“Não existe apoio do mercado ao governo”

Fabio Barbosa aponta papel do setor privado nas demandas de interesse social



Quando assumiu a presidência do antigo Banco Real, em meados dos anos 1990, o economista Fabio Colletti Barbosa já mostrava preocupação com os aspectos ligados à sustentabilidade dos negócios e com as responsabilidades que cabiam às empresas em relação ao seu entorno. Mas o debate ainda não estava maduro, e frequentemente ele era classificado como “abraçador de árvores” ou chamado a discutir assuntos “mais sérios”. Pois nesse quarto de século o mundo se transformou, e cá estamos nós às voltas com uma pandemia sem precedentes e ameaçados por uma crise climática. No Brasil, a situação se torna ainda mais crítica, diante das investidas do presidente Jair Bolsonaro contra a democracia, a crise econômica, o desemprego em alta e as históricas deficiências na educação.

Fabio Barbosa | Foto: divulgação

Não foi por acaso que Barbosa, atualmente sócio da Gávea Investimentos, ajudou a articular um movimento da sociedade civil, de amplo espectro, que colocou sua voz no manifesto “O Brasil terá eleições e seus resultados serão respeitados”. Numa construção facilitada pela tecnologia (WhatsApp), cerca de 240 signatários iniciais receberam depois o endosso de outros milhares.

Em conversa promovida na Conexão Capital e mediada por Ana Siqueira, colunista da CAPITAL ABERTO e fundadora da Artha Educação, Barbosa aborda o papel das empresas nas demandas de interesse da sociedade e dá indicações de como o Brasil pode avançar em aspectos importantes como educação e geração de emprego.


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CAPITAL ABERTO: Como nasceu a ideia da redação do manifesto e qual é o objetivo principal dessa iniciativa?

Fabio Barbosa: Eu faço parte do pequeno grupo de pessoas que deu origem ao manifesto e foi atrás das assinaturas. A ideia nasceu nesse grupo, que tem se reunido para discutir questões relativas às eleições de 2022, como alternativas de candidaturas, possibilidade de formação da terceira via. Ou seja, já existe há algum tempo a mobilização de um grupo de empresários e executivos preocupados com esse tema, o que é muito bom. Mas com o tempo ficou claro que na verdade precisamos garantir que vai haver 2022. Percebemos que, mais importante do que os candidatos e o vencedor, é assegurar que teremos eleições. Daí a necessidade de nos manifestar, apresentando nosso ponto de vista. Até porque já havia jornalistas dizendo que o “mercado”, esse ser heterogêneo, estava a favor do governo. Começamos a escrever o texto num meio de semana e a colher as assinaturas e logo o manifesto vazou — o que fez com saísse com cerca de 240 assinaturas. Essa ampla mobilização mostra que não existe esse apoio do “mercado” e que sim, haverá eleições e o resultado será respeitado.

Essa ação coordenada evidencia como a sociedade pode exercer o protagonismo que lhe cabe. Mas uma mobilização desse tipo no Brasil não é habitual, talvez pelo fato de os representantes do setor privado terem receios de retaliação do Estado. Considerando essa característica brasileira e o atual contexto, como você vê o papel das empresas nas demandas de interesse da sociedade?

Fabio Barbosa: Acredito que a sociedade tem que participar mais, é parte do jogo. Mas lembrando que é preciso pressionar o Executivo e o Legislativo, não o Judiciário. Expressão de opiniões e de posicionamentos é fundamental. Realmente antes havia um certo medo, mas as ameaças [do presidente Jair Bolsonaro, que reiteradamente põe em dúvida a lisura do sistema eleitoral brasileiro] à democracia pareceram muito graves, justificando uma reação da sociedade organizada. É verdade que o Estado tem elementos para reagir, mas existem as instituições, sempre dentro das quatro linhas, que devem refletir os anseios da população — hoje, eleições, liberdade de expressão, vacinação. Os signatários do manifesto não são representativos em termos de voto, mas formam um grupo que pode fazer a diferença em termos de impacto, de voz. O Estado precisa estar conectado com a sociedade e com a Constituição.

