Aposta em ativos sustentáveis deve se concentrar em biodiversidade em 2021 

Mesmo em estágio inicial, essa exigência de investidores já afeta composição de portfólios e impulsiona transformações em empresas como JBS 



Cerca de 44 trilhões de dólares do PIB mundial, parcela que supera a metade do valor total (87,55 trilhões de dólares), é moderada ou altamente dependente do funcionamento adequado de ecossistemas | Imagem: pch.vector – freepik

As mudanças climáticas e as emissões de gases de efeito estufa costumam estar no centro das demandas de investidores preocupados com o impacto ambiental das corporações. Agora, outra questão está ganhando espaço: a destruição de habitats naturais e a consequente perda de biodiversidade do planeta. O tema, impulsionado pela crise da covid-19, foi indicado pelo S&P Global Ratings como uma das principais questões ESG para o mercado financeiro em 2021, conclusão endossada pelo Conference Board em sua pesquisa feita com investidores sobre relatórios de sustentabilidade. 

“Os investidores estão buscando entender como podem incluir essa pauta em suas estratégias de investimento e colaborar para melhorar a agenda da biodiversidade”, diz Daniela Bulthuis, portfolio manager na Robeco, gestora holandesa conhecida pela defesa de ativos ESG, durante evento da CAPITAL ABERTO.

Bulthuis observa que os investidores também estão adotando políticas específicas relacionadas a setores que impactam ou são dependentes da biodiversidade, como a produção de óleo de palma, soja e carne bovina. “Esses setores estão entre os principais responsáveis pela desertificação de habitats naturais, e parte dos investidores busca reduzir o risco de sua exposição a essas atividades por meio de desinvestimentos ou de triagem”, detalha. 

Impactos socioeconômicos da perda de biodiversidade 

A biodiversidade é definida como a variedade de seres vivos presentes no planeta. O conceito pode ser aplicado a espécies, ecossistemas ou a características genéticas. A variedade biológica tem o papel de garantir a resiliência de ativos de capital natural (recursos naturais renováveis ou não). Como todos os ativos dessa ordem são interligados, o desequilíbrio em um deles gera consequências em cadeia. 

O Fórum Econômico Mundial é um dos atores globais que está ajudando a colocar essa questão em pauta. No Relatório de Riscos Globais de 2020, o Fórum identificou, pela primeira vez, a perda de biodiversidade como um dos cinco principais riscos para a economia global. O mesmo aconteceu no relatório deste ano — divulgado em janeiro, o estudo concluiu que esse é o risco com o maior impacto e a maior probabilidade de se concretizar no longo prazo (cinco a dez anos). 

Para o mercado, o atual ritmo de perda de biodiversidade representa um risco financeiro cuja magnitude salta aos olhos. Cerca de 44 trilhões de dólares do PIB mundial, parcela que supera a metade do valor total (87,55 trilhões de dólares), é moderada ou altamente dependente do funcionamento adequado de ecossistemas. Os setores mais dependentes são infraestrutura, agropecuário e alimentícioOs dados foram divulgados pelo Nature Risk Rising”, relatório produzido pelo Fórum Econômico Mundial em parceria com a PwC que indica que conduzir os negócios como de costume resultará em um crescente e perigoso impacto no uso da terra, no clima e na poluição. 

Propulsores da economia sustentável pós-covid 

A covid-19 deixou clara a relação entre a exploração não sustentável de recursos naturais e a propagação de doenças infecciosas, levando para o centro do debate questões ESG. A crise socioeconômica tornou 2020 um ano crucial para se elevar a importância das finanças sustentáveis, por ter mostrado a vulnerabilidade das economias e ampliado o debate sobre as mudanças climáticas ao enfatizar outros desdobramentos do aumento de temperatura do planeta. “Quando falamos sobre a questão das mudanças climáticas, proteger o ecossistema e a biodiversidade é tão importante quanto reduzir as emissões de gases de efeito estufa. A covid-19 nos ensinou uma lição valiosa sobre a importância de proteger o ecossistema e a biodiversidade”, defende Takeshi Niinami, CEO da Suntory Holdings, em relato publicado pelo FEM. 

Após a maioria das metas estabelecidas na Convenção de Biodiversidade, em 2010, não ser atingida e as consequências das ações do homem na natureza alcançarem um ponto crítico, a Organização das Nações Unidas (ONU) declarou o período de 2021 a 2030 como a década da restauração de ecossistemas. Nos últimos anos, várias iniciativas foram lançadas pela entidade para endereçar a perda de biodiversidade. Uma das proeminentes é a One Planet Business for Biodiversity, coalizão anunciada durante a Cúpula do Clima de 2019 (COP-25) com o objetivo de proteger e restaurar a biodiversidade em cadeias de valor. 

Em setembro de 2020, mais um passo foi dado nesse sentido com o lançamento do Taskforce on Nature-related Financial Disclosure (TNFD) por entidades globais em parceria com a ONU. Inspirada no Taskforce on Climate-related Financial Disclosures (TCFD), a coalizão visa desenvolver, até o fim de 2022, parâmetros para guiar relatórios financeiros em biodiversidade e capital natural. Também foram lançadas novas métricas, como a ecosystem accounting, criada pela Statistical Commission da ONU. Essa métrica vai além de dados comumente utilizados, como o PIB, e considera o capital natural das companhias, como florestas, oceanos e outros ecossistemas. 

