Seletividade deve predominar no mercado de ações

Com 71% dos IPOs operando no negativo em 2021, investidores devem redobrar cautela com companhias que estão abrindo o capital



Danielle Lopesé sócia e analista de ações da Nord Research
Danielle Lopes é sócia e analista de ações da Nord Research | Ilustração: Julia Padula

Até a última sexta-feira, 22 de outubro, 34 empresas que abriram o capital em 2021 estavam operando no vermelho e apenas 14 apresentavam rentabilidade positiva. O levantamento mostra que, para muitos investidores, a participação em ofertas públicas iniciais de ações (IPOs) pode ter sido decepcionante. Enquanto em 2019 e 2020, o volume de dinheiro captado por meio dessas ofertas somou, respectivamente, 10,2 bilhões reais e 45,3 bilhões de reais, em 2021 essa quantia já ultrapassa 60 bilhões de reais. Há, no entanto, indícios de que o período de euforia está acabando e que os investidores se tornarão cada vez mais seletivos na hora de investir em IPOs.  

Olhando em retrospectiva, fica fácil perceber que ocorreram ofertas iniciais de um mesmo setor em uma janela curta de tempo, iniciada entre fevereiro de 2020 e setembro de 2021. Vimos a sequência de IPOs de incorporadoras, como Moura Dubeux, Mitre Realty, Plano & Plano, Lavvi e HBR Realty; de empresas de tecnologia como Méliuz, Neogrid, Enjoei, Locaweb, Mosaico, Getninjas, Dotz e Bemobi; de hospitais e farmacêuticas, como Rede D’Or, Mater Dei, Blau, Kora Saúde, Oncoclínicas e de “varejistas techs, como Mobly e Westwing. 

Esse retrato evidencia que, mesmo com a crise provocada pela pandemia, as empresas não deixaram de buscar recursos no mercado de ações. Muito pelo contrário. Aceleraram seus processos de abertura de capital para aproveitar o entusiasmo dos investidores e o aquecimento de seus setores. Nem todas as companhias, no entanto, tiveram sucesso na empreitada. Muitas realizaram seus IPO, mas precificadas abaixo do piso ou ancoradas por grandes fundos de investimento por causa da falta de demanda do mercado. E, nos casos mais extremos, ofertas foram adiadas, e muitas delas, canceladas.  

Diante da fartura de IPOs, o investidor, seja ele pessoa física ou institucional, precisou ser seletivo — e uma forma que encontrou para fazer isso foi “agrupar” as empresas que abriram capital e apostar em apenas um “cavalo” de cada setor. Uma estratégia prudente e que se mostrou acertada, diante de tantos IPOs com resultados negativos.  

A “janela” foi rápida demais? 

Para os investidores recém-chegados ao mercado, a principal mensagem do recente boom de IPOs é que toda cautela é pouca na hora de investir nessas ofertas. Nos IPOs, a assimetria de informação é gigantesca. Quem aloca quantidade expressiva de recursos nessas emissões (os institucionais) e ancora os IPOs tem acesso aos executivos responsáveis pela gestão da companhia e, portanto, mais subsídios para entender em profundidade o negócio antes de fazer seu investimento. A pessoa física, ao contrário, não tem a mesma oportunidade. Além disso, precisa lidar com um prospecto de 800 páginas para entender o que a empresa faz. E sejamos honestos, esse documento foi feito para ninguém ler. 

Outro problema diz respeito ao tempo entre a divulgação do prospecto completo e a tomada de decisão do investidor. Os prazos para análise costumam ser apertados, e ficam ainda mais exíguos quando há vários IPOs na mesma janela. Nessas situações, não é raro que o investidor se deixe levar pela pressa e pelo medo de ficar de fora da emissão (o famoso Fomo, fear of missing out) e acabe investindo no IPO sem entender bem os fundamentos da companhia. Também é preciso que a pessoa física fique atenta à presença de cláusula de lock-up na oferta. Esse dispositivo obriga o investidor a manter as ações por um determinado período após o IPO, restringindo sua liquidez. 

Esse cenário reforça a importância de que os investimentos sejam feitos com a máxima diligência. Por experiência própria, como analista e investidora, já caí nos encantos dos banqueiros de investimento e sofri as consequências no meu patrimônio. Por isso, para cada IPO que digo “sim”, mantenho a minha lista de 150 “nãos”, e o meu radar afinado para encontrar as oportunidades que façam realmente sentido. Essa seletividade torna-se ainda mais importante num momento conturbado como o atual, em que há perspectivas de juros novamente elevados (o que impacta negativamente o mercado de capitais) e muitas incertezas sobre os cenários político e fiscal em 2022. 


Danielle Lopes (e-mail [email protected]) é sócia e analista de ações da Nord Research 

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