Entre o êxtase do hype e a decisão certa
Lideranças empresariais devem atentar para que a escolha das tecnologias adotadas seja pautada pela razão e não pela emoção
Henrique Luz
Henrique Luz , CCA+, CCoAud+ e CCF IBGC, é membro independente de conselhos e ex-presidente do conselho de administração do IBGC | Ilustração: Julia Padula

No seu escopo fundamental de promover o sucesso dos negócios, sua rentabilidade, geração de empregos e agregação de valor à sociedade, a governança não pode prescindir de promover o aporte tecnológico e a permanente inovação das organizações. Nesse sentido, os conselheiros desempenham importante missão. Não precisam, obviamente, ser experts em tecnologia da informação (TI) e sistemas, mas devem ter clareza quanto às suas implicações, aplicabilidade e impactos.  


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A governança associa-se à tecnologia na medida em que soluções digitais e de TI são adotadas com o propósito de proporcionar mais eficiência, credibilidade, transparência e racionalidade aos processos produtivos, de gestão, atendimento aos clientes e consumidores e operação das equipes nos distintos níveis organizacionais. Não restam mais dúvidas de que o presente e o futuro estão no mundo digital. Não é mais possível ficar alheio a essa jornada, sob pena de perder competitividade e colocar em risco a sobrevivência das empresas. 

Exatamente por isso, é crucial escolher a tecnologia certa, no timing adequado e com foco preciso nos resultados que ela pode proporcionar. Ou seja, é determinante diferenciar o hype do que é efetivamente realidade para garantir a sustentabilidade nos negócios. Colega de longa data, Cezar Taurion, consultor, mentor de startups e membro de conselhos de inovação de diversas empresas, nos brindou no último Congresso IBGC, em novembro de 2022, com insights que me fizeram refletir sobre o tema.  

Concordo com ele que a tecnologia acelera e melhora os processos e contribui para numerosas soluções, mas que também é preciso entender seu potencial e suas limitações. Tal consciência é cada vez mais exigida dos executivos, gestores e conselheiros. Um dos fatores mais importantes é saber identificar, em meio ao turbilhão constante de tecnologias emergentes, aquelas que são significativas e se aplicam à melhoria da empresa.  

Assim, é necessário estar atento para que a tomada de decisões sobre a escolha de tecnologias seja pautada pela razão e não pela emoção. Afinal, como bem observa o especialista, não se pode, a partir da premissa de que a novidade tudo solucionará e revolucionará, subestimar as dificuldades inerentes à implantação e aplicabilidade.  

É prudente, por exemplo, levar em conta o que os clientes, os consumidores e a sociedade usam e valoram. Tais cuidados são decisivos, pois é preciso que as mudanças suscitadas pela tecnologia sejam positivas, facilitando a vida das pessoas e turbinando a performance dos negócios. É essencial que elas expandam e perenizem os negócios — e não que gerem riscos, perdas e danos.  

Portanto, cabe uma avaliação adequada das novas ondas tecnológicas, conforme alertou Taurion em sua palestra: a inteligência artificial, por exemplo, apresenta imenso potencial e já está presente em várias empresas de todos os segmentos. No entanto, como costuma ocorrer nas etapas iniciais do advento de algo tido como revolucionário, há exageros.  

É preciso superar a fase de hype e tornar prevalente a racionalidade. A começar pela clareza de que IA não é uma solução para todos os problemas, pois é baseada em sistema probabilísticos e não determinísticos, conforme explicam vários especialistas do mercado. O segundo aspecto é que não é inteligente. Sim, desafia a semântica. A inteligência está na construção dos algoritmos dos sistemas. Portanto, a máquina não substituirá o ser humano, mas será sempre uma ferramenta de apoio em tarefas automáticas e robotizadas. 

Apostas temerárias 

Outro tema objeto de hype atualmente, na visão de Taurion, é o metaverso, que passou a ser cantado mundialmente em verso e prosa depois que o Facebook mudou seu nome para Meta, em 2021. Entretanto, universos virtuais não são propriamente uma novidade, pois já houve experiências como o Second Life, em 2005. O que mudou foi o avanço da tecnologia, com o uso de óculos de realidade aumentada e tridimensional, cuja aplicabilidade é difícil e limitada. A grande aposta do Facebook em algo que talvez não seja tão importante no curto prazo foi um dos fatores das perdas financeiras e demissões em massa ocorridas na empresa deste 2021, conforme apontam distintos analistas.  

O blockchain, outra tecnologia fantástica, também foi visto no início, em 2009, como algo que mudaria radicalmente o mundo e o sistema financeiro. Contudo, ainda está longe disso. Não se veem grandes e famosas empresas utilizando essa ferramenta em larga escala.   

Claro que as tecnologias aqui citadas são muito importantes, assim como muitas em desenvolvimento também serão. Entretanto, devem sempre ser consideradas e avaliadas no contexto, ramo de atuação, demandas e necessidades de cada empresa. Aqui, é pertinente a recomendação de Taurion: deve-se testar as novas ferramentas numa escala que não seja pequena demais para gerar impacto, tampouco grande demais e com custos muito elevados para a empresa.  

Neste mundo de incertezas, surpresas e transformações constantes e extremamente rápidas, não se pode ficar para trás. Porém, para estar sempre à frente é decisivo fazer escolhas certas. É importante o equilíbrio entre a necessária atualização tecnológica e o êxtase do hype. 

*Henrique Luz ([email protected]), CCA+, CCoAud+ e CCF IBGC, é membro independente de conselhos e ex-presidente do conselho de administração do IBGC.     

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