Que venha 2022, ano de reconstrução

Cenário tem obstáculos como alta de juros globais, desaceleração da China e eleições presidenciais



Alexandre Póvoa é fundador da Valorando Consultoria e autor dos livros “Valuation”, “Como Precificar Ações” e “Mundo Financeiro, o Olhar de um Gestor” | Ilustração: Julia Padula
Alexandre Póvoa é fundador da Valorando Consultoria e autor dos livros “Valuation”, “Como Precificar Ações” e “Mundo Financeiro, o Olhar de um Gestor” | Ilustração: Julia Padula

Chega o ano de 2022 e com ele renovam-se as esperanças por dias melhores, sobretudo para o Brasil. Após quase dois anos de pandemia e mais de 600 mil mortos no País, chegou a hora da reconstrução. Infelizmente, as bases econômicas não estão sólidas e o crescimento anual projetado para o ano que começa circunda a triste marca de zero. Haverá uma eleição presidencial em outubro, e a nação clama por um projeto de País, que já há muito tempo faz falta. Aliás, é difícil acreditar que o Brasil sobreviveu à seguinte sequência de crescimentos médios do PIB: 2,1% ao ano entre 1991 e 2020, 1% ao ano de 2001 a 2020, 1% ao ano entre 2011 e 2020 e -1,1% ao ano no intervalo que vai de 2016 a 2020. Como melhorar a vida média da população em um país sem crescimento?

Inflação global

A inflação é um fenômeno mundial. Quem se arriscaria a dizer que os Estados Unidos estariam convivendo com um CPI (indicador de preços no varejo) de 6% anuais e um PPI (índice de preços ao atacado) de 9% ao ano? Que a inflação anual no Reino Unido algum dia atingiria 4,5%? Que a ortodoxa Alemanha apresentaria ao mundo índices de preços de 4% ao ano? Um choque de oferta, causado pela disrupção de cadeias produtivas (falta de matérias-primas e custos mais elevados), explica um dos lados dessa moeda. Já a outra face da inflação tem raízes em pelo menos uma década de juro virtualmente zero nos países desenvolvidos (taxas até negativas na curva), com índices de desemprego baixos e efeito-renda positivo advindo das altas das bolsas, sobretudo em países desenvolvidos. Contrariando todas as teorias de que associa um melhor retorno ao maior risco, nos últimos dez anos, na bolsa, o índice ACWI de países desenvolvidos subiu, em dólares, 150%, versus 35% do indicador EMM dos países emergentes.   

Os Estados Unidos, no período pré-pandemia, apresentaram vendas no varejo crescendo, em média, 4,2% ao ano nos dez anos anteriores. Foram observados PMIs (índices de atividade), por todo o globo desenvolvido, em território de expansão (acima de 50) tanto na indústria quanto em serviços. Mas, na verdade, a conta de políticas monetárias superexpansionistas chegou. O Banco Central da Inglaterra (BOE) foi o primeiro a subir juros, em 0,25%. O FED americano, por sua vez, anunciou a aceleração do tapering (fim da recompra de títulos) para março e prometeu três altas de juros para 2022. O Banco Central Europeu (BCE) também divulgou uma antecipação do tapering, enquanto o Banco Central japonês (BOJ) interrompeu um dos programas de recompra de títulos. Enfim, é o começo do fim do dinheiro farto no mundo.

Já a China vive um momento oposto, com atividade econômica menos aquecida, inclusive com o movimento inverso de política monetária — cortes nas taxas de compulsório e refinanciamento. Adicionalmente, existe o fantasma chamado Evergrande, incorporadora gigante que deve o equivalente a 300 bilhões de reais e está passando por um momento de dificuldades. A China representa o grande risco para o crescimento mundial.

Estagflação e juros altos

Se os países desenvolvidos estão vivendo uma relação macroeconômica normal — expansão com inflação — nós, brasileiros, provavelmente sofreremos com estagflação e juros elevados em 2022. O Banco Central (BC) não fez necessariamente um movimento errado ao jogar a taxa Selic para 2% ao ano no auge da pandemia. Mas certamente demorou a reagir à rápida elevação da inflação e ficou “atrás da curva”. A consequência foi o fechamento do ano de 2021 com 10% para o IPCA e com as estimativas para 2022 e 2023 desancoradas. Como o próprio BC já escreveu, será necessário conviver durante o ano que entra com taxas significativamente contracionistas, o que deve se traduzir em uma Selic de 12% anuais no topo do ciclo de aperto.  A autoridade monetária, corretamente, tem elevado o tom de seu discurso, para conter as expectativas.


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Se for observado o lado da atividade, a situação brasileira é desoladora. Os três indicadores mais importantes — produção industrial, vendas no varejo e serviços — além de terem apresentado marcações negativas nos últimos dois meses, encontram-se em patamar abaixo de dez anos atrás. Uma verdadeira década perdida. A taxa de investimento sempre foi muito baixa e o País vive soluços de consumo e de impulsos fiscais para crescer marginalmente.       

O lado fiscal, que sempre foi alvo de desconfiança, vinha nos últimos anos relativamente controlado. A fotografia — um déficit primário de 0,7% do PIB e um relação dívida/PIB de 83% — não assusta. Mas o fato é que o cadeado que tínhamos — o teto de gastos — foi arrombado no final de 2021. A mudança do cálculo de forma casuística alimenta a desconfiança de que a qualquer momento tudo pode mudar. A apólice de seguros contra aventuras fiscais, infelizmente, foi rasgada.

Contas externas

Por outro lado, no âmbito internacional, a situação do Brasil é muito confortável, com reservas de 370 bilhões de dólares e o investimento externo direto (3,4% do PIB) cobrindo em duas vezes o déficit em transações correntes (1,7% do PIB). Além disso, a dívida externa líquida bateu 70 bilhões de dólares negativos por conta do alto patamar de reservas. Certamente, em 2023, com a Selic a 12% ao ano e o FED fund rate a 1% ao ano, a discussão sobre o custo de carregamento dessas reservas — que voltará a 40 bilhões de dólares por ano — vai voltar à berlinda. Qual o nível ótimo de reservas para um país como o Brasil?

Essa situação externa tranquila leva todos os modelos de câmbio a classificar o real como extremamente desvalorizado atualmente. Desde o começo da pandemia, excetuando-se os surrados peso argentino e lira turca, a moeda brasileira foi a que mais se depreciou — 21% frente ao dólar. Os preços de equilíbrio nesses modelos giram em torno de 5 reais por dólar. Porém, há vários fatores em 2022 que podem manter a pressão sobre o real: elevação dos juros nos países desenvolvidos, com a treasury americana de dez anos batendo 2% ao ano; desaceleração na China, com impacto sobre o preço de commodities; deterioração do quadro fiscal brasileiro; crescimento baixo, situação que não atrai capital; problemas em outros mercados emergentes, como a Turquia; e incerteza gerada pelas eleições.

Falando nisso, o pleito será o corolário do ano de 2022. O grande temor é de que Lula e Bolsonaro, sem precisarem enfrentar uma terceira via competitiva, possam descambar para um discurso mais populista na campanha, sem debater os verdadeiros problemas do Brasil, cujo encaminhamento poderia levar a um crescimento sustentado. Mas não parece haver espaço para aventureiros na cena política. Que o próximo eleito tenha um projeto para o Brasil, que maximize a relação entre crescimento, inflação, juros e emprego. O País não suporta mais quatro anos de mediocridade absoluta, tal como vimos em vários mandatos nas décadas passadas e que levaram a desempenhos pífios da economia.


Alexandre Póvoa é fundador da Valorando Consultoria e autor dos livros “Valuation”, “Como Precificar Ações” e “Mundo Financeiro, o Olhar de um Gestor” | Ilustração: Julia Padula

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