As lições extraídas de duas décadas de IPO
Mudanças levaram a uma nova percepção da sociedade sobre o papel das empresas e sua governança
Ana Siqueira
Ana Siqueira é sócia fundadora da Artha Educação | Ilustração: Julia Padula

Importante fonte de financiamento para as empresas e de crescimento para a economia, o mercado de capitais brasileiro vivencia, desde 2019, uma bem-vinda retomada das ofertas de ações. Em uma série histórica de 20 anos, os anos de 2007, 2019 a 2021 apresentaram recordes de captação. O ano de 2010 também foi expressivo — a capitalização da Petrobras, porém, foi feita em sua maior parte com aporte pela União de barris de petróleo, razão pela qual excluímos este ano desta análise.


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Em 2021, as ofertas de ações totalizaram 128,1 bilhões de reais, com as ofertas iniciais de ações (IPOs) representando 49,7% e as ofertas subsequentes (follow-on), 50,3%. As ofertas iniciais de ações totalizaram 63,6 bilhões de reais em 2021, 43,5 bilhões de reais em 2020 e 60,5 bilhões de reais em 2007 (todos os valores são nominais).

Existem numerosas lições que podem ser extraídas destes últimos 20 anos de IPOs. Muitas empresas abriram o capital sem estar preparadas: faltou robustez em planos de negócios, várias estavam em estágio incipiente, tinham problemas de governança corporativa ou motivação errada para abertura de capital.

A atenção dada à pauta ESG cresceu de forma exponencial nos últimos dois anos. Tornou-se importante que investidores reflitam sobre questões ambientais, sociais e de governança das empresas, em sua análise, avaliação e decisão de investir ou não em uma companhia.

É usual haver, em um IPO, a discussão sobre existência ou não de oferta secundária, juntamente com a primária. Na oferta secundária, acionistas atuais vendem ações de sua propriedade. É legítimo que o empresário possa vender parte de suas ações, pois percorreu um longo e, muitas vezes, árduo caminho até chegar ao IPO. No entanto, é fundamental que a participação dele após a oferta represente uma parcela importante do seu patrimônio, contribuindo assim para o alinhamento de interesses entre empresário e novos sócios, assim como para a manutenção do seu foco na empresa.

A realização de um IPO é um momento de extrema relevância na vida do empresário e da companhia. É um divisor de águas. Portanto, trata-se de um momento propício para o investidor exercer o stewardship, influenciando e demandando que as companhias avancem em temas determinantes para o seu futuro. Para isto, é fundamental que os investidores conheçam o estágio de maturidade da empresa, assim como seus planos futuros, sobre diferentes questões que afetam o valor no longo prazo. Desde questões operacionais e de estratégia até aspectos como cultura organizacional, remuneração, sucessão, governança, gestão de riscos, direitos humanos e trabalhistas, impactos ambientais, relacionamento com stakeholders, etc.

A eficácia do trabalho do conselho de administração é essencial para a perenidade das empresas. Temas determinantes para o futuro precisam ganhar relevância nas pautas dos conselhos de administração. Uma cultura corporativa saudável e forte gera valor e contribui para a sustentabilidade da empresa; resiste firme mesmo em momentos de estresse agudo e mitiga os impactos das crises. Continuamente a cultura organizacional e os valores da companhia têm ganhado a atenção dos investidores institucionais.

Cabe destacar que a estrutura de remuneração é importante instrumento de direcionamento de comportamentos e precisa ter coerência com o propósito e a cultura da organização. Observamos a inclusão de indicadores ESG na estrutura de remuneração de algumas companhias, inclusão esta muito relevante para que, de fato, as empresas avancem nesses temas.

Os investidores institucionais têm muito a contribuir, através do exercício do stewardship, monitorando e se engajando com companhias investidas. O stewardship está diretamente associado a benefícios sustentáveis ​​para a economia, o meio ambiente e a sociedade, pois dá grande ênfase à criação de valor no longo prazo. Cada vez mais, o stewardship é visto como a forma de os investidores institucionais desempenharem o seu dever fiduciário.

Essa evolução reflete a mudança de percepção da sociedade sobre o papel das empresas e sua governança. O que antes era visto como de responsabilidade exclusiva da administração agora passa a uma abordagem mais ampla que inclui os investidores institucionais e o reconhecimento dos benefícios para a sociedade.

Ana Siqueira, CFA ([email protected]) é sócia fundadora da Artha Educação

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