Objetivos de desenvolvimento sustentável exigem agilidade das empresas

Os esforços e desafios das companhias para o cumprimento das metas da ONU para 2030

Companhias abertas / 27 de julho de 2018
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Ilustração: Rodrigo Auada

Há três anos, líderes de 160 países reuniram-se na sede da Organização das Nações Unidas (ONU), em Nova York, e ratificaram uma agenda para promoção da sustentabilidade no mundo, em linha com os propósitos de erradicação da pobreza e de combate ao avanço das mudanças climáticas. O documento determina 17 objetivos de desenvolvimento sustentável (ODSs), ramificados em 169 metas, que devem ser cumpridos até 2030 por governos, sociedades e empresas. Ficou estabelecido que cada um desses atores vai elencar os pontos em que podem contribuir, de acordo com suas respectivas áreas de atuação. “É impossível fazer um checklist para se dar conta de todos esses objetivos interligados. Não há um guia, já que isso nunca foi feito”, observa Sonia Favaretto, diretora de imprensa, sustentabilidade, comunicação e investimento social da B3, referindo-se à necessidade de desmembramento dos tópicos da agenda.

O desafio é particularmente novo para o mundo corporativo. Isso porque os ODSs substituem as metas anteriormente em vigor — os chamados objetivos de desenvolvimento do milênio, válidos para o período entre 2000 e 2015 e destinados aos Estados que integram a ONU, sobretudo os de economia emergente. Como faltam apenas 12 anos para 2030, as empresas precisam agilizar seus processos, e algumas até já iniciaram a adaptação. Logo depois da assinatura do acordo, em outubro de 2015, a PwC fez uma pesquisa com empresas de 16 países (incluindo o Brasil) perguntando como estava a preparação. Dos entrevistados, 71% afirmaram pensar em ações para colocar em prática alguns dos ODSs no ambiente de trabalho e 92% indicaram a intenção de fazer um planejamento específico para atendimento dos pontos da agenda da ONU até 2020. A propensão mostrou-se positiva, mas naquela época apenas 13% das empresas ouvidas relataram ter de fato identificado as ferramentas necessárias para dar início à empreitada.

Como o tempo corre rápido, algumas empresas já se impõem metas ambiciosas. A Basf, por exemplo, estabeleceu que entre os cerca de 60 mil produtos oferecidos aos seus clientes em seu portfólio de vendas no mundo, fatia de 28% deve estar adequada às diretrizes de sustentabilidade até 2030. A multinacional alemã do setor químico concentra os esforços relacionados aos ODSs em gestão sustentável de água potável e saneamento, acesso a energia, promoção de trabalho e emprego, fomento à industrialização e à inovação, combate às mudanças climáticas e fortalecimento de parcerias para o desenvolvimento sustentável. “A implementação de práticas sustentáveis pelas empresas passa por resultados como influência social positiva e diminuição de impactos ambientais, mas, no fim do dia, ela também agrega retorno financeiro”, avalia Emiliano Graziano, gerente de sustentabilidade da Basf para América do Sul.

Esse último ponto não pode ser negligenciado. Afinal, a ONU estima em 2,4 trilhões de dólares o investimento necessário para cumprimento dos ODSs no prazo. “Empresas de setores inteiros precisam mudar suas práticas. E isso custa muito”, observa Fernando Malta, consultor de negócios da Sitawi – Finanças do Bem. A fim de facilitar a obtenção desses recursos, crescem as emissões de títulos com foco no desenvolvimento sustentável, como os green bonds. Esses papéis são destinados ao financiamento de projetos com impactos ambientais ou climáticos positivos, e as emissões inaugurais foram feitas pelo Banco Europeu de Desenvolvimento e pelo Banco Mundial, em 2007 e 2008, respectivamente. Segundo a Climate Bonds Initiative, organização de fomento ao mercado de títulos verdes, as emissões de green bonds no mundo somaram pouco mais de 160 bilhões de dólares em 2017.

