Bola murcha

Por que a Copa do Mundo promete agregar tão pouco à economia e ao mercado de capitais brasileiros

Captação de recursos/Reportagem/Edição 127 / 1 de março de 2014
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De um lado, turistas do mundo todo circulando por 12 cidades, de todas as regiões do País, durante um mês inteiro. Investimentos de vulto na construção e reforma de estádios e hotéis e na melhoria da infraestrutura de transportes. Do outro, orçamentos estourados, obras atrasadas ou que sequer saíram do papel. E uma considerável redução no número de dias úteis com a adoção de feriados e pontos facultativos. O discurso do governo é que a medida visa facilitar a logística nos dias de jogos, mas não é só isso: ela busca compensar, em parte, as falhas na execução do planejamento da Copa do Mundo, que o Brasil sedia dentro de três meses. Qual será o legado para a economia local e, em especial, para o mercado de capitais? Ao que tudo indica, restará algo bem menos significativo do que se gostaria.

Pessimistas, realistas e otimistas trilham um caminho comum e convergem para as mesmas dúvidas, uma de curto e outra de longo prazo. A primeira é se o fluxo pontual de recursos trazidos em trinta dias de jogos irá compensar os ajustes de consumo inevitáveis no período, devido à diminuição de dias úteis. A segunda, se a exposição do Brasil irá aumentar de fato a capacidade do País de atrair visitantes a longo prazo e, assim, beneficiar as indústrias ligadas ao turismo.  Num horizonte mais curto de tempo, as perspectivas não são lá muito animadoras. “A Copa deve provocar uma melhora marginal na economia”, afirma Fábio Moser, CEO do Banco Fator. “E, na bolsa, seus efeitos devem ser pouco sentidos, já que o evento esportivo já está precificado no valor da maior parte das ações.”

Quando olhamos para o que ocorreu com outros países-sede, fica fácil entender a baixa expectativa. Mesmo nações desenvolvidas não conseguiram tirar bom proveito dos jogos. Os Estados Unidos, anfitriões da Copa de 1994, tiveram sua experiência dissecada pelos economistas esportivos Robert Baade e Victor Matherson, em um estudo intitulado A busca pela Copa: avaliando o impacto econômico do mundial. Os números não são nada empolgantes: algumas cidades-sede americanas tiveram perdas entre US$ 5,5 bilhões e US$ 9,3 bilhões, sendo que a expectativa era faturar US$ 4 bilhões. Além disso, analisando-se o quadro geral, a Copa não teve efeitos substanciais sobre a economia dos Estados Unidos. Segundo os autores do estudo, o mesmo ocorreu na Coreia, que dividiu com o Japão a tarefa de sediar a Copa de 2002.

Também não há garantias de que o Brasil receberá os recursos que se espera. As estimativas apontam que 600 mil estrangeiros visitarão o Brasil, gastando cerca de US$ 2,3 bilhões. Esse valor se somaria a outros US$ 7,9 bilhões despendidos por cerca de 3 milhões de torcedores brasileiros. Mais uma vez, a análise dos dados de outros anfitriões esfria os ânimos. No torneio de 2010, sediado na África do Sul, eram esperados 450 mil visitantes. O número real atingiu 309 mil e o faturamento, US$ 513 milhões, pouco mais de 60% dos US$ 900 milhões previstos pelo governo sul-africano.

Transferência de riqueza
No livro Soccernomics (Tinta Negra, 2010), os economistas especializados em futebol Simon Kuper e Stefan Szymanki afirmam que o Brasil não ficará mais rico com a Copa. Publicada em 2012, a obra analisa dados de jogos e da indústria do futebol para tentar explicar os resultados que trazem para a economia. “A Copa do Brasil pode ser entendida como uma série de transferências financeiras: dos impostos pagos pelos cidadãos para a Fifa, para os fãs do esporte e para os clubes e construtoras. É preciso ter claro o que realmente ocorre: a transferência de riqueza do Brasil como um todo para diversos grupos de interesse, dentro e fora do País. Não se trata de bonança econômica.”

