Movimento “go vegan” fisga grandes investidores   

Avanço da onda vegana dá origem a fundos de venture capital focados nesse nicho e acirra busca pela próxima Beyond Meat  



"Go vegan": movimento sacode a indústria alimentícia e fisga investidