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Dos sonhos dos cidadãos às narrativas do pesadelo
O X do problema, como diria Noel, é definir o que seja desperdício. Quem vislumbra o futuro reza por outras cartilhas
Dos sonhos dos cidadãos as narrativas do pesadelo automático
Freud gostava de sonhos, os desejos do inconsciente, mas esses são caminhos sinuosos e escorregadios

Infraestrutura e investimento público têm espectros (muito) mais amplos do que se pensa. Sonhar, então, nem se fala. O candidato Fernando Henrique Cardoso anunciou no horário eleitoral (07.08.1994) – (…) por isso, agora que podemos sonhar, antes de inaugurar estradas, hidroelétricas, grandes obras, antes de tudo que precisa ser feito vamos antes de mais nada criar o cidadão, vamos colocar as pessoas em primeiro lugar, vamos inaugurar um país de cento e cinquenta milhões de cidadãos (…) mas, cada um vai ter a chance de sonhar e o que é melhor, de tornar esse sonho em realidade.[1]


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Ao despertar, tem dias que lembramos os sonhos; em outros, esquecemos. Freud gostava de sonhos, os desejos do inconsciente, mas esses são caminhos sinuosos e escorregadios.

Como numa premonição dos sonhos de FHC, em 1983 o governador Leonel Brizola resolveu construir um espaço permanente para os desfiles das escolas de samba. Concretizou antigo desejo dos sambistas cariocas, que sonhavam com a casa própria, para sair das ruas e avenidas.

Pois a enxurrada de críticas desfilou em ritmo acelerado: não havia tempo para concluir a obra, o local seria inundado pelas chuvas, existiam problemas estruturais e, finalmente, o argumento genérico, sempre à mão – a obra não se justificava diante de outras prioridades.

No carnaval do ano seguinte, o Sambódromo (na verdade, um conjunto escolar que funciona durante o restante do ano) foi inaugurado. Como em 1984 teve eleição indireta (a última) para a presidência da República, a Caprichosos de Pilares apresentou, no carro alegórico Milas Fulam (Salim Maluf ao contrário), um boneco do então candidato, mais chegado à construção de minhocões superfaturados e à perfuração de poços de petróleo inviáveis. Nos dois casos, desperdiçou dinheiro público com pesadelos.

Com espaço adequado e transmissão pela TV, o desfile se tornou o maior espetáculo da Terra, ganhando patrocínio de empresas, estados, municípios e até países estrangeiros. Além de atrizes e modelos que trocaram de passarela, o Sambódromo recebeu visitantes especiais, como Francis Ford Coppola, Robert De Niro e Barbara Bush, todos também devidamente patrocinados, em estratégias de marketing empresarial.

A verdadeira inundação, não prevista pelos críticos, foi de turistas. O evento movimenta bilhões em diversos setores da economia.

Antes, em 1950, foi inaugurado o Maracanã, maior estádio do mundo, construído em menos de dois anos. Outra obra pública criticada, demandando longa disputa política.

Em nenhum espaço esportivo tantas multidões sonharam. E foi ali que João Paulo II imitou Carlitos, a rainha Elizabeth II encontrou o rei Pelé, e Frank Sinatra teve o maior público de sua carreira. A riqueza gerada com a atração de turistas, o comércio (dentro e fora do estádio) de alimentos, bebidas, artigos esportivos, espaços de propaganda, direitos de transmissão, vídeos, reportagens, entre outros itens, não pode ser calculada.

Também com apoio público, outra obra, inspiradora para os sonhos, mais tarde seria eleita entre as Novas Sete Maravilhas do Mundo. A estátua do Cristo Redentor, no Parque Nacional da Tijuca, reflorestado por Pedro II após ser devastado pelo plantio de café e cana-de-açúcar, foi paga com doações populares, na década de 1920.

Maior atração turística do Brasil, o monumento teve impacto econômico superior a 14 bilhões de reais e gerou tributos de quase 2 bilhões de reais no acumulado de dez anos (2010-19). (Cristo 90+ – de braços abertos para o amanhã, diversos autores, FGV, 2021).

Em todas as regiões do País existem locais com histórias semelhantes. Conforme o sonho de Dom Bosco, Brasília, erguida por Juscelino Kubitschek em menos de quatro anos, é o mais expressivo. Além da concepção arquitetônica, tornou-se um polo decisivo para a ocupação, valorização e desenvolvimento do Centro Oeste.

Depois do apressado e mal arquitetado meu teto, minha meta, minha vida, no momento em que regras para os gastos públicos voltam a ser discutidas, é oportuno lembrar essas obras, todas mundialmente conhecidas. Criaram identidades nacionais e realizaram sonhos dos cidadãos.

Qualquer um concorda quando se trata de evitar o desperdício de dinheiro público. Embora, a esse respeito, tenha se disseminado a narrativa de que um lado desperdiça e o outro, não. Nem uma coisa, nem outra — o que muda são as prioridades. O X do problema, como diria Noel, é definir o que seja desperdício. Certamente, essas obras não seriam contempladas na vetusta cartilha da base global curricular dos anos 80, que ainda sobrevive por aqui. Curiosamente, quem vislumbra o futuro reza por outras cartilhas.

No descompasso da inflação, já se inventou até a correção monetária (ao que se diz, com boas intenções). Deu no que deu. Agora, o tratamento genérico é à base da inflação de juros (e spreads).

A alta dos preços ocorre também por desafinações políticas e institucionais. Curiosamente (de novo), quem as produz, depois posa de mestre-sala. Mises, Hayek & Friedman foram nomeados mestres de bateria. Na adaptação tupiniquim da valsa vienense, austeridade rima com patrimonialismo. Em samba-enredo, não rima nem em sonho, a não ser como (de novo) narrativa. Mas aí é pesadelo.

*Carlos Augusto Junqueira de Siqueira é advogado. Atuou como superintendente da Comissão de Valores Mobiliários e é autor dos livros Fechamento do capital social e Transferência do controle acionário


[1] Citado por Nahara Makovics, em Marketing Político na Televisão Brasileira: Um estudo sobre as campanhas presidenciais de 1989 a 2002. Paco Editorial, 2012.

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