Mas, de fato, para as empresas isoladamente é mais difícil a manifestação pública sobre esses temas, já que ela depende de processos complexos de decisões, passando por conselhos, por exemplo. De qualquer maneira, as empresas precisam chamar para si a responsabilidade sobre o tipo de sociedade que querem. Bastante positiva, nesse sentido, é a melhora dos canais de comunicação, que agora permitem que as empresas se façam ouvir, que suas mensagens reverberem para mais pessoas. O próprio manifesto talvez não tivesse nascido tão rápido se não fossem novas ferramentas de comunicação — ele foi viabilizado por troca de mensagens pelo WhatsApp. Dá para dizer que a tecnologia possibilita a mobilização e o aumento da participação da sociedade no debate das questões que interessam a todos, como as eleições.

Por falar em canais de comunicação, as mídias sociais realmente têm um impacto muito relevante — mas para o bem e para o mal, servindo, nesse caso, como ferramentas para disseminação de fake news e discursos de ódio. Como lidar com essa dinâmica?

Fabio Barbosa: Essa é uma seara delicada, até por envolver a questão de regulação da mídia [intenção que gerou bastante polêmica durante o governo Lula]. O ponto é saber quem arbitra o que é certo e o que é errado. É um problema global. As fake news sempre existiram, mas corriam num ritmo muito mais lento. O que mudou foi a rapidez com que elas se disseminam. Mas nunca vi um bom modelo para se arbitrar o certo ou errado. É preciso considerar que a liberdade de expressão é fundamental. Adaptando uma frase do presidente americano Thomas Jefferson [3º mandatário do país, tendo governado de 1801 a 1809], diria que se fosse necessário escolher uma única prioridade para a sociedade democrática, ela seria a liberdade de imprensa, pilar central da democracia. Temos que pensar como vamos conviver com essa realidade, mas não gosto da ideia de regulamentação.

Quando se fala em questões sociais, impossível não tratar de educação. E, no Brasil, o desafio enorme que ela sempre representou foi amplificado pela pandemia, que provocou a mais severa ruptura educacional já vista. Partindo do princípio de que a educação tem forte ligação com renda e exercício da cidadania, como é possível melhorar?

Fabio Barbosa: Já tive uma conversa com o Piketty [Thomas Piketty, economista francês reconhecido por suas pesquisas sobre concentração de renda] em que ele afirmava que a distribuição desigual de renda na Europa era fruto de acumulação de capital. No Brasil, disse a ele, a desigualdade de renda tem uma dinâmica diferente: reflete desigualdade de acesso à educação. Pecamos há muito tempo nisso, apesar dos gastos elevados nessa área. Não dá para ignorar que houve avanços importantes em alguns pontos, mas continua sendo um tema muito complexo. Uma breve observação do que aconteceu com a China mostra como erramos. Uns 40 anos antes da era Deng Xiaoping [líder da China entre 1978 e 1992, responsável pelo salto da economia do país] parecia impossível imaginar que um dia eles chegariam ao nível de educação em que estão hoje. Precisamos mudar o ritmo do nosso avanço educacional. Mas, sendo otimista, acredito que a tecnologia pode permitir um salto para a educação no Brasil, melhorando a capacitação dos professores. Temos um problema sério de conectividade, com solução relativamente barata, de 3 ou 4 bilhões de reais em investimentos. Nossos esforços poderiam estar concentrados na conectividade das escolas. Experiências do Itaú Social, organização que eu presido, e de projetos em que estou envolvido em Espírito Santo do Pinhal, no interior de São Paulo, mostram o poder da conectividade para a educação. Existe a possibilidade de pegarmos um atalho. Há também outra questão difícil, que é a evasão escolar, um problema que existia mesmo antes da pandemia. Para enfrentá-lo, é essencial a capacitação dos professores, para que não fiquem defasados em relação às novas tecnologias. Enquanto os alunos vivem nesse mundo de novidades tecnológicas, o professor muitas vezes não está preparado para essa realidade. Para lidar com a evasão, que piorou com a crise da pandemia, poderíamos também apostar no ensino profissionalizante, nos cursos técnicos que dão ao aluno a sensação de empregabilidade. A boa notícia é que, com os avanços dos últimos anos, os alunos que saem do fundamental 1 e 2 já chegam ao ensino médio mais bem preparados do que antes. Educação é o que resolve a distribuição desigual de renda.

