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Personagens, obviedades e disfarces
Stanislaw, Eremildo, Sobrenatural de Almeida e milhões de desempregados dizem muito sobre a peculiar dinâmica brasileira
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Fonte: freepik

Entre os personagens de ficção que fizeram história na imprensa brasileira, me lembro muito da família Ponte Preta — Stanislaw (também pseudônimo), primo Altamirando, tia Zulmira, Rosamundo e Bonifácio —, criada por Sérgio Porto, de sentida ausência, especialmente em determinados períodos da nossa vida política e cultural.

Nelson Rodrigues, politicamente oposto a Sérgio, igualmente se destacou nessa área, criando a grã-fina das narinas de cadáver, o padre de passeata e o Sobrenatural de Almeida. Também inventou a cabra vadia, e até mesmo as expressões “óbvio ululante” e “toda unanimidade é burra” parecem personagens de Nelson.

Vivos hoje na imprensa, registro Madame Natasha e Eremildo, o idiota, criados pelo jornalista Elio Gaspari. Madame, preocupada com a linguagem, não se cansa de distribuir bolsas de estudo; Eremildo, aflito com os dinheiros públicos, deixa a população pensando com seus tostões.

Os últimos tempos trouxeram algumas transformações. Por exemplo, os produtos afinados, encolhidos, esquálidos, liliputianos; as embalagens com maior conteúdo de vento; as porções (teoricamente) alimentares reduzidas; e os recipientes meio cheios, meio vazios (quem pode, corre para os importados). Essa dieta da produção tem o objetivo altruísta de manter os preços inalterados.

Significa que o consumidor paga o mesmo valor por mercadorias reduzidas em quantidade e qualidade. As diferenças não entram no cálculo da inflação, mas desconfio que o efeito seja similar ao do aumento de preços.

Devido às secas que se repetem — previsivelmente — todos os anos, foi criada mais uma cobrança adicional na conta de energia elétrica, batizada pomposamente de bandeira de escassez hídrica. Mesmo com as chuvas enchendo os reservatórios e inundando extensas regiões do País, a taxa foi mantida, mas também não entra na conta da carestia.

A Anac autorizou voos com tripulações reduzidas, pelo justo motivo da ameaça pandêmica. Esqueceu da correspondente redução nos preços das passagens aéreas, que também seria justa, dado que, como é óbvio e ululante, a prestação de serviços sofre prejuízos.

Em outra vertente, no início do ano a Apple atingiu 3 trilhões de dólares em valor de mercado. Segundo o noticiário, o número é equivalente ao PIB do Reino Unido (Inglaterra, Escócia, País de Gales e Irlanda do Norte). Claro que são medidas diferentes (a primeira, inconstante, e, a segunda, questionável). Apesar disso, a comparação causa certa inquietude.

Quanto aos personagens reais, o Brasil tem 50 milhões de desempregados, subutilizados, informais e (30 milhões) hiperendividados. Qual seria o efeito dessa massa empregada, consumidora e contribuinte (também poupando e investindo) para a economia brasileira? O cálculo não foi feito, mas, certamente, teríamos uma redução significativa das desigualdades sociais, que ainda não são tratadas como deveriam nas escolas de negócios. Para efeito de comparação, essa população é cinco vezes superior à da Suécia (PIB de 550 bilhões de dólares).

Para tudo há explicações técnicas, que deixam os cidadãos um tanto ressabiados. “E vamos e venhamos: para um povo que lambe rapadura, que sentido têm os artigos do professor Gudin?”¹

Não bastasse, Madame se espanta com o economês, que considera um dialeto em permanente litígio com a comunicação. Eremildo, mergulhado em pontos de interrogação, acha necessária a criação de outros personagens fictícios, que expliquem os disfarces, as camuflagens, as comparações e, ainda, o descompasso entre as teorias e as rapaduras.


Carlos Augusto Junqueira de Siqueira é advogado


Notas

¹ Nelson Rodrigues. Crônica de 10/2/1961, publicada no semanário Brasil em Marcha, faz referência a Eugênio Gudin, economista liberal e monetarista ortodoxo

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