Geração Z desafia lógica gananciosa do mercado financeiro 

Grupo etário tem preocupações além das variáveis de risco e retorno e influencia a reestruturação de setores inteiros 



A nova lógica da geração Z começa a impactar desde a oferta de produtos financeiros até a atração de talentos | Imagem: freepik

A mudança de mentalidade entre gerações é inevitável. Não por acaso, a Geração Z hoje é a que está em evidência. Até 2030, os zillennials, grupo que compreende os nascidos entre 1996 e 2010, terão um terço do PIB mundial no bolso, segundo pesquisa do Bank of America. A captação e gestão desse montante, que pode chegar a 33 trilhões de dólares, são influenciadas por particularidades geracionais. Os zillennials são a primeira geração inserida num ambiente tecnológico e digitalizado desde a infância e herdaram das gerações anteriores questões globais alarmantes, como as mudanças climáticas e a desigualdade social. No mercado financeiro, eles já começaram a encaminhar soluções para esses problemas ao impulsionar uma nova variável no processo de decisão: o impacto corporativo. 

“Antes, as variáveis clássicas dos investimentos eram risco e retorno. Existia menos informação disponível e menor busca também. Hoje o cenário é diferentecom outras questões na mesa”, afirma Pedro Vilela, cofundador e CEO da Rise Ventures, gestora de investimentos de impacto. Ele destaca um entre tantos pontos que movem as novas gerações: a concentração de renda. De acordo com a organização Oxfam, a parcela dos 1% mais ricos do mundo concentra mais do dobro da riqueza detida por 6,9 bilhões de pessoas. “Vivemos o efeito K — o capital remunera o capital e quem não o tem precisa lidar com a inflação. A preocupação com questões como essa parece nascer no ‘software’ das novas gerações, que não querem compactuar com essa dinâmica, avalia. 

Captação de talentos  

Para o mercado, essa nova lógica começa a impactar desde a oferta de produtos financeiros até a atração de talentos. Apesar de compreender a importância da estabilidade financeira e os benefícios de uma boa remuneração, a Geração Z não coloca o salário como fator decisivo na escolha de oportunidades de emprego. “Só o dinheiro não atrai e, se atrair, não vai manter aquele jovem talento em uma empresa”, afirma Danilca Galdinihead de pesquisa do Grupo Cia de Talentos.  

Recentemente, Wall Street tomou conhecimento de um episódio que ilustra bem essa nova relação. Em fevereiro, 13 jovens analistas da divisão de investimentos da Goldman Sachs se queixaram das condições de trabalho no banco, no qual são obrigados a cumprir uma carga horária que excede 100 horas semanais para atender às demandas do setor. Os funcionários recebem muito mais que a média salarial dos americanos recém-formados — 160 mil dólares por ano. 

Galdini observa que há uma busca crescente dos jovens por empresas alinhadas com valores pessoais, que valorizam questões ambientais, sociais e de governança (ESG) e tenham um propósito forte. Vilela, da Rise Ventures, reitera essa visão. Segundo ele, vagas abertas na gestora chegam a receber cerca de 600 currículos sem nenhuma divulgação em redes sociais. “Sentimos na pele essa demanda por negócios de impacto. Muitos são profissionais jovens e extremamente qualificados, o interesse é imenso”, relata. 

Gestão de ativos 

A pesquisa do Bank of America foi taxativa: a Geração Z já começou a mudar os investimentos de forma efetiva. Entre as descobertas do estudo está a relevância da sustentabilidade para essa geração — cerca de 80% dos 14 mil entrevistados afirmam considerar fatores ESG em seus investimentos. 

Ainda que algumas companhias de capital aberto apresentem aumento anual no lucro, elas já são punidas no valor de suas ações por causa da falta de compromisso com questões socioambientais, principalmente por parte de investidores institucionais. Com a entrada das novas gerações no mercado de trabalho e a ampliação da representatividade delas no PIB mundial, essa pressão tende a aumentar.  

“A JBS, por exemplo, aumenta os resultados ano a ano, mas o valor da companhia não cresce. Seu custo de capital está aumentando à medida que não adota práticas de governança transparentes e tem práticas eticamente questionáveis. Há uma falha grave — e imperdoável — no ESG”, ressalta Vilela. 

O mercado de capitais também deve se adequar à procura de informações fora de ambientes tradicionais. O mercado financeiro era considerado um clube restrito, com assessores de investimentos que retinham informações sobre ativos, mas a internet e o avanço de tecnologias o tornaram mais acessível. “O maior acesso à informação é positivo, mas tem seus aspectos negativos”, afirma Tereza Kanetahead do escritório de São Paulo da consultoria Brunswick. “Há muitos ruídos que geram episódios como o da GameStop, que começou em um fórum do Reddit e criou uma distorção nas ações da empresa. Na minha visão, foi uma exceção, mas o mercado está cada vez mais vulnerável a isso, comenta. 

Digitalização e reinvenção 

Nesse novo contexto, a palavra de ordem é reinvenção. “As novas gerações têm uma mentalidade completamente voltada para o digital. Isso define os serviços que elas buscam e é um diferencial imenso no mercado de trabalho. Mas poucas são as empresas estruturadas nesse sentido — o Brasil, especialmente, está muito atrasado. A pandemia empurrou pessoas e companhias para experimentar o digital em todas as instâncias, mas ainda é pouco”, opina Galdini. 

Ela defende a ideia de que o sucesso da transformação digital está intimamente relacionado à transformação cultural de companhias, mas este segundo aspecto é deixado de lado. “É curioso perceber isso, mas transformação digital tem muito mais a ver com pessoas do que com ferramentas. Se os funcionários só souberem usá-las parcialmente, essas ferramentas se tornam inúteis”, diz. 

Se as demandas das novas gerações parecem excessivas e apressadas para parte do mercado, estrategistas do Bank of America afirmam que é preciso se preparar para os próximos anos. Afinal, esse é apenas o início da revolução da Geração Z, que vai obrigar outras gerações a se adaptarem a ela, e não o contrário. 

 

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