Iniciativas das assets 

Uma pesquisa recente conduzida pela consultoria Leaders Arena ESG Advisory Services descobriu que investidores institucionais com 7 trilhões de dólares sob gestão já consideram questões relacionadas à biodiversidade em suas estratégias de investimento. Esse grupo inclui as gestoras Allianz Global Investors e BNP Paribas Asset Management e o fundo de pensão California Public Employees’ Retirement System (CalPERS). 

A BNP Paribas Asset Management, especificamente, comprometeu-se a apoiar os esforços globais para reduzir o desmatamento pela metade até 2030 — e o Brasil, como País que abriga a maior biodiversidade do mundo, entrou na mira da gestora francesa. Em fevereiro, a asset, que gerencia 390 bilhões de euros, anunciou uma nova política de investimento com critérios restritivos para alocação de recursos em companhias que atuam nas regiões do Cerrado e da Amazônia, especialmente aquelas que produzem soja e carne. 

Em carta, Antoine Sirehead of corporate engagement da BNP Paribas, afirmou que essa política é pioneira entre grandes bancos internacionais. Ela reflete uma crescente compreensão dos desafios associados à biodiversidade, não apenas na comunidade financeira, mas também entre muitos clientes corporativos. Estamos confiantes de que compromissos semelhantes serão assumidos por outras instituições em um futuro próximo.” 

O impacto de políticas do tipo foi sentido pela JBS em julho de 2020, quando o braço de investimento do maior grupo de serviços financeiros do norte da Europa retirou de seu portfólio a gigante brasileira da carne. A Nordea Asset Management, que administra cerca de 254 bilhões de euros, deu vários motivos para a decisão, incluindo os vínculos da JBS com fazendas envolvidas no desmatamento da Amazônia. “A exclusão da JBS é muito dramática para nós porque a companhia estava presente em todos os nossos fundos, não apenas naqueles rotulados como ESG”, disse Eric Pedersen, chefe de investimentos responsáveis ​​do Nordea, ao jornal britânico The Guardian. 

Outro estudoconduzido pela Bloomberg, cita a Fidelity International e a AXA Investment Managers como exemplos de gestoras que elevaram a proteção à biodiversidade à categoria de prioridade. Jenn-Hui Tan, chefe global de stewardship e investimento sustentável na Fidelity International, reforçou a importância dos investidores nesse sentido. “Eles têm um papel fundamental a desempenhar na proteção da biodiversidade e na criação de resultados positivos. Embora, em nosso entendimento, um bom progresso tenha sido feito sobre a precificação e integração dos riscos das mudanças climáticas, agora cabe a nós aprender a precificar o natural capital corretamente”, defende. 

É preciso, no entanto, considerar que o valor de 7 trilhões de dólares mencionado representa apenas uma fração dos cerca de 100 trilhões de dólares sob gestão das assets globais. Segundo levantamento do Credit Suisse, ainda que 84% dos investidores estejam preocupados com a perda de biodiversidade, 72% ainda não precificam o capital natural de seus ativos — ou o custo de perdê-lo. 

“Os investidores institucionais não integraram totalmente a biodiversidade aos processos de tomada de decisão de investimento ou avaliações de desempenho de sustentabilidade. Apenas um pequeno número está tomando medidas para gerenciar essa questão”, concluem os autores do relatório Investor Action on Biodiversity, feito pelo PRI, uma rede de investidores apoiados pela ONU. “Os investidores precisam reconhecer que a perda de biodiversidade é um risco sistêmico para as carteiras e que eles, junto às companhias, têm um papel fundamental no resultado da proteção à biodiversidade.” 

Inércia de companhias 

Apesar do interesse de investidores sobre os riscos ligados à perda de biodiversidade, apenas 32% das cem maiores companhias abertas dos Estados Unidos e da Europa divulgam como gerenciam questões de biodiversidade em suas operações, segundo a Leaders Arena. 

O mercado tem se mostrado mais reativo às decisões de governos e investidores do que se engajado nessa frente. A JBS é um bom exemplo. Após ser retirada do portfólio do Nordea e sofrer pressão de outras instituições, como o fundo de pensão KPL, a companhia anunciou um plano de monitoramento de toda a sua cadeia de produção com o uso de blockchain até 2025, o que inclui fornecedores indiretos e potencialmente ligados ao desmatamento ilegal. 

Mas alguns players começam a se mexer por conta própria. Os bancos asiáticos Banco AyudhyaMizuho e MUFG, por exemplo, fecharam um acordo de crédito vinculado à sustentabilidade para a Thai Union, uma das maiores processadoras de frutos do mar do mundo. A taxa de juros do empréstimo está atrelada a três métricas de desempenho: uma delas é o novo compromisso da empresa de atingir 100% de transparência em sua cadeia de abastecimento internacional até 2025. 

Mais uma empresa que garantiu uma linha de crédito rotativo vinculada a metas climáticas e de conservação da biodiversidade foi a finlandesa UPM. Para receber taxas de juros menores sobre o empréstimo de 905 milhões de dólares, a companhia deve mostrar um impacto positivo sobre a biodiversidade em suas florestas na Finlândia e uma redução de 65% nas emissões de CO2 de combustíveis e eletricidade até 2030. 

Os tópicos relacionados à perda de biodiversidade, destruição de ecossistemas e diminuição do capital natural receberão maior atenção global em maio deste ano na Conferência da ONU sobre Biodiversidade (COP15), que acontecerá em Kunming, China. No evento, devem ser estabelecidas as metas para a biodiversidade até 2050.

 

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Tags:  ESG Mudanças climáticas Amazônia Biodiversidade Encontrou algum erro? Envie um e-mail



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