Caso GameStop apresenta os robin-hoods do mercado de capitais 

Preços de ações da varejista de jogos e de outras empresas disparam sob efeito de discussão em fórum da rede social Reddit



Imagem: freepik

Tudo começou após a chegada do investidor ativista Ryan Cohen e de dois de seus aliados ao conselho de administração da GameStop, no dia 11 de janeiro. A Cohens RC Ventures, que em setembro se tornou a segunda maior acionista da varejista de games, pressionava a companhia para revisar o planejamento estratégico e melhorar o resultado operacional. A empresa perdia terreno na NYSE desde 2015, e Cohen assumiu o novo cargo a fim de reverter o cenário. Porém, ninguém seria capaz de prever o que viria a seguir: uma corrida febril, intensa e irracional para adquirir ações da GameStop, o que resultou em um salto vertiginoso de 1.742,7% — de 19,94 dólares para 347,41 dólares — nos papéis entre os dias 11 e 27 de janeiro. 

A alta foi decorrente de uma estratégia de short squeeze, nome dado à súbita valorização de ativos com o objetivo de pressionar investidores que apostam na baixa de preço a abrir mão de suas posições. Frequentemente relacionado à atividade especulativa, o short squeeze no caso GameStop não foi o primeiro a atingir uma proporção chocante — houve um episódio com a Volkswagen em 2008, depois apelidado de infinity squeeze. O que salta aos olhos é a diferença entre quem está por trás da valorização da GameStop e a maneira como ela aconteceu, algo tão surpreendente e cheio de desdobramentos que pode entrar para o catálogo de filmes originais da Netflix. 

Bem versus mal 

Vale fazer um paralelo entre Volkswagen e GameStop para ressaltar a excepcionalidade da situação protagonizada pela varejista de games. A alta nos papéis da fabricante alemã de veículos foi influenciada por um único player, a Porsche, que abocanhou cerca de 75% das ações da Volkswagen para conseguir uma posição mais forte na empresa. Já o rally das ações da GameStop não foi desencadeado por um único investidor, e sim por milhares deles coordenados e trocando informações no WallStreetBets, um fórum da rede social Reddit. 

Ao ouvir notícias sobre o aporte feito pela Cohen’s RC Ventures e a chegada de seu fundador ao conselho de administração da GameStop, esse grupo, composto por pequenos investidores, passou a apostar que as ações da empresa estavam subvalorizadas. Afinal, Cohen é bem conhecido pelo seu papel no ecommerce Chewy e, se o jovem milionário apostava em uma varejista de games em crise, por que eles não fariam o mesmo? Três dias depois de Cohen se tornar conselheiro, as ações da GameStop subiram 118% e atingiram o preço mais alto desde novembro de 2015 — na época, 138% das ações disponíveis para negociação eram vendidas a descoberto, segundo dados compilados pela S3 Partners. 

Mas ficou claro que alguns dos maiores hedge funds americanos pensavam o contrário. Ao venderem ações da GameStop e tornarem públicas essas posições, gestores de fundos como o Melvin Capital Management, que iniciou 2021 com 12,5 bilhões de dólares sob gestão, estavam obtendo retornos significativos enquanto apostavam que os papéis da empresa continuariam a cair. Incomodados em ver lucro obtido com a falência de empresas, o grupo reunido no Reddit tomou a atitude mais óbvia contra aqueles que consideravam “vilões”: inflar artificialmente o preço dos papéis da GameStop até causar perdas na casa dos bilhões aos hedge funds que apostaram em sua desvalorização. Entre os mais afetados estão Candlestick Capital Management, Citron Capital, D1 Capital PartnersMaplelane Capital, Melvin Capital Management e Point72. 

Desafio à lógica do mercado 

O caso desafia a lógica do mercado acionário, já que a decisão de compra feita por milhares de pequenos investidores estava longe de ser embasada em fundamentos econômicos. Ela foi incentivada pelo sentimento de injustiça contra os “tubarões de Wall Street”. A situação é tão incomum quanto alarmante para o mercado — pode indicar o início de algo totalmente novo no mundo financeiro, uma situação em que crowdsourcing mobiliza milhões de pessoas físicas para causar prejuízos inimagináveis. 

A ideia de bem contra o mal por trás do caso GameStop soa ainda mais dúbia ao se observar quem foram os verdadeiros vencedores da empreitada: grandes players do mercado financeiro, entre eles alguns hedge funds. Quase tão curioso quanto observar que a corretora preferida dos investidores jovens e iniciantes nos Estados Unidos responsáveis pelo rally da GameStop chama-se Robinhood — nome capaz de orgulhar grande parte dos especialistas em neuromarketing, dedicados a influenciar o inconsciente do público. 

Alerta aos reguladores 

GameStop foi o caso mais emblemático, mas não foi isolado. Até 27 de janeiro, as 50 empresas do Índice Russell 3000 com ações mais vendidas subiram 33%. Entre elas estão a Koss Corp, a AMC Entertainment e a Blackberry. No Brasil, um grupo chamado ShortSqueeze IRB divulgou um manifesto em que expressa o mesmo sentimento de oprimidos contra opressores para justificar a tentativa de criar um short squeeze com o IRB Brasil. 

Sem citar nomes, a Comissão de Valores Mobiliários (CVM) emitiu um alerta afirmando que a atuação de investidores com o objetivo deliberado de influir no regular funcionamento do mercado “pode” caracterizar ilícitos administrativos e penais. A questão que ainda está em debate, principalmente nos Estados Unidos, é se a ação conjunta de pequenos investidores configura manipulação de mercado. 

Enquanto não há resposta definitiva, vale acompanhar atentamente a investigação conduzida pela Securities and Exchange Commission (SEC), regulador do mercado de capitais americano. O órgão tenta entender se houve condução fraudulenta em postagens do Reddit — e, mais preocupante ainda, se houve uso de bots. 

 

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