Gustavo Franco: “O Brasil é o país da procrastinação”

Ex-presidente do BC avalia as raízes da estagnação econômica e os reflexos do “fazer político” brasileiro



Gustavo Franco
Economista Gustavo Franco faz reflexão profunda sobre conjuntura econômica e política do Brasil | Foto: reprodução

Brasil, o país do futuro. O título da obra do escritor austríaco Stefan Zweig, que se estabeleceu na cidade fluminense de Petrópolis em 1940, incorpora uma visão idealizada e esperançosa para uma nação cheia de encantos — mas há quem acredite que o elogio de Zweig tenha, na verdade, se tornado uma maldição. O Brasil ocupa o 130º lugar no ranking Doing Business, organizado pelo Banco Mundial. Em 2020, ficou na 57ª posição no tradicional Anuário de Competitividade Mundial do IMD World Competitiveness Center, trabalho que compara os ambientes econômico e social de 64 nações no que se refere ao desenvolvimento de inovações capazes de garantir destaque no cenário global. Quando o assunto é geração de riquezas o cenário tampouco é animador. O Produto Interno Bruto (PIB) do Brasil caiu 4,1% em 2020, definindo o ciclo dos anos 2010 como a pior década de que se tem registro em pelo menos um século. Mas engana-se quem coloca toda a culpa do mau desempenho do ano passado na pandemia de covid-19 — a atual conjuntura foi agravada pela crise sanitária, mas não foi causada por ela. 

Esses pontos resumem um pouco da visão sobre a conjuntura do economista Gustavo Franco, presidente do Banco Central (BC) durante o primeiro governo de Fernando Henrique Cardoso e um dos formuladores do Plano Real. Eles estão detalhados em Lições Amargas: Uma História Provisória da Atualidade, livro de Franco publicado neste ano. Em entrevista à CAPITAL ABERTO, conduzida pelo colunista da revista e sócio da Jardim Botânico Investimentos Peter Jancso, ele trata de questões econômicas e políticas nacionais — que, mais uma vez, tornaram-se evidentes diante das muitas controvérsias que se impuseram ao longo de 2020 e desde o início de 2021. A seguir, os principais trechos da conversa. 


CAPITAL ABERTO: Como foi o processo criativo de Lições Amargas, da concepção até a gestação da obra?  

Gustavo Franco: Eu queria escrever um livro que tivesse a embocadura de um artigo de jornal, uma atividade à qual me dedico. O meu primeiro artigo foi publicado em 1988 no Jornal do Brasil, e não existe exercício mais interessante do ponto de vista de quem escreve do que o desafio de enfrentar o leitor a cada mês, a cada semana, e explicar de maneira inteligível assuntos difíceis — o próprio Plano Real foi uma experiência desse tipo. O artigo de jornal é um desafio cotidiano. Essa foi um pouco a experiência de Lições Amargas: pegar a prosa do artigo de jornal e, ao mesmo tempo, apresentar uma reflexão profunda. O resultado é um livro diferente dos outros que escrevi. A ideia é alcançar públicos além dos profissionais da disciplina. Meu livro anterior, A Moeda e a Lei, tem 800 páginas e centenas de notas de rodapé — o pesadelo do editor e do leitor. Lições Amargas praticamente não tem notas de rodapé. 

O subtítulo do livro se refere a uma “história provisória”. Por que “provisória”? 

Gustavo Franco: Farei duas observações “marítimas” para explicar. Nós estamos navegando e fazendo mapas durante a navegação, o que é perigoso. Quem está no meio do mar não consegue enxergar muita coisa. Por isso, é algo provisório. Normalmente os historiadores criam mapas depois de chegarem a algum lugar, quando os fatos estão maduros e está tudo bem pensado e registrado. Mas, se você esperar que eles acabem, talvez seja tarde demais para ajudar na navegação. Ainda que seja incompleto, o provisório é útil. Essa é uma primeira observação. A segunda é: vivemos numa época em que as pessoas estão acostumadas a produzir textos para blogs e posts para redes sociais que duram menos de uma tarde. O desafio de escrever um livro é fazê-lo perdurar, como uma mensagem dentro de uma garrafa.  

Pensando na ideia de mensagem na garrafa, há algum SOS subliminar no conteúdo do livro?  

Gustavo Franco: O SOS tem a ver, justamente, com o “amargas” do título. A experiência da pandemia, em que ficamos aprisionados numa dobra do tempo e repetimos o mesmo dia todos os dias, indefinidamente, é um retrato amargo da experiência de desenvolvimento econômico do Brasil — contando a partir de meados dos anos 1980, época em que eu terminei o curso de Economia na PUC. Eu achei que 30 anos depois de formado o Brasil seria um país rico, estaria na OCDE [Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico]. Uma analogia que o livro explora é a experiência da Coreia do Sul e, sobretudo, da China. Esses países utilizaram, muito atrevidamente e agressivamente, a abertura econômica como alavanca para o progresso e a provocação de reformas, o que o Brasil não fez. É extraordinário observar estatisticamente o grau de abertura da economia brasileira hoje igual ao que era nos anos 1970 e 1980. Mas não foram apenas a Coreia do Sul e a China que abriram suas economias; o mundo todo o fez, com a era da globalização. E nós perdemos essa chance por causa das nossas hesitações. Foi uma lástima, porque 30 anos se passaram e o Brasil não mudou. Os mais jovens estão querendo ir morar fora, desistir do País. Isso é muito inquietante. 