No ano passado, o Banco Mundial também emitiu os primeiros bonds diretamente ligados ao cumprimento dos ODSs. O retorno dos títulos é ligado ao desempenho de companhias que apresentam contribuições significativas para o avanço nos ODSs e que compõem o índice Solactive — que reúne 50 empresas líderes em sustentabilidade. Foram arrecadados 163 milhões de euros de investidores de França e Itália com esses títulos.

No Brasil, empresas como BRF e Suzano já captaram recursos por meio de green bonds. O País aguarda ainda a aprovação dos certificados de recebíveis de saneamento, títulos de dívida emitidos pelas companhias para projetos de tratamento de água e esgoto, e do crédito de descarbonização, papel vinculado à produção de biocombustíveis.

 

Consumidor exigente

Seja para as empresas ou para os consumidores, o alinhamento ao desenvolvimento sustentável é fator determinante para se fazer ou não negócios. Na pesquisa de 2015 da PwC, 78% dos cidadãos entrevistados afirmaram estar mais propensos a usar um bem ou serviço de uma empresa signatária dos ODSs — na América Latina em particular, o percentual chega a 90%.

Já um levantamento da consultoria Europainel, encomendado pela Unilever e divulgado neste ano, mostrou que, num universo de 20 mil pessoas de cinco países, 88% dos indianos e 85% dos brasileiros e turcos afirmaram se sentir melhor ao consumir produtos fabricados de forma sustentável. A fatia cai para 78% nos Estados Unidos e para 53% no Reino Unido. A consultoria atribui tamanha diferença ao fato de os países emergentes estarem mais expostos a problemas sociais e ambientais decorrentes de práticas não sustentáveis, como baixa qualidade do ar, falta de água tratada e oferta insuficiente de energia. “No mundo, cerca de um bilhão de pessoas não têm acesso a fontes de energia, e a forma como terão acesso nos próximos anos vai ser determinante para sua qualidade da vida”, destaca Pedro Sirgado, gestor executivo de meio ambiente e sustentabilidade na EDP Brasil. “Tenho certeza de que daqui a dez anos o modelo de negócios vai ser completamente diferente”, completa.

De acordo com Sirgado, paralelamente aos esforços de implementação das ODSs, a EDP criou as chamadas “metas com propósito”, em que são considerados fatores como certificação ambiental e segurança no trabalho na avaliação de resultados, para além das métricas financeiras. No futuro, é possível que o alinhamento aos ODSs faça parte das metas da empresa, o que atrelaria a remuneração dos executivos ao cumprimento desses objetivos. A iniciativa seria mais uma prova da dedicação da EDP ao assunto. Hoje, os objetivos-foco da empresa (como a democratização do acesso a energia) são reportados diretamente ao conselho de administração.

Quem também leva o assunto a sério é a Klabin, empresa referência em ações sustentáveis no setor de papel e celulose e que adota os ODSs desde 2016. Dentre as iniciativas da companhia, está o compromisso de empregar energias renováveis em sua produção — cerca de 80% da sua matriz é composta por esse tipo de fonte. “A preocupação com a sustentabilidade precisa ser internalizada na companhia, não pode ser ‘departamentalizada’, e deve envolver desde o board até a totalidade do corpo operacional”, defende Júlio Nogueira, gerente de sustentabilidade e meio ambiente da Klabin.

No Brasil, desde o ano passado, o esforço das empresas listadas em apresentar relatórios de sustentabilidade levando em conta os objetivos é avaliado pela iniciativa ‘Relate ou Explique para os ODS’, da B3. Em 2017, do total de empresas listadas na Bolsa 47% não fazem menção aos ODSs em seus relatórios de sustentabilidade; 8% admitem não citá-los, mas afirmam estar elaborando essas informações. “Consideramos positivo esse resultado, principalmente porque a agenda é muito recente. As empresas tiveram pouco tempo para se engajar”, comenta Favaretto, da B3. Resta a expectativa de que elas transformem suas práticas bem antes de 2030.




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Tags:  Klabin sustentabilidade ONU EDP Banco Mundial green bonds B3 desenvolvimento sustentável ODS Basf Encontrou algum erro? Envie um e-mail



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