Quando olhamos para o
que ocorreu em outros
países-sede da Copa do Mundo, fica fácil
entender a baixa
expectativa. Nações
desenvolvidas tampouco conseguiram tirar bom proveito dos jogos. Nos
Estados Unidos, os dados são desanimadores. Algumas cidades tiveram perdas de até US$ 9,3 bilhões

Os analistas logo detectaram quais empresas seriam beneficiadas por essa transferência de riqueza. Uma divisão de análise de mercado do Credit Suisse, o Holt, pinçou entre os papéis nacionais e estrangeiros ligados ao Brasil 22 empresas que poderiam se beneficiar dos efeitos da Copa do Mundo ao longo de 2013. A amostra é composta de 12 companhias nacionais pertencentes a indústrias diretamente beneficiadas pelos jogos, como construção, telecomunicações, turismo, alimentação e bebidas (entre elas Cielo, Grendene, Localiza, Arteris, Smiles, Iguatemi, BR Malls e Gol); cinco beneficiárias indiretas, cujo desempenho pode ser positivamente impactado pelo fortalecimento da economia (JBS, EZTec, Banco do Brasil, Porto Seguro e Kroton) e cinco estrangeiras proprietárias de ativos relevantes no Brasil ou com vendas expressivas por aqui (Casino, Embotelladora Andina, Sonda, America Movil e AGCO Corp). A metodologia utilizada demonstrou, em simulações, que essas ações sistematicamente performam acima da média do mercado. E a perspectiva de desempenho para as companhias selecionadas é otimista, com retomada do retorno econômico e aceleração do crescimento nos próximos meses.

Da amostra, uma grande parte das empresas atua no setor consumo. Intuitivamente, elas seriam uma das principais favorecidas pela Copa, mas há uma questão a ser ponderada: “Ainda não se sabe como a redução de dias úteis vai impactar as vendas”, diz Fábio Moser, do Fator. Ele se refere aos feriados e pontos facultativos que devem ser decretados em dias de jogos da seleção canarinho em todo o País e nos dias dos demais jogos nas cidades-sede.

Ambev, Alpargatas (fabricante das Havaianas) e Grendene são mencionadas como companhias que tendem a apresentar incrementos interessantes de venda, a despeito da redução de dias úteis. Esse otimismo, contudo, não se confirma no caso da Cielo. Em conferência realizada com analistas de mercado, em janeiro, o presidente da empresa de meio de pagamentos, Rômulo Dias, afirmou que a Copa (e a consequente redução no movimento do comércio, devido aos feriados) deve afetar de maneira adversa o ritmo de crescimento da companhia.

Também há um “porém” quando se analisa as empresas de aviação, como Gol e Tam. Se, de um lado, cresce a venda de passagens para turistas e torcedores que se deslocam entre as cidades-sede para assistir às partidas, de outro é esperada uma redução significativa no fluxo de viagens de negócios. A empresa de aluguel de carros Localiza, outra potencial beneficiária dos jogos, adota uma postura conservadora sobre os impactos do Mundial em seu negócio, principalmente em face do histórico recente. Nenhum incremento significativo em suas receitas foi registrado devido à Copa das Confederações, realizada em 2013 no Brasil.

Um estudo de Bruno Milanello, gestor da FAR, traz um alento e, todavia, uma sentença de que a Copa pouco agregará ao Brasil. Ele estudou o impacto de longo prazo da realização de mega eventos esportivos em outros países e, apesar de concluir que, de modo geral, os jogos pouco ajudam as economias, encontrou uma exceção: Barcelona, na Espanha, onde ocorreram os Jogos Olímpicos de 1992. “Hoje, Barcelona recebe praticamente a mesma quantidade de turistas que o Brasil inteiro, o que pode sinalizar uma esperança: se a exposição externa for positiva, as perspectivas de que o legado da Copa seja benéfico aumentam.” Mas há um detalhe: Milanello conta que a cidade espanhola se preparou por muito tempo, desde antes de se candidatar a receber os Jogos Olímpicos, e executou com antecedência as melhorias de infraestrutura necessárias. No Brasil, ao contrário, ascidades sedes estão todas tendo de correr atrás do prejuízo.

Ilustração: Marco Mancini/Grau180.com


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