Um metaverso de oportunidades

Ambiente futurista que mescla mundo real com o virtual desperta interesse de grandes companhias e investidores



Metaverso: Ambiente futurista que mescla mundo real com o virtual desperta interesse de grandes companhias e investidores
A palavra metaverso já faz parte do vocabulário de investidores de criptomoedas, por causa de plataformas como a argentina Decentraland e a americana The SandBox, que utilizam a rede blockchain da Ethereum para criar mundos e sociedades alternativas — Imagem: freepik

Desde que Mark Zuckerberg anunciou que o Facebook passaria a se chamar Meta e a empresa investiria 10 bilhões de dólares em uma nova tecnologia de realidade virtual, o futuro apresentado em livros e filmes de ficção científica já não parece mais tão distante. A nova aposta do arrojado empresário é a criação do chamado metaverso — universo virtual onde as pessoas poderão explorar diversos ambientes e interagir entre si por meio de avatares, algo restrito até então à indústria de games. De acordo com relatório da gestora de criptoativos Grayscale, a tecnologia tem potencial para gerar receita anual de 1 trilhão de dólares no longo prazo, movimentando ao menos 4,5 trilhões de dólares até 2024. Não à toa, companhias, investidores e bigtechs já miram oportunidades envolvendo o metaverso. O movimento é um claro indicativo de que a novidade não é uma aposta isolada do fundador do Facebook — ela deve se consagrar, como indicam alguns especialistas, como o próximo capítulo da internet. 

Desenvolvido a partir de tecnologias como realidade virtual, realidade aumentada, inteligência artificial e blockchain, o metaverso pode ser comparado a uma espécie de internet 3D. Nele, comunicação, diversão e negócios acontecem de forma imersiva, extinguindo os limites entre a vida real e a digital. A ideia é que as pessoas possam reproduzir todos os aspectos do seu cotidiano nesse mundo virtual, como adquirir imóveis, trabalhar, se divertir e até mesmo realizar investimentos. Para isso, a Meta está investindo no desenvolvimento de aparelhos que tornem essa realidade possível.  

“O metaverso é uma visão que abrange toda a indústria. Você pode pensar nele como o sucessor da internet móvel e imaginá-lo como uma internet materializada, onde, em vez de apenas visualizar o conteúdo, você está inserido nele”, explicou Zuckerberg, durante o evento Facebook Connect, realizado no fim de outubro. “O metaverso será acessível em todas as plataformas de computação: desde realidade virtual e realidade aumentada até PC, dispositivos móveis e consoles de jogos.”  

Investimento cobiçado

O termo metaverso foi utilizado pela primeira vez em Snow Crash, livro de ficção científica escrito por Neal Stephenson, em 1992. Na obra, os personagens usam o metaverso para escapar de uma realidade distópica. Hoje, o hype em torno desse ambiente é tamanho que ele foi considerado como uma das principais tendências para 2022 pela agência de publicidade japonesa Dentsu, uma das maiores e mais influentes do segmento.  

A palavra metaverso também já faz parte há algum tempo do vocabulário de investidores de criptomoedas, por causa de plataformas como a argentina Decentraland e a americana The SandBox, que utilizam a rede blockchain da Ethereum para criar mundos e sociedades alternativas. Ainda que estejam limitadas a telas de computador e de celular, ambas evidenciam com perfeição o potencial do metaverso. Tanto a Decentraland como a The SandBox funcionam por meio de ativos digitais (tokens), que permitem que os usuários criem, experimentem e monetizem conteúdos e aplicativos. Com esses tokens, eles também podem adquirir vestimentas para o seu avatar, comprar terrenos virtuais, alugar espaços e negociar locais para colocar propagandas.  

Em novembro, por exemplo, um terreno virtual no metaverso da Decentraland se tornou o mais caro da história após ter sido vendido por 618 mil MANA, nome do token da plataforma. No momento da aquisição, a quantia equivalia a nada menos que 2,4 milhões de dólares. O desembolso foi feito pela empresa Tokens.com, que planeja realizar desfiles de moda e vender roupas virtuais para avatares. Seu objetivo é que as coleções sejam criadas por meio de parcerias com marcas do mundo real, entre elas Adidas e Nike. Para assegurar a exclusividade e o direito do usuário a determinado ativo, cada item digital desse universo é um token não fungível (NFT), classe especial de criptoativos que possuem um selo de autenticidade criado por códigos únicos e inalteráveis e que representam um bem não intercambiável.  

