Zangões fora da colmeia

No século 19, os corretores oficiais da Bolsa do Rio buscaram evitar o acesso dos intermediários livres ao pregão

Captação de recursos / Histórias / Edição 127 / 1 de março de 2014
Por 


Em março de 1876, os 25 corretores oficiais do Rio de Janeiro lograram obter do governo imperial uma providência que lhes ampliava os privilégios. Foi o decreto 6.132, cujo artigo 1º rezava:

“Nos edifícios destinados para praças do comércio haverá um lugar especial, separado e elevado, onde, à vista do publico, se reunirão os corretores de fundos quando tiverem de propor e efetuar transações sobre: […]”.

Seguiam-se as designações dos negócios que estavam subordinados à nova regra: fundos públicos nacionais ou estrangeiros; letras de cambio; empréstimos comerciais; ações de companhias autorizadas e admitidas pelo Estado; e compra e venda de metais preciosos.

O lugar especial, separado e elevado, era a rotunda conhecida como pregão, cujo acesso passava a ser exclusivo dos corretores, apartando-os dos demais usuários da Praça do Comércio, antiga denominação da Bolsa. O sistema de negociação em torno de um anel, também chamado corbeille, foi característica das bolsas brasileiras e subsistiu por quase um século, até os anos 1960.

O objetivo da medida era combater os intermediários livres, em muito maior número. Conhecidos como zangões, frequentavam o espaço exclusivo e podiam, até então, tratar livremente de quaisquer operações. Havia séria animosidade entre os zangões e os corretores nomeados, atados ao oficialismo cartorial. Um relatório da Junta de Corretores, de 1873, dava conta do clima de hostilidade:

“Daí a impunidade e o incremento diário que tem essa falange numerosa comumente chamada — zangões —, seita que já conta em seu seio cerca de 80 adeptos de todas as nacionalidades, uma grande porção dos quais não tem posição definida na sociedade. Esta classe bem pode chamar-se de refugium peccatorum, pois nela tem figurado conspicuamente o negociante falido e não reabilitado, o caixeiro que não pode encontrar emprego, o criado de servir despedido e até o policial que obteve baixa! Todos esses, por uma descuidosa e lamentável complacência da diretoria da Associação Comercial, obtêm ingresso no recinto da Praça do Comércio mediante uma prestação de 24$000 anualmente”.

Na gíria financeira do século 19, o termo “zangão” continha diversos significados. Era, ao mesmo tempo, aquele que circula em volta do mercado, o intermediário que opera em pequenas quantidades de ações, o que conduz negócios a corretores, o que divide comissões, o que é capaz de trapacear, etc. Não é termo totalmente pejorativo, mas não possui conotações de alta dignidade.

O combate aos zangões pelos corretores oficiais prejudicou de modo significativo a liberdade de negociar, a ampliação e a capilaridade do mercado de capitais.

Montagem, por Beto Nejme/Grau 180.com, sobre reprodução de obra de P. G. Bertichem Rio de Janeiro e Seus Arrabaldes 1856/ Alfred Fillon/Acervo Dom João de Orleans e Bragança/Wikipédia cc


Quer continuar lendo?

Você já leu {{limit_offline}} conteúdo(s). Gostaria de ler mais {{limit_online}} gratuitamente?
Faça um cadastro!

Tenha o melhor conteúdo do mercado de capitais sem limites ou interrupção.
Assine a partir de R$ 36/mês!
Você está lendo {{count_online}} de {{limit_online}} reportagens gratuitas

Seja um assinante!

Você atingiu o limite de reportagens gratuitas. Que tal se tornar nosso assinante? Além do acesso ao mais especializado conteúdo do mercado de capitais, você terá descontos de até 30% em nossos encontros e cursos. Aproveite!


Participe da Capital Aberto:  Assine Anuncie


Tags:  Praça do Comércio CAPITAL ABERTO mercado de capitais Bolsa do Rio Império do Brasil zangão corretor oficial corbeille Junta de Corretores Associação Comercial século 19 Encontrou algum erro? Envie um e-mail



Matéria anterior
Gírias de Wall Street
Próxima matéria
Bola murcha




Recomendado para você




Nenhum comentário

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado.



Leia também
Gírias de Wall Street
Você é um piker? Um clowngrade? Um caçador de elefantes? Passa boa parte do dia fazendo market research? Não entendeu?...