Paralelamente à pandemia, que intensificou o desemprego, convivemos com a possibilidade de tecnologias como a inteligência artificial eliminarem ainda mais postos de trabalho. Parece evidente que, sozinho, o governo não dará conta de enfrentar esse tsunami de automação. Como as empresas podem contribuir nesse aspecto?

Fabio Barbosa: Primeiro, é preciso dizer que criação de empregos tem também a ver com estabilidade política. O próprio presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto, recentemente disse que o aumento da incerteza reduz o apetite dos investidores — especialmente os estrangeiros, que têm alternativas em outros mercados — para projetos de maturação longo prazo no Brasil. O fato de não estarmos num ambiente estabilizado, com boas perspectivas para fazer as pessoas quererem investir, prejudica a geração de empregos. Vale lembrar que não é só o juro baixo que motiva o investimento; a visão de possibilidades lá na frente também importa.

Já quanto aos efeitos da tecnologia sobre o emprego, há duas maneiras de analisar a questão. Não tenho resposta para isso, mas já sou velho o suficiente para lembrar que quando surgiram os computadores pessoais se dizia que o nível de desemprego seria terrível. Mas, ao contrário, a expansão dessa tecnologia criou empregos e alternativas. Não sei se essa dinâmica vai se repetir agora, mas fato é que as tecnologias liberam as pessoas para serem mais criativas. Vejo muito empreendedor iniciante e gente cheia de ideias, e hoje não é mais necessário ter escritório, equipamento ou equipes para empreender — dá para fazer home office, trabalhar em coworking e armazenar dados em nuvem. É verdade que há pessoas que não têm condições de trabalhar nessa economia, mas para isso se pode usar a recapacitação. Não vejo como barrar o uso da inteligência artificial, por exemplo, num grande acordo mundial. É uma realidade que veio para ficar, um mundo melhor que vem pela frente. Veja o que pode acontecer na saúde, com a possibilidade de se fazer diagnósticos a distância e cirurgias por meio de robôs. Aliás, essa é uma das razões por que o 5G é tão importante — em cirurgias remotas a conexão com a internet não pode falhar. Dá para ser otimista com o avanço das tecnologias, mas sem descartar os problemas dos não qualificados. Precisamos investir nos jovens e reciclar profissionais. Importante também dizer que nesse novo mundo ninguém mais está “formado”: as pessoas agora se desenvolvem, sempre se atualizando e se preparando.

Como, na sua visão, o Brasil pode sair da situação atual? Um labirinto em que se juntam inflação em alta (de até dois dígitos em algumas capitais), juros subindo, pandemia ainda não controlada, crise hídrica e risco de escassez de energia, tudo em meio a ruídos políticos e crise institucional.

Fabio Barbosa: Imagino algumas alternativas, mas não tenho a resposta. A inflação de fato preocupa, é um imposto terrível. Aliás, muito infeliz a colocação do ministro [Paulo Guedes, da Economia] quando questionou que mal faz o aumento do preço da energia. Quando a inflação sobe, aperta o bolso das pessoas e sobra menos para o básico. Ela aumenta por n razões, como a valorização das commodities por causa do aquecimento da demanda global. Em geral, quando os preços das commodities sobem, o Brasil exporta mais e entram muitos dólares, mitigando os impactos das altas. Agora a situação é diferente. O País está exportando mais, tem superávits comerciais altos e o dólar sobe mesmo assim. Por quê? Pela insegurança política, pela incerteza em relação ao que vai acontecer. Esse contexto cria dificuldades para captações no exterior.

