Prisioneiros de um papel

Como o cargo que ocupamos pode afetar nossos comportamentos

Governança Corporativa/Governança/Edição 144 / 1 de agosto de 2015
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Em colunas anteriores (vide ­edições de setembro de 2010 e julho de 2011), mostrei como a pressão de líderes autoritários e dos ­pares são fatores poderosos que muitas vezes podem induzir pessoas comuns a agir de forma antiética e mesmo ilegal.

Além desses elementos, um terceiro ­fator de nosso contexto organizacional pode nos levar a agir de maneira desonesta sem termos plena consciência disso: a pressão decorrente das expectativas em relação ao cargo que ocupamos.

De acordo com pesquisas no campo da psicologia social, as pessoas mudam seu comportamento, muitas vezes sem perceber, em função do papel social que delas se espera. Um dos trabalhos mais impressionantes sobre o tema foi publicado recentemente na revista Nature.

Um grupo de pesquisadores ­mostrou como as pessoas passaram a se comportar de forma desonesta apenas ao serem lembradas de que trabalhavam em um banco. O trabalho foi feito com um grupo de 128 executivos de uma grande instituição financeira internacional, formado por profissionais com média de 12 anos de experiência no setor.

Para metade deles, os pesquisadores fizeram inicialmente algumas perguntas sobre a atuação no trabalho, a fim de salientar sua identidade profissional. Para a outra metade (o grupo de controle), fizeram perguntas genéricas sobre atividades de lazer e da vida pessoal.

Na sequência, os participantes eram encaminhados a uma sala isolada, na qual eram solicitados a lançar uma moeda dez vezes e a reportar o resultado de forma eletrônica. Para cada “cara” reportada, os participantes ganhavam US$ 20.

Estatisticamente, a média de caras ­reportadas para cada grupo deveria oscilar em torno de 50%. Isso foi o que ocorreu com o grupo de controle, no qual a média de “caras” reportadas foi de 51%. Em outras palavras, os executivos do banco mostraram ser honestos em circunstâncias normais.

O mais interessante ocorreu com as pessoas que foram lembradas de sua atuação profissional antes do teste. Nesse grupo, a média de caras reportadas foi de 60%, obviamente muito superior ao que deveria ser obtido aleatoriamente. Logo, as pessoas passaram a se comportar de forma antiética simplesmente porque eram lembradas sobre trabalharem como executivas de um banco antes do teste.

Entre essas pessoas, os pesquisadores observaram ainda o fato de 8% alegarem ter obtido dez “caras” em sequência, a fim de embolsar o prêmio máximo de US$ 200, algo estatisticamente impossível, tanto que nenhuma pessoa do grupo de controle alegou ter tido um resultado similar. Muitos executivos, portanto, passaram a se comportar como verdadeiros homo economicus, uma vez que sua identidade profissional era salientada antes do teste, deixando de lado quaisquer preocupações de ordem ética.

Para os autores, a conclusão geral do trabalho é que “a atual cultura da indústria financeira favorece o comportamento desonesto e contribui para a perda de reputação do setor. Diferentemente da percepção da opinião pública, entretanto, observamos que os executivos dos bancos tendem a se comportar honestamente em uma condição de controle.

Os resultados do estudo mostram como o cargo pode mudar a percepção que temos sobre nós mesmos, passando a influenciar nosso comportamento. O estudo leva ainda a alguns questionamentos interessantes sobre o nosso atual momento, tais como:

• Qual é o comportamento esperado de um executivo de empreiteira no Brasil: ganhar contratos a qualquer custo?

• E de um diretor de uma empresa estatal: compatibilizar as demandas políticas com questões técnicas?

• E de um diretor-financeiro: ser rude, cortador de custos, insensível às demandas dos empregados etc.?

Esta reflexão é fundamental para sabermos se, no fim das contas, estamos ou não agindo como prisioneiros de nosso papel. Aliás, o que é esperado de seu papel como administrador?

Fonte: Cohn, Alain, Ernst Fehr, and Michel André Maréchal. 2014. “Business culture and dishonesty in the banking industry”. Nature, 516: 86–89.




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Tags:  Governança mercado de capitais ética alexandre de miceli Encontrou algum erro? Envie um e-mail



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