolerância. Os sábios pensadores da Pátria estão sempre vigilantes, mas não gostam de correr riscos. De qualquer forma, o próximo governo, seja qual for, deve manter o nariz alerta, porque golpe cheira longe e, afinal, a Pátria é uma viúva cobiçada por muitos interessados no golpe do baú. 

Tentando fugir à imagem negativa que, com razão, foi criada a respeito dessas quebras intempestivas da normalidade, os golpes apresentam novas fórmulas, como as mudanças no prazo de validade dos mandatos e a possibilidade de reeleições sucessivas (Venezuela, Rússia, Nicarágua). Também podem acontecer mediante processos de impeachment, conforme ocorreu no Paraguai, onde o presidente Fernando Lugo foi apeado do cargo em menos de 36 horas. 

Essas inovações não afastam a tese recorrente do adiamento das eleições, existindo ainda os chamados golpes brancos: por exemplo, no caso de o Legislativo se apossar do governo. E até os maus perdedores, não reconhecendo a vitória do adversário, estimulam processos de ruptura. 

Mas, olhando pela janela, não se vê golpe assombrando o horizonte. Ao contrário, a impressão é de pirâmide ruindo. Golpe velho, coisa para deixar patinhos apurando os prejuízos. 

*Carlos Augusto Junqueira de Siqueira é advogado. 

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