É interessante o fato de que os temas tratados no livro são antigos, mas atuais, por causa da incapacidade do Brasil de tratar questões como reformas, ciência, Estado, juros e abertura econômica. Qual é a sua visão em relação às reformas e à busca por soluções milagrosas? 

Gustavo Franco: Parece que o Brasil se acostumou com a ideia de ser o país do futuro que nunca chega. O que começou como um elogio do escritor Stefan Zweig virou uma maldição. Somos o país da procrastinação. O Brasil era uma nação que gostava muito de ser jovem e de fazer mudanças — uma época aventuresca de que eu mesmo já não me lembro. Nosso País hoje é de um conservadorismo extraordinário, e é nas reformas que vemos isso. Não apenas quanto aos obstáculos, mas quanto à própria fórmula de enunciar e de transformar as reformas num instrumento de reafirmação do Estado. Em muitos casos, negociar reformas é igual a negociar um sequestro. Existem corporações que controlam as estatais, o Estado, as alfândegas, e elas não serão desalojadas sem que se pague um “resgate”.  

Uma das ideias principais do livro é que nós precisamos reformar a ideia de reforma. O que se coloca hoje em dia como uma agenda de reformas é a adoção das melhores práticas internacionais. Se o governo não quer, não gosta, acha que é um insulto, não precisa adotá-las — mas não vai vir dinheiro e o País se tornará um pária na economia internacional. Não foi difícil o Brasil adotar as melhores práticas de contabilidade ou vários assuntos regulatórios. Para entrar na OCDE, o País tem que implementar mais ou menos uns 200, 250 protocolos e obrigações pertinentes. À maior parte a gente já aderiu espontaneamente, porque é do nosso interesse. Falta pouco, mas fazer parte do mundo parece uma dificuldade para o Brasil. 

Uma questão abordada é a teoria geral da cretinice, que você utiliza para explicar a atualidade e o que acontece nas principais capitais políticas do mundo. Pode comentar o assunto? 

Gustavo Franco: Vários autores já escreveram sobre a estupidez, a cretinice, a burrice e a insensatez, sob diferentes perspectivas. Mas parece que a gente não gosta de levar a sério a cretinice como um fator que orienta as decisões de uma nação e suas políticas públicas. O framework do livro, que toma emprestado um conceito do historiador Carlos Cipolla, é o aspecto comportamental e exótico que mostra como uma nação, coletivamente, comete uma insensatez. Outros historiadores notaram isso, o próprio título do livro da Bárbara Tuchman é A Marcha da Insensatez. Tornou-se uma linguagem específica para determinar como é que coletividades tomam decisões tolas. Tuchman e Cipolla exploram em seus respectivos livros essa ideia. No Brasil, temos o Nelson Rodrigues, alguém que dizia que o idiota é uma força da natureza e que eles são muitos e vão dominar o Brasil. Quando ele escreveu isso anos atrás parecia um desatino. Hoje eu não tenho certeza. 

Ao iniciar a discussão sobre o Estado, você questiona se, no Brasil, o carrapato está ficando maior do que a vaca. Por quê? 

Gustavo Franco: Essa expressão felicíssima é do senador Romeu Zema, em um dos melhores momentos da sua campanha. Uma síntese maravilhosa. O Estado virou hoje a grande arena de debates sobre o que que queremos fazer com o Brasil. A experiência da pandemia trouxe para a discussão cotidiana o tema da medicina — medicina convencional versus medicina alternativa. Tomar vacina ou tomar cloroquina. A questão é: você acredita no que as pessoas recomendam ou no que a medicina recomenda? Eu imagino que as pessoas acreditem na medicina convencional. Então por que não fazemos isso quando se trata de economia? Quando falamos de economia, parece que preferimos “acender uma velinha”. Vai que funciona e que não precisamos fazer reformas, ter despesas e criar soluções complexas para a economia funcionar. Espero que a experiência com a covid-19 nos ensine um pouco mais sobre o uso da “medicina convencional” em economia. Não existe feitiçaria, dança da chuva, cloroquina econômica. É na medicina convencional que vamos encontrar a nossa salvação. Ou não.   

No livro, você retoma a questão da inflação, comentando como era um imposto disfarçado, que não precisava passar pelo Congresso. Por isso, era utilizada por políticos para resolver o problema das contas públicas. Qual é sua visão sobre essa trajetória? Existe atualmente algum risco quanto a questão de juros e inflação?  

