O preço do investimento de impacto negativo

Mercado ainda falha em precificar consequências deletérias de ativos e empresas



Ilustração mostra investimento de impacto em prol do planeta

Investimento de impacto positivo requer um retorno financeiro combinado ao impacto positivo no âmbito social e/ou ambiental | Imagem: studiogstock/Freepik

Em novembro de 2010, o mercado foi apresentado a uma classe de ativos emergentes batizada de “investimento de impacto”. A primeira referência apareceu num relatório elaborado por J.P.Morgan e Rockfeller Foundation, em parceria com a Global Impact Investing Network (Giin). O documento consolidou um termo específico para os aportes de capitais que geram retorno financeiro combinado ao impacto positivo no âmbito social e/ou ambiental. A partir do novo selo, o relatório previu um potencial para aportes ao longo da década seguinte na faixa entre 400 bilhões de dólares e 1 trilhão de dólares.

A realidade ficou no meio-termo. Passados dez anos, um novo relatório da Giin, divulgado em outubro de 2020, mostrou que o investimento de impacto alcançou um estoque de 715 bilhões de dólares sob gestão ao redor do mundo. O resultado mostra um aumento significativo no interesse pelo tema, com crescimento de cerca de 80% ao ano em investimentos do tipo entre 2014 e 2019. Ainda assim, faltam algumas boas cifras para o teto estimado de 1 trilhão de dólares, alcançado em julho por outro braço do investimento sustentável: o ESG, focado em critérios ambientais, sociais e de governança.

Uma das razões que pode travar os aportes em investimentos de impacto é a falta de precificação do impacto negativo dos ativos concorrentes. “Não existe impacto neutro no mercado. Se a companhia não incorpora gastos e investimentos destinados a gerar um impacto positivo, alguém vai pagar essa conta, seja a sociedade ou o meio ambiente”, argumenta Marco Gorini, cofundador da Din4mo, venture builder especializada em negócios de impacto social. Essa contradição faz com que o investidor aposte em ativos com bons retornos financeiros sem perceber que existe um custo implícito nessa decisão.

Um exemplo é a Petrobras. A companhia amarga prejuízos bilionários causados pela pandemia de covid-19, mas o reforço na geração de caixa no terceiro trimestre conquistou os investidores, que levaram as ações da petroleira a fechar em alta de mais de 3% no dia da divulgação do balanço do terceiro trimestre. Existe também uma expectativa de distribuição de dividendos — a Petrobras já anunciou que vai remunerar os acionistas mesmo estando com prejuízo. Porém, isso seria possível se os custos ambientais e sociais da exploração do petróleo  fossem incluídos na conta da companhia?

Opção pelo impacto

A decisão de ignorar iniciativas de impacto positivo ainda não entrou na conta da Petrobras e nem da grande maioria dos negócios e investimentos mundo afora. E, ainda que as companhias não estejam prontas para encarar essas questões, esse não é um trabalho apenas para os executivos. Para que o preço do impacto negativo seja incluído nos produtos financeiros, é preciso mudar a cultura de toda a cadeia de investimentos — passando por reguladores, legisladores, instituições que organizam e distribuem valores mobiliários, e, por fim, pelos próprios investidores.

“Com seu capital, o investidor cria ou fortalece algo no mundo, e isso é o impacto — positivo, ou negativo. Na maioria das vezes ele é ignorado, mas entendo que cada vez mais os atores desse mercado serão cobrados por suas decisões”, opina Daniel Izzo, sócio, cofundador e CEO da Vox Capital, gestora de fundos líder e pioneira em investimento de impacto no Brasil. Izzo diz acreditar que a gestão de impactos será uma prática cada vez mais atrelada à gestão de risco de negócios e investimentos conforme o mercado ganhar estruturas mais firmes.

Obstáculos de comparação

O universo de investimento de impacto tem aproximadamente dez anos, e, como toda iniciativa jovem, ainda está em construção. O principal desafio é encontrar métricas padronizadas que permitam comparar diferentes impactos, assim como é possível contrapor resultados financeiros de ativos distintos. Os negócios e investimentos de impacto costumam ser analisados de acordo com suas especificidades, o que dificulta a criação de paralelos entre eles.

É uma encruzilhada. Afinal, como saber se uma empresa de microcrédito para famílias vulneráveis causa mais ou menos impacto do que um negócio inovador para a saúde de pessoas idosas? Gorini, da Din4mo, defende que o mercado não pode esperar perfeição dos processos para começar a aplicar em estratégias de impacto. “Vamos cometer erros, mas não estamos em condições de esperar. Precisamos trilhar esse caminho com um senso de urgência”, afirma.


Assista ao encontro “A nova fronteira do investimento de impacto” aqui 

O segredo, então, seria desenvolver as bases junto com o andar da carruagem, assim como já foi feito outras vezes no passado. Isso porque já se faziam investimentos muito antes da construção dos modelos atuais de medição de riscos e retornos. Até 1949, o mercado não conhecia, por exemplo, o conceito de value investing, adotado pela lenda dos investimentos Warren Buffett e aplicado até hoje como boa opção de avaliação das companhias abertas. A conclusão é que a criação e a consolidação desses modelos caberia ao próprio mercado, de preferência liderado por grandes empresas com recursos para investir nessa estruturação.

Impacto para todos

Para as pequenas e médias empresas, o caro processo de aferição de impacto pode ficar acessível em breve. Ainda sem data para ser lançada oficialmente, a [BVM]12 (Bolsa de Valores do Maré) pretende usar a expertise de parceiros aliada a um sistema de blockchain e inteligência artificial para baratear esses custos para os negócios listados. A meta é criar um ambiente de negociação voltado especificamente para startups que unem lucro ao impacto social positivo.

“Estamos desenvolvendo um modelo que sirva para qualquer produto ou empresa dentro da [BVM]12. O principal objetivo é garantir ao investidor que existe realmente um impacto positivo sendo gerado com o capital que ele aplica nas iniciativas listadas”, afirma Eduardo Baumel, CEO da bolsa. A aferição de impacto será feita periodicamente durante todo o tempo em que o ativo fizer parte da nova bolsa.

O detalhamento de como essa metodologia será implementada deve ser conhecido já nos próximos meses. A [BVM]12 está em negociações avançadas com a Comissão de Valores Mobiliários (CVM) para entrada no modelo de sandbox, um ambiente especial de regulamentação, com requisitos menos rígidos para os participantes. A CVM iniciou o processo de admissão de participantes no sandbox regulatório no dia 3 de novembro, e pretende selecionar até sete iniciativas nesta primeira fase do processo.


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