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Estímulo ao homem bom
O cultivo da consciência pode ser tão importante quanto os mecanismos de incentivo e controle

Com base em modelos matemáticos elegantes, o pensamento da teoria econômica tradicional tem dominado as análises das mais variadas áreas das ciências sociais. E, na seara da governança corporativa, não é diferente. O tema vem sendo entendido como um conjunto de mecanismos de incentivo e controle para que executivos e conselheiros cumpram as regras e tomem decisões vantajosas para o negócio. Daí resulta que os instrumentos de governança — conselhos independentes, auditorias e sistemas de remuneração, dentre outros — servem para alinhar interesses e monitorar de perto pessoas que pensam exclusivamente em si mesmas.

No pano de fundo, há o conceito econômico de que as pessoas tomam decisões a fim de maximizar seus ganhos pessoais, independentemente do impacto causado a terceiros. A teoria, no jargão técnico, parte da premissa de que agimos como homo economicus, procurando em todos os instantes maximizar nossos ganhos individuais de forma racional e egoísta. Trata-se de um arquétipo que surgiu para explicar as trocas de bens e serviços em mercados anônimos, mas que depois se estendeu indiscriminadamente para outros campos.

Entretanto, como todos os modelos da teoria econômica, o conceito do homo economicus é obviamente uma simplificação da realidade, com severas limitações. Os seres humanos nem sempre agem de acordo com esse conceito, como confirmam algumas pequenas atitudes do dia a dia. Não são raras as situações em que pessoas sacrificam tempo, dinheiro ou conhecimento para ajudar os outros, bem como deixam de burlar regras quando isso lhes traria vantagens. O homo economicus não agiria assim.

Ademais, pesquisas recentes envolvendo indivíduos em situações reais têm comprovado que procedemos de forma cooperativa e altruísta na maior parte do tempo, diferentemente do previsto pela teoria econômica. Esses trabalhos são apresentados em detalhes no livro “Cultivating Conscience”, obra recém-lançada da professora da universidade californiana UCLA, Lynn Stout, que critica a aplicação da abordagem econômica tradicional no campo do Direito. Como exemplo, há dois experimentos aplicados a diferentes públicos: o “jogo da confiança” e o “jogo do ditador”. Ambos envolvem duas pessoas estranhas entre si.

No “jogo da confiança”, o indivíduo A recebe uma soma de dinheiro e decide quanto deseja dar para B (podendo, inclusive, ficar com tudo). O valor que A eventualmente der para B é, então, triplicado pelos organizadores do jogo. Após receber esse montante, B tem a oportunidade de retornar o dinheiro para A ou simplesmente ficar com tudo. Em média, observa-se que as pessoas A doam dois terços de seus recursos para B. E que as pessoas B retribuem a generosidade devolvendo para A um pouco mais do que haviam recebido.

No “jogo do ditador”, mais simples, o indivíduo A recebe um montante em dinheiro e decide se quer partilhar com B. Caso opte por ficar com tudo, o experimento é simplesmente encerrado. Cabe a B apenas se sujeitar às decisões de A. Experimentos realizados em diferentes ambientes mostram que, em média, as pessoas A doam um terço do montante recebido.

Em ambas as situações, o homo economicus jamais daria coisa alguma. As experiências demonstram que a maioria das pessoas não só prefere cooperar e partilhar seus ganhos, como sente prazer ao fazer isso. Logo, os ensaios científicos envolvendo situações reais revelam um altruísmo orientado para o próximo com base na consciência das pessoas. Assim, o conceito do homo economicus é preciso e sofisticado do ponto de vista formal, todavia limitado e frequentemente incorreto.

O peso da consciência nas decisões, contudo, varia em função das circunstâncias. Em determinado momento, podemos ser altruístas; em outro, egoístas. De acordo com a professora Lynn, tudo depende de sermos “ativados”.
As centenas de experimentos apontam três fatores relacionados ao contexto social que estimulam a consciência em nossas decisões, podendo ocasionar um comportamento não egoísta em prol da coletividade:

Quanto maior a tentação para atuarmos de forma egoísta, menor o peso da consciência nas decisões

• as instruções e os exemplos recebidos das lideranças;

• a expectativa sobre como os outros agirão na mesma circunstância; e

• a magnitude dos benefícios ou danos causados a terceiros.

O primeiro fator se relaciona à tendência humana de obediência à autoridade, enquanto o segundo tem a ver com a propensão de imitar os pares, e o terceiro passa pela empatia em relação ao próximo. Há, ainda, um quarto fator de natureza econômica a ser considerado: o custo pessoal de agir pensando em si. Quanto maior a tentação para atuarmos de forma egoísta, menor o peso da consciência nas decisões.

Essas descobertas recentes impactam a governança corporativa. Basicamente, as análises sobre o tema não devem se orientar apenas pelo comportamento previsto do homo economicus. Também faz parte da boa governança cultivar a consciência de funcionários e executivos. Em especial, o esforço das empresas deve ser concentrado em práticas que reforcem o valor da consciência nas atitudes diárias, tais como:

• ações de conscientização capitaneadas presencialmente pelas principais lideranças, de forma a sinalizar os padrões de conduta esperados na organização;

• disseminação de exemplos práticos de decisões tomadas em prol do grupo por gestores envolvidos em dilemas éticos; e

• promoção de encontros periódicos entre administradores e stakeholders (incluindo acionistas nas assembleias), a fim de que percebam com mais profundidade os impactos causados por suas decisões no comando.

Além dessas práticas, deve-se evitar a criação de planos de remuneração demasiadamente agressivos, de forma a diminuir a tentação para se agir de forma errada. Nesse sentido, a ênfase nos incentivos materiais como solução de governança pode suprimir a consciência das pessoas, piorando os problemas em vez de mitigá-los. Conforme exposto pela professora Lynn, a criação de um ambiente em que as pessoas são incentivadas a pensar apenas em si tende a piorar a situação.

É imprescindível, portanto, cultivar a consciência. Os interessados na governança para valer devem criar um contexto social propício a ativar essa qualidade nas pessoas. É mais barato e pode gerar melhores resultados contra fraudes e decisões egoístas do que a tradicional política de controles e incentivos materiais. As empresas não podem se dar ao luxo de ignorar o papel da consciência na promoção de uma boa governança. Em última instância, ela é capaz de mudar o próprio entendimento da governança corporativa. Afora os incentivos e controles, o tema passa a ser visto como um conjunto de atividades que visam a fazer com que as regras sejam cumpridas; e as decisões, sempre tomadas de forma a maximizar a perspectiva de geração de valor de longo prazo do negócio.

A adoção da consciência como fator importante na governança esbarra, porém, em uma limitação circunstancial. O conceito de homo economicus implica que as pessoas ajam de forma egoísta e amoral, sendo capazes de ignorar regras, mentir ou romper acordos quando tal atitude acarretar ganhos materiais para si. Tal definição leva-nos a inferir que somos verdadeiros psicopatas. E algumas pessoas o são. Estima-se que 1% a 4% da população seja composta de pessoas com esse distúrbio, sem capacidade de sentir culpa, remorso ou empatia pelo próximo. A má notícia é que a taxa de psicopatia é cerca de quatro vezes maior nas empresas, com proporção acentuada nos cargos mais altos. Apesar de fundamental, o fomento à consciência será, então, pouco eficaz em organizações lideradas por indivíduos com esse distúrbio.


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