Gustavo Franco: Nós entendemos que a inflação é uma espécie de droga e que ela ilude a nação sobre o equilíbrio das contas públicas. A inflação era, como se dizia antigamente, funcional. Agora, quando você está na Cracolândia e precisa mudar de hábitos para sair de lá não é simples. Esse foi, de certa forma, o processo que o Brasil atravessou para estabilizar a economia, e é curioso que as tentações para voltar aos velhos vícios sejam gigantes. Pintar pedaços de papel é como uma solução mágica para financiar qualquer programa. Agora que esse tipo de solução não é permitida, os parlamentares ficam irritados e questionam como é que antigamente podia e agora não pode mais. Existe uma mistura de teoria da conspiração com negacionismo. 

Fala-se que quando foi preciso fazer o auxílio-emergencial, por exemplo, de algum jeito o dinheiro necessário apareceu — apareceu, sim, mas via endividamento. Diferentemente do que acontece com os pedaços de papel que não precisam ser resgatados, nem pagos, a dívida pública precisa. Ela é onerosa. O Brasil não se acostumou ainda a viver com a escassez de recursos públicos. É como se houvesse sempre uma arca de pedras preciosas em algum porão das repartições públicas e que fosse uma questão de se ter uma abordagem correta ou falar com a pessoa certa. Essa psicologia tem sido dificílima de ser abandonada. É uma perversão de valores que vai bem além da perda de poder de compra da moeda nacional, é uma destruição da ideia de valor ligada à escassez.  

Como é que devemos navegar num momento em que é preciso existir mais flexibilidade para as relações entre capital e trabalho? No pós-pandemia, o pêndulo deve ficar mais para o lado da flexibilização ou de retorno ao que se tinha antes?  

Gustavo Franco: Cada lugar tem o seu o pêndulo. É ilusório pensar que tem um lado correto. Não dá para ser dogmático nem sobre flexibilidade no mercado de trabalho nem sobre o tamanho do Estado. Cada país tem a sua história e vai encontrar a sua solução. Como deveríamos chegar nesse equilíbrio entre flexibilidade e não flexibilidade no mercado de trabalho? Esse é um tema Internacional. Uma mudança que já vinha acontecendo antes era o surgimento da gig economyformada por motoristas de aplicativo e outras pessoas que aderiram a essa economia do compartilhamento e que não são assalariados nos moldes tradicionais. Agora, na pandemia, aconteceu uma outra inovação importante. São acordos de redução de salário nominal com redução de jornada, acoplados a uma transferência do pagamento para o governo. Foi uma forma de limitar demissões. Começou na Alemanha e alastrou-se para a Europa inteira. 

Qual a sua opinião sobre criptomoedas e moedas digitais de bancos centrais, as CBDCs? 

Gustavo Franco: Quando veio o que seria o apogeu dessa inovação, com a proposta de ICO do Facebook, originalmente chamada de libra, a bigtech teve que submeter os seus planos ao sistema internacional de governança bancária e financeira. Teve que passar pelo BIS [Bank for International Settlements], visitar cada um dos membros do G10, e aí apareceram os problemas. O Facebook queria que a libra fosse uma stablecoin [criptomoeda lastreada] com um mecanismo fácil de transferência internacional de dinheiro, como se não tivéssemos problemas de controle cambial mundo afora, de lavagem de dinheiro e diferenças de taxação e jurisdições. Um resultado favorável desse fracasso foi que os bancos centrais do mundo inteiro realizaram um grande investimento para entender o funcionamento e a utilidade do mecanismo de blockchain e de mecanismos de custódia descentralizados. Se algo der errado nesse mundo cripto, uma probabilidade que não podemos afastar, os bancos centrais serão chamados para consertar o que será um evento sistêmico financeiro internacional. Sobre as CBDCs, perto de 200 bancos centrais no mundo inteiro estão estudando o tema. Um gerúndio espetacular, porque muitos estudaram, mas ainda não aconteceu nada.  

Uma das frases que você menciona no livro é creditada a Samuel Johnson: “O patriotismo é o último refúgio do canalha”. Ela encapsula o modus operandi de dizer que uma ideia é boa, fazer críticas construtivas, mas, por trás, minar a possibilidade de movimentos para abertura da economia. Ao fazer o paralelo com Coreia do Sul e China, parece que há uma relação de causalidade importante na geração de maior bem-estar para a nação. Como resolvemos esse impasse?  

Gustavo Franco: Assim como a gente pode dizer que a abertura econômica é a mãe de todas as reformas, ela enfrenta a mãe de todas as resistências às reformas. A canalhice, que tem a ver com a insensatez e a cretinice, consiste curiosamente em sempre procurar um gradualismo tão gradual que mal dá para notar. Tem sido engraçado que se fala da abertura que o Brasil fez nos anos 1990 — eu não sei onde foi feita uma abertura. Estamos fazendo a abertura econômica há 30 anos e não deu nem para ver. É o retrato das reformas brasileiras. Adotar as melhores práticas internacionais, dialogar com nações mais avançadas sobre temas industriais e ter relações comerciais financeiras adultas é considerado complicado demais. Somos uma democracia complexa, é difícil persuadir e conversar sobre certos temas. Mas dá para fazer, sim. Posso estar iludido porque vivi uma experiência especial, que foi a do Plano Real. Quem viveu a inflação anterior tinha base legítima para duvidar que um dia o Brasil se livraria do vício. Mas aconteceu.  

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