A imagem do Brasil hoje no exterior é muito ruim por causa das questões ambientais. Os estrangeiros veem esse cenário conturbado e decidem ou não investir ou sacar dividendos. É por isso que o dólar sobe. O investidor não tem problema em assumir riscos do negócio que é da sua área. Ele entende esses riscos e consegue fazer a gestão deles, o que não é possível no caso do cenário macro. Ele não tem como saber se o governo gastará demais, se vai respeitar o teto. Incerteza gera instabilidade, que não gera empregos. Algumas medidas práticas ajudariam a melhorar esse cenário, mas seria preciso também acomodar a situação, baixar a temperatura para que planejamentos possam ser feitos. Uma boa notícia recente é o marco regulatório de saneamento, uma das medidas mais extraordinárias dos últimos anos. Ao mesmo tempo em que gera recursos para estados e municípios por meio do pagamento das outorgas, determina metas de universalização e qualidade para esses serviços até 2033, o que vai demandar investimentos e gerar empregos. Quando existe um marco como esse, que mostra como as coisas vão funcionar, instabilidade diminui e os investidores ficam mais confortáveis.

Você falou da imagem negativa do Brasil no exterior por causa de questões ambientais. Como vê essa agenda nas empresas?

Fabio Barbosa: Sou muito ligado a essa agenda há décadas, desde o tempo em que me chamavam de “abraçador de árvores”. Tenho muitos contatos com investidores e órgãos estrangeiros e posso dizer que a gestão da questão do meio ambiente está prejudicando muito a imagem do Brasil. A percepção é de que essa situação causa problemas para todo o mundo. Já há algum tempo eu percebi que consumidores no exterior não iam querer mais comprar produtos brasileiros por isso.

Tem também uma questão geracional. Eu sempre brinco dizendo que se a minha geração não deixou um Brasil melhor para os seus filhos deixou filhos melhores para o Brasil. Os jovens hoje têm uma consciência fantástica de cidadania. Além disso, se o meio ambiente é tratado com descaso na presidência da República, é importante dizer que os governadores têm uma postura diferente, Tanto que John Kerry [ex-senador democrata e atual enviado do governo Joe Biden para questões do clima] tem falado diretamente com os governadores. Trata-se de pragmatismo. A cada dia sai do mercado um consumidor que achava sustentabilidade uma bobagem e entra um jovem que acha importante levar isso em conta — e ele é o consumidor, o investidor, o talento que as empresas querem atrair. Acho que a questão ambiental é uma grande oportunidade e não uma ameaça para as empresas. A GE, por exemplo, viu que as turbinas a carvão e óleo que fabricava não teriam mais espaço e, em vez de chorar, investiu em fontes eólica e solar. Essa agenda veio para ficar.

O posicionamento das empresas quanto ao pilar social do ESG é a cada dia mais relevante. Como não confundir assistencialismo com a efetiva inserção desse aspecto “S” na estratégia corporativa?”

Fabio Barbosa: Primeiro queria deixar claro que assistencialismo é sim bem-vindo em momentos de crise, principalmente num país como o Brasil. Mas o “S” depende de verificar se a empresa faz a coisa certa no dia a dia, se se qualifica para fazer assistencialismo — postura que seria o oposto do “rouba mas faz”. Veja a questão da diversidade, da inserção de mulheres, negros e pessoas LGBTQI+: não importa a empresa fazer questionário perguntando se os funcionários são gays e se eles não se sentem acolhidos, se a empresa não estiver disposta a mudar. O mais importante é olhar a comunidade ao redor. Se cada um mudar seu entorno muda o mundo. O “S” tem a ver com olhar o outro, e as empresas têm que chamar para si essa responsabilidade. Aqui dá para fazer uma correlação com o manifesto que comentamos no início desta conversa. Cada um deve chamar para si o que quer ver no País. Não aceito mais no meu círculo de amizades quem aponta para Brasília como a exclusiva fonte dos problemas, não dá para aceitar essa postura. Sejamos protagonistas.


Fabio Barbosa, sócio da Gávea Investimentos


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