Será o fim do reinado do petróleo?

Num movimento simultâneo, pandemia aproxima e afasta data-limite para utilização de combustíveis fósseis



Ilustração mostra três barris de petróleo empilhados

Petróleo sofreu tanto com a pandemia que o preço da commodity chegou a fechar abaixo de zero | Imagem: brgfx/Freepik

A era do petróleo nunca esteve tão perto do fim. O status de principal matriz energética do mundo não foi capaz de imunizar a commodity diante das graves consequências provocadas pela pandemia de covid-19. O novo coronavírus dizimou a demanda pelo combustível. A queda foi tão brutal que, em abril deste ano, os preços dos contratos futuros de petróleo do tipo West Texas Intermediate (WTI) fecharam abaixo de zero pela primeira vez na história.

O setor vinha se recuperando, mas voltou a cambalear recentemente com a ameaça da nova onda de covid-19 nos Estados Unidos e na Europa. O resultado foi a pior semana para o mercado de petróleo em seis meses, com uma queda acentuada nos preços das duas referências da commodity. As baixas foram de 10,2% para o petróleo WTI e de 10,3% para o Brent, tipo de óleo negociado no Brasil.

As petroleiras também amargam más notícias. A Exxon Mobil, maior produtora de petróleo dos EUA, reportou seu terceiro prejuízo trimestral consecutivo. Foram 680 milhões de dólares perdidos entre julho e setembro de 2020, contra um lucro de 3,17 bilhões de dólares em igual período do ano passado. Os preços mais baixos e a queda na procura por produtos refinados também tiveram grande impacto sobre os resultados da estatal norueguesa Equinor (ex-Statoil), que teve um prejuízo líquido de 2,13 bilhões de dólares no terceiro trimestre deste ano, alta de 91% frente ao intervalo de julho a setembro de 2019.

Possibilidade de rebote do petróleo

O cenário, no entanto, pode ter um efeito rebote que favoreça os combustíveis fósseis no curto prazo. Isso porque a combinação entre preços baixos e abundância de oferta foi justamente a fórmula que levou o petróleo a reinar durante o século 20. “O petróleo barato volta a ser competitivo principalmente porque a crise cortará os incentivos governamentais que financiavam as alternativas de energia limpa”, afirma Adriano Pires, sócio-fundador e diretor do Centro Brasileiro de Infraestrutura (CBIE). A longo prazo, Pires não tem dúvidas de que o processo de transformação energética vai se impor sobre o petróleo. A questão é o timing. “Ao mesmo tempo em que a pandemia acelera a busca por sustentabilidade, a crise também alonga a era dos fósseis”, completa.

Caso Petrobras

O paradoxo pode ser observado no comportamento da brasileira Petrobras, uma das maiores petroleiras do mundo. A companhia foi gravemente impactada pelo novo coronavírus e amargou prejuízos em todos os trimestre de 2020, acumulando perdas de 52,7 bilhões de reais nos primeiros nove meses deste ano. Ainda assim, o terceiro balanço trimestral da Petrobras surpreendeu positivamente o mercado porque a empresa apresentou forte geração de caixa, com crescimento de 33,8% no Ebitda (lucro antes de juros, impostos, depreciação e amortização). Houve até mesmo um aceno aos investidores, com a alteração do estatuto para permitir a distribuição de dividendos aos acionistas mesmo em situações de prejuízo.

Apostar em mais alguns anos de bonança no setor de petróleo faz sentido para a Petrobras principalmente pela possibilidade de alto retorno com o pré-sal. A produção de petróleo na região aumentou 32% de janeiro a setembro em comparação aos três primeiros trimestres de 2019, com custos de extração 43% menores. Além disso, a companhia não está em posição de arriscar. Na opinião de Pires, as dívidas deixadas pelos tempos de corrupção pesam muito nas decisões da empresa. “Com um orçamento mais engessado, a Petrobras não consegue investir tanto em alternativas, como fazem algumas gigantes do setor”, observa.


Assista ao encontro “O futuro do petróleo” aqui

Transição energética

As petroleiras que mais investem em diversificação são as europeias. Os investidores do velho continente são os mais preocupados do mundo com critérios ESG (ambientais, sociais e de governança), e essa pressão se traduz no comportamento de suas principais companhias. A britânica BP, uma das vozes mais atuantes nesse sentido, lançou em agosto passado um compromisso ambicioso de transformar a companhia em uma produtora diversificada de energia limpa ao longo da próxima década. O plano inclui aumentar os investimentos em energia de baixo carbono para cerca de 5 bilhões de dólares anualmente até 2030 e, no mesmo período, reduzir em 40% a produção de petróleo e gás em relação aos níveis de 2019.

O prazo apertado tem uma razão de ser: 2030 é o ano em que se espera que o mundo atinja o pico de demanda por petróleo, segundo a Agência Internacional de Energia (AIE). A partir desse ponto, a commodity deve enfrentar um declínio de demanda que não voltará a se recuperar. Segundo o diretor executivo da AIE, Fatih Birol, o caminho ficará livre para a ascensão de outras matrizes energéticas, como a solar e a eólica. “Vejo a energia solar se tornando o novo rei dos mercados mundiais de eletricidade. Com base nas configurações atuais, a energia vinda do sol está a caminho de estabelecer novos recordes de desenvolvimento em todos os anos após 2022”, disse em comunicado.

Covid-19 como catalisador

Ainda que a era do petróleo chegue ao fim na próxima década, a velocidade do declínio ainda é uma incógnita. As transições anteriores — entre lenha, carvão e petróleo — duraram séculos e demandaram diversos ajustes de infraestrutura para acomodar as novas fontes de energia. Não será diferente com as alternativas sustentáveis, que dependem de grandes mudanças nas políticas governamentais para se tornarem viáveis. A questão é se o planeta será capaz de esperar por essa transformação. “As mudanças climáticas representam uma crise ainda mais grave que a pandemia de covid-19. E, ao contrário do vírus, que veio inesperadamente, essas mudanças estão sendo anunciadas há muito tempo”, afirma Marcelo Seraphim, diretor da organização Principles for Responsible Investment (PRI) no Brasil.

As questões são antigas, mas o novo contexto mundial parece ter conferido a elas novas perspectivas. É possível, por exemplo, que países e empresas tomem decisões mais agressivas em prol da sustentabilidade por causa da pandemia. Luis Sales, estrategista-chefe da corretora Guide Investimentos, diz que o novo coronavírus pode, inclusive, ser a origem de uma nova coalizão de governos que pressione ainda mais as companhias por posturas verdes. “O mercado já começa a precificar possíveis mudanças de regulação dos governos europeus. Soma-se a isso a própria incerteza relacionada ao petróleo, que é muito negativa. A tendência é observarmos uma migração para setores mais promissores como o de carros elétricos.” Sinal dos tempos: enquanto as petroleiras tentam se agarrar no que resta de demanda, a fabricante de carros elétricos Tesla surpreendeu o mercado com a marca histórica de 8,2 bilhões de dólares em receitas do terceiro trimestre de 2020.


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