Presentes da cultura
Inspirações da arte representam um libelo contra a mediocridade
Inspirações da arte representam um libelo contra a mediocridade
Numa hipotética sociedade obtusa, dirigida por medíocres, só há perdedores — Imagem: freepik

As eleições de outubro ainda estão em fase de seleção do elenco. Enquanto isso, no final do ano passado, Fernanda Montenegro e Gilberto Gil tornaram-se membros da Academia Brasileira de Letras. Coincidentemente, quando o Ministério da Cultura foi criado pelo ex-presidente José Sarney, Fernanda foi convidada a assumir a pasta, cargo que, anos depois, seria ocupado por Gil.

Falando em Sarney, também membro da ABL, lembro que, segundo sua biógrafa, a jornalista Regina Echeverria, no quesito cultura o ex-presidente estava a quilômetros de distância dos seus pares no Congresso. Sarney apoiou as atividades culturais, mas seu sucessor devastou o setor. São os tais “projetos” para o País, que oscilam conforme os governantes e seus aliados.

Num terceiro pleito, a Academia elegeu o neurocirurgião Paulo Niemeyer Filho, homem da ciência e autor de livros em sua área. Fechando o mês de novembro, foi escolhido José Paulo Cavalcanti Filho, advogado e autor de uma premiada biografia de Fernando Pessoa, entre outras obras. Finalmente, em dezembro, o economista Eduardo Giannetti da Fonseca, vencedor de dois prêmios Jabuti, também passou a ocupar uma cadeira na Casa de Machado de Assis.

Inspirações

A cultura não se restringe a nichos elitizados da sociedade. Quando a população frequenta espetáculos teatrais ou musicais não está apenas à procura de lazer, mas também de conhecimento, saber e inspiração.

A mediocridade é uma condição negativa, se podemos dizer assim. Ou uma opção. No filme Danton O Processo da Revolução (1983), o discurso de defesa do personagem-título, encarnado por Gérard Depardieu em sua melhor fase, é um contundente libelo contra a obscuridade, que tem o efeito de inspirar as plateias.

Para a economia, o setor tem relevância: livros, shows, discos, peças, séries, filmes e novelas. Os eventos geram trabalho para muitos e atraem turistas, interessados em bienais, feiras, festivais como Rock in Rio e Lollapalooza e desfiles das escolas de samba. Também se interessam por museus e cinematecas — desde que não corram risco de incêndios, como nas florestas.

Numa hipotética sociedade obtusa, dirigida por medíocres (e vice-versa ou, ainda, uma geleia geral), só há perdedores. Vale para a base e para o topo da pirâmide, incluindo governantes, empresários, gênios digitais e CEOs de bitola estreita.

Em sua autobiografia, Fernanda conta que durante a temporada de O Beijo no Asfalto, peça escrita especialmente para ela por Nelson Rodrigues, o público se dividiu entre aplausos e protestos. Em tempos de fervura ideológica (anos 1960), a manifestação contrária não foi política, mas moralista: Nelson não foi chamado de reacionário, como era comum na época, mas de tarado e pornógrafo.

Ao que parece, prevaleceu o ultraconservadorismo na reação preconceituosa (sempre ligada aos costumes), ofuscando a percepção da questão proposta naquele que é um dos trabalhos mais brilhantes do dramaturgo, notabilizado pela sua imaginação peculiar. Basta um grito e o fenômeno se repete. Acontece no teatro, acontece na vida.

Atualmente fala-se muito em educação financeira, mas é melhor cuidar da educação ampla, geral e irrestrita. Leio que o número de brasileiros no exterior bate recorde, com fuga de talentos e de desalentados, em busca da Pasárgada de Manuel Bandeira ou da Maracangalha de Dorival Caymmi. Apesar disso, sempre há tempo.

As eleições na Academia soaram como presentes de Natal e, desde já, desejo um ótimo outubro e os melhores votos em 2022.


Carlos Augusto Junqueira de Siqueira é advogado

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