Ao longo de 2021, a Decentraland e a The SandBox, assim como outras plataformas ligadas a metaversos, tornaram-se investimentos extremamente cobiçados por investidores com apetite a risco e estômago para apostas altamente especulativas: o preço da token MANA passou de 0,08 dólares em janeiro deste ano para 3,5 dólares na última semana. Já o token SAND, da The SandBox, subiu de 0,05 dólares para 5,35 dólares no mesmo período. 

Um metaverso para chamar de seu 

De olho nesse panorama, grandes companhias globais planejam criar seus próprios metaversos. A Disney, conhecida por desenvolver experiências imersivas em seus parques temáticos, quer combinar nesse universo o repertório que tem em múltiplas plataformas. “O que fizemos até agora é apenas o prelúdio da era em que iremos conectar os mundos físico e digital de forma mais próxima, permitindo uma narrativa ilimitada em nosso próprio metaverso”, afirma Bob Chapek, CEO da Disney. 

Outra companhia que também já anunciou o lançamento de seu metaverso — e que deve se consolidar como uma forte concorrente da Meta — é a Microsoft. A partir do ano que vem, o Teams, seu aplicativo de reuniões virtuais, vai passar a permitir encontros com avatares em 3D, criando um universo de bonecos digitais interativos. Para especialistas da consultoria GlobalData, a estratégia da Microsoft é acertada. Eles observam que, embora a Meta lidere atualmente o fornecimento de dispositivos de realidade virtual que poderão dar vida a um metaverso verdadeiramente imersivo, a Microsoft está adaptando tecnologias que são amplamente utilizadas pelas pessoas hoje, o que a coloca em posição de vantagem. “A Microsoft parece ter entendido melhor do que a Meta como as pessoas realmente utilizam a tecnologia”, afirma Emilio Campas, analista da GlobalData, em artigo. “Com essa abordagem, a Microsoft está mantendo seu foco em aplicações corporativas existentes, ao contrário da Meta, que quer transformar totalmente o estilo de vida das pessoas com a criação do seu metaverso”, observa. 

Para os investidores, o ingresso de grandes companhias abertas nesse mercado é a chance de financiarem, ainda que indiretamente, essa tecnologia revolucionária. No Brasil, a Vitreo lançou o Metaverso Ações, primeiro fundo brasileiro que aporta recursos exclusivamente em empresas que têm o metaverso como core business. Na visão da gestora, se essa tecnologia se institucionalizar, ela tem tudo para ser a maior revolução comportamental desde a criação do iPhone. E, consequentemente, uma nova indústria, com muito dinheiro, será criada em torno desse universo. 

O lado obscuro do metaverso 

Como toda nova tecnologia, o metaverso trará desafios para os reguladores, principalmente na seara de proteção de dados. Fundador da Unanimous A.I. e um dos pioneiros no desenvolvimento de dispositivos de realidade aumentada, Louis Rosenberg considera que o rastreamento do comportamento do usuário feito pelas redes sociais será “brincadeira de criança” se comparado às possibilidades abertas pelo metaverso. Por meio de equipamentos como óculos de realidade aumentada e luvas hápticas, as plataformas poderão acompanhar não só os cliques do usuário, mas também aonde ele vai dentro do metaverso, o que faz e o que olha — e até mesmo como e quanto tempo olha. Elas também poderão monitorar expressões faciais, tom de voz e sinais vitais. Tudo isso enquanto algoritmos inteligentes preveem mudanças em seu estado emocional e agem para influenciá-lo. 

“Não é a tecnologia que eu temo, mas o fato de que as grandes corporações podem usar a infraestrutura do metaverso para monitorar e manipular o público em níveis que fazem as mídias sociais parecerem pitorescas”, afirma Rosenberg, em artigo. “Sei que esse grau de intrusão soa como ficção científica, mas como alguém que passou décadas criando tecnologias, acredito que esse será nosso futuro, a menos que haja uma regulamentação agressiva”, ressalta.  

É pouco provável, contudo, que o alerta iniba a popularização do metaverso. Com grandes companhias — e investidores — financiando a tecnologia, a tendência é que ela se desenvolva a pleno vapor, ainda que seu uso traga, como destaca a PwC, desafios regulatórios relacionados a propriedade intelectual, questões antitruste e de responsabilidade pelo processamento de dados. Esses são temas sobre os quais os reguladores sem dúvidas terão de se debruçar. Mas enquanto os problemas ainda estão no campo das ideias, o que empresas e investidores querem é sonhar com o futuro promissor — e lucrativo — do metaverso.  

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Henrique Luz , CCA+, CCoAud+ e CCF IBGC, é membro independente de conselhos e membro do conselho de administração...