Governança climática: o que é e como levar a pauta a conselheiros e executivos

Entenda o que as companhias podem fazer para engajar a alta liderança e contribuir para a descarbonização da economia



Governança climática: o que é e como levar a pauta a conselheiros e executivos
Imagem: vectorjuice | Freepik

Imagine um cenário em que todos os riscos climáticos identificados em 2020 se tornassem realidade. Essa situação geraria cerca de 105 bilhões de dólares em perdas financeiras somente para companhias de países da América Latina. Os dados foram reportados por empresas à Carbon Disclosure Project (CDP) Latin America em um questionário distribuído pela organização não-governamental no ano passado. Dentre os riscos climáticos mais proeminentes apontados pelas companhias, estão o aumento na severidade de eventos climáticos extremos (20%), a alta na precificação de carbono (17%) e a mudança nos padrões de precipitações (16%). 

Diferentemente da poluição, facilmente visível nos oceanos e no ar, a crise climática é menos tangível e, por isso, muitas vezes, minimizada. Essa percepção, entretanto, tem sido alterada com o agravamento do aquecimento global. As ondas de frio congelante em locais de clima quente como o Texas ou as enchentes cada vez mais frequentes em grandes cidades de países como Alemanha e Inglaterra são um lembrete da catástrofe que o aumento desmedido da temperatura média global pode gerar.

Não à toa, os aspectos socioambientais têm ganhado um espaço maior na agenda do setor privado, seja por pressão externa — de reguladores, investidores, parceiros e clientes —, ou interna, de funcionários, diretores e conselheiros de administração. Cada vez mais, a alta liderança das companhias está consciente de que a redução das emissões de gases de efeito estufa deve ser tratada como um assunto estratégico e considerada em todas as decisões de negócio. Iniciativa que revela o compromisso da organização com a governança climática. 

Desafios da governança climática

Governança não é um assunto novo para executivos e conselheiros de administração. Hoje, companhias dos mais diversos portes compreendem a importância do assunto. Apenas uma pequena parcela delas, no entanto, conta com profissionais preparados para analisar os riscos e as oportunidades que as mudanças climáticas geram no curto e longo prazo.  “Muitas vezes o time de RI [relações com investidores], por exemplo, tenta propor alguma medida, mas a falta de conhecimento técnico representa uma barreira”, explica Rebeca Lima, diretora executiva do CDP Latin America. O problema é que esse desconhecimento dificulta a adoção de ações estratégicas que contribuam para amenizar o aquecimento global. 

“Muitos relatórios ainda chegam aos conselhos sem levar em consideração aspectos ambientais”, observa Sonia Favaretto, especialista em sustentabilidade, conselheira de administração e vice-presidente do conselho consultivo do CDP. “Isso não significa que as pessoas não achem o tema importante. Elas simplesmente desconhecem o assunto e não sabem como abordar seus riscos”, ressalta.

A presença de especialistas em sustentabilidade

Isso explica a pressão recente de investidores para que dois especialistas em economia de baixo carbono fossem eleitos para o conselho de administração da Exxon, uma das maiores companhias de exploração de combustíveis fósseis do mundo. Há cinco anos, observa Favaretto, esse tipo de iniciativa não aconteceria. “Pessoas como eu, com o meu histórico e conhecimento, não possuem o perfil óbvio de conselheiro. Não sou uma especialista em finanças e gestão.” 

Prova de que os tempos estão mudando é que hoje ela integra dois conselhos de administração, justamente por sua expertise em sustentabilidade. “Quando há alguém que de fato compreende o tema, é mais fácil para o conselho examinar o assunto, pois existe um profissional preparado para olhar as questões socioambientais e explicar a relevância do que está sendo apresentado”, destaca Favaretto. 

Como engajar a alta liderança das companhias

Para Ana Leticia Stivanin Senatore, gerente de sustentabilidade da Vivo (Telefônica Brasil), é importante que a alta liderança e o conselho de administração “comprem” a pauta da governança climática. “O engajamento dos líderes é essencial para que a discussão caminhe e envolva toda a empresa”. De acordo com a especialista, uma das formas que a companhia encontrou para engajar os executivos foi atrelar o pagamento de bônus desses profissionais  ao cumprimento de metas ambientais e climáticas. A partir do momento em que a iniciativa foi implantada, afirma, o assunto automaticamente ganhou a atenção da alta liderança. Isso explica por que cada vez mais companhias têm seguido esse caminho. Segundo Lima, das 120 empresas de capital aberto que responderam à pesquisa do CDP, 82% afirmaram oferecer algum tipo de incentivo aos executivos vinculado a indicadores climáticos.

“Há muitas oportunidades abertas pelas ações de adaptação aos riscos de mudança climática. Essas iniciativas podem gerar cerca de 125 bilhões de dólares para as empresas”, estima a diretora do CDP. As companhias ouvidas pela organização não-governamental acreditam que essas oportunidades residem principalmente na adoção de energia de baixo carbono (15%), no desenvolvimento de produtos e serviços de baixo carbono (14%) e no uso mais eficiente na produção e nos processos de distribuição (9%). Ou seja, caminhos não faltam para as empresas contribuírem para a descarbonização da economia.

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