Os chifres do touro da B3 apontam para alvos certos, com a mira errada

O tourinho tropical difere do seu par na postura e no olhar. Enquanto o estadunidense parece avançar com os chifres voltados para cima, o brasileiro tem olhos baços que lembram vagamente as musas de Modigliani



Os chifres do touro da B3 apontam para alvos certos, com a mira errada
Muitos detestaram o touro e viram nele a desconexão da elite brasileira com a realidade de um País com quase 15 milhões de desempregados, custo de vida galopante e muitos na linha da miséria | Imagem: freepik

Conheci o touro dourado inaugurado pela B3 e instalado em frente à sua sede em São Paulo por meio de memes não exatamente elogiosos à obra, em redes sociais como Twitter e Instagram*. Minha primeira reação como jornalista que cobriu o mercado de capitais por dez anos e, atualmente, labuta no campo da arte foi achar a estátua de gosto questionável e um tanto descontextualizada do mundo em que vivemos. Mas depois de alguns minutos de reflexão vi no encurvado touro banguela qualidades estéticas e artísticas que provavelmente não estão — nem nunca estiveram — entre as intenções do autor. A arte tem dessas coisas: às vezes você mira numa coisa e acaba acertando em outra. 

Muita gente detestou o touro. Viu nele a desconexão da elite brasileira com a realidade de um país com quase 15 milhões de desempregados, custo de vida galopante, muitos na linha da miséria, alguns indo atrás de ossos de boi para matar a fome. Sem mencionar as 612 mil mortes na pandemia, que poderiam ter sido bem menos numerosas caso a vacinação tivesse sido levada a sério pelo governo federal. 

Pois um dos méritos da escultura é exatamente esse: ser um retrato fiel da visão de mundo da classe alta do país, além de revelar camadas inesperadas de significado irônico e relevância estética. Se o Tourinho de Ouro, como foi nomeada a obra idealizada pelo economista Pablo Spyer e realizada pelo arquiteto Rafael Brancatelli, resistir às intempéries do tempo e às intervenções de protesto marcadas por poetas urbanos que com ela se indignaram (o que é bem pouco provável), será apontada no futuro como uma excelente representação simbólica da sociedade brasileira nos anos pós Jair Bolsonaro. 

Sem mais delongas, me ponho a analisar algumas das tantas possibilidades de interpretação deste monumento multifacetado. 

Comecemos pela própria bolsa de valores. Bull Market é um termo usado para definir um mercado em alta, que avança vigorosamente rumo ao crescimento. Bear Market, por sua vez, representa a bolsa em queda. Convenhamos que um urso seria mais apropriado ao momento, tendo em vista que, no dia em que o touro foi inaugurado, o índice Ibovespa caiu 1,82% — e acumulava desvalorização de 15% no ano. Mas vá lá, o mercado não pode se deixar abater. Não é porque não estamos numa situação muito boa que não podemos melhorar no futuro. Nesse sentido, a estátua surge como um símbolo de resiliência, força, otimismo.  

O famoso charging bull foi instalado no distrito financeiro de Manhattan em 1989 e idealizado pelo artista Arturo di Modica após o crash da bolsa em 1987. O touro americano não foi financiado por nenhum agente do mercado financeiro. O próprio artista gastou suas economias para fazer a gigante estátua de bronze. O bovino de Wall Street tampouco foi objeto de uma inauguração pomposa. Modica levou o seu trabalho em um caminhão e ilegalmente deixou-o ali na rua. Caiu no gosto popular, e a cidade de Nova York acabou incorporando-o a sua paisagem. É um percurso exatamente contrário ao percorrido pela versão nacional. 
 
O tourinho tropical também difere do seu par na postura e no olhar. Enquanto o estadunidense fita com vistas ferozes e determinadas o público e parece avançar com os chifres voltados pra cima, o brasileiro tem olhos baços que lembram vagamente os olhares sem pupilas das musas do pintor italiano Amedeo Modigliani. Seus chifres estão na horizontal, lembrando mais um mercado que anda de lado do que uma economia em crescimento. Sua pose não é ameaçadora e ele ostenta um sorrisinho simpático. Ele parece estar um tanto assustado, resignado. Ou talvez pedindo um cafuné. A internet tornou ainda mais irreconhecível o valor estético do bicho da Quinze de Novembro. Tanto por razões anatômicas, como a falta de joelhos, quanto cromáticas — o tom escolhido lembra mais um amarelo carnavalesco do que ouro.  

Francamente, qualquer crítica de arte que em 2021 passe por atacar a representação pouco realista, a anatomia estilizada, ou a ausência de uma execução primorosa é ultrapassada. Já faz mais de século que a primazia técnica cedeu lugar ao discurso no espaço artístico. A busca por cores reais e representações exatas das figuras humanas e de animais foi superada pela captura de sensações já na época do impressionismo. O cubismo e o abstracionismo desconstruíram totalmente as formas com que estamos acostumados.  

Mais recentemente um movimento artístico chamado ugly rebelion – a rebelião do feio, ou simplesmente estética do feio – deixou ainda mais claro que a arte não precisa se importar mais com os cânones tradicionais do desenho, da pintura, da escultura ou com a noção de belo. A anatomia criativa do tourinho de ouro não é, portanto, motivo para desmerecê-lo. Tampouco o fato de lembrar o personagem de animação da Touro Ferdinando. Andy Warhol vivia incorporando elementos da cultura pop à sua arte, — por que Brancatelli não poderia fazer o mesmo? 

Chama atenção também seu material. Ao contrário do quase eterno bronze, optou-se pela moderna e flexível fibra de vidro – também encontrada em piscinas, orelhões e estátuas do Ronald McDonald. Ora, muitos artistas consagrados já utilizam derivados do plástico para produzir suas esculturas, lançando mão inclusive de tecnologias recentes como impressoras 3D. A prestigiada escultora brasileira Monica Piloni, por exemplo, trabalha lindamente com a fibra de vidro (seus trabalhos são devidamente armazenados em ambientes internos com climatização adequada). 

A questão é que, por mais que a tinta anticorrosiva que cobre o totem do mercado financeiro adicione uma camada de proteção contra fenômenos cotidianos como sol, chuva e pichações, sua aparência dificilmente durará tanto tempo, ainda mais quando comparada aos efeitos do bronze ou ao próprio ouro. A tendência é que em alguns anos a obra ostente um visual desgastado. Sem falar que o material não oferece a mesma resistência dos metais ao fogo. Um touro derretido talvez seja uma metáfora interessante para a situação da bolsa brasileira. 

Falaram mal também do bichinho porque ele seria um tanto “colonizado”, uma cópia do que foi feito nos Estados Unidos. Mas é bom notar que outras bolsas do mundo adotaram o touro como símbolo, como as de Frankfurt e Hong Kong — e nenhum dos dois é muito imponente, aliás. Para completar, lembremos que a antropofagia é uma característica virtuosa da produção cultural brasileira. Os artistas da semana de arte moderna de 1922 há quase cem anos apontaram que engolimos tudo que vem do resto do mundo, digerimos com nossas características regionais e cuspimos algo autêntico e único. A mesma ideia permeou o Tropicalismo, movimento cultural do final dos anos 60 que incluiu Caetano Veloso, Gilberto Gil e outros nomes incensados da arte nacional. 

É verdade, talvez a estátua conversasse mais com o Brasil se o artista tivesse escolhido como modelo um touro zebuíno, como os nelores responsáveis pela pujança da pecuária brasileira, em vez de um animal de origem europeia. Nativos da Índia, os majestosos nelores resistem melhor ao calor e por isso são escolhidos para pastar nos territórios desmatados da nossa nação. Sua carne é menos macia que a dos Angus e Herefords, mas a avançada engenharia genética do setor agropecuário trabalha para cada vez mais minorar esse problema. Ao optar pelo touro europeu, perdeu-se uma possível crítica ambiental. Mas ninguém é perfeito. 

Além da mistura de referências estéticas que condensa, o tourinho engendra uma série de aspectos sociais. O mais evidente é a desigualdade social do País. Diariamente, centenas de moradores de rua passam perto do símbolo reluzente do capitalismo. Um outro, menos óbvio, é a decadência da masculinidade. O touro supostamente reúne características que são associadas ao arquétipo masculino. Traz em si desde qualidades positivas, como impetuosidade, virilidade e capacidade de ação, quanto negativas, como agressividade, violência e impulsividade.  

Pois bem: trata-se de uma construção social que está em xeque nos dias atuais. A figura do macho durão foi se enfraquecendo à medida que mulheres se livram de padrões que as oprimem e assumem uma atitude impetuosa. Não à toa o bilionário fundo State Street Global Advisors comissionou em 2017 a obra Fearless Girl, uma garota que encara altivamente o touro raivoso. 

Nesse sentido, um touro sem joelhos, meio desengonçado, um tanto cabisbaixo e com um enigmático sorriso de Monalisa, capaz de significar tanto simpatia cordial como subserviência resignada, se torna um símbolo oportuno da masculinidade no precário capitalismo contemporâneo. 

A estátua oferece ainda uma gama de possibilidades artísticas para uma cidade rica em arte urbana como São Paulo. Temos excelentes grafiteiros de renome mundial e uma borbulhante cultura de rua que podem atribuir à escultura ainda mais facetas, incorporando-as de modo intencional às críticas aparentemente não intencionais do artista e fazendo do touro uma obra de arte verdadeiramente complexa — isso se a B3 permitisse que tais intervenções fossem estampadas no bicho, criando enfim o diálogo ora inexistente com a sociedade. Seria magnífico, mas improvável. 

Há ainda a possibilidade que os memes gerados pelo touro sejam registrados na forma de NFT (criptoativo específico para arte) e acabem, no futuro, sendo negociados em alguma bolsa de valores, valendo ainda mais que o monumento original.

Para concluir, ressalto a qualidade duchampiana da obra de Brancatelli. Em 1917, o artista francês Marcel Duchamp comprou um mictório em uma loja de materiais de encanamento, assinou-o com um pseudônimo e inscreveu a peça em uma exposição. Levantou com isso uma série de questões sobre o que pode ser considerado arte ou não — às quais a filosofia estética ainda não conseguiu responder muito bem.  

Duchamp fez ali um grande deboche: ao transformar um objeto cotidiano em escultura e valorizá-lo em milhões, riu na cara do mercado de arte e de seus questionáveis métodos de precificação. Ao convencer os patrocinadores da obra de que seu mictório bovino é arte, Brancatelli expôs a desconexão da elite financeira com a sociedade. Tudo indica que foi sem querer, mas o que importa? Parabéns, Brancatelli!  

*A estátua foi retirada pela B3 no dia 23 de novembro, após a Comissão de Proteção à Paisagem Urbana (CPPU), órgão da Secretaria Municipal de Urbanismo e Licenciamento (SMUL), decidir multar a empresa por falta de licença urbanística.


Bruna Maia é cartunista, roteirista, escritora e artista visual. Publicou o livro Parece que Piorou pela Companhia das Letras em 2020 e também é autora dos zines Manual da Esposa Pós-moderna e O Novinho do Sebo. Trabalhou como jornalista econômica por dez anos, tendo passado inclusive pela Capital Aberto. Você pode conhecer mais seu trabalho na conta do instagram @brunamaia_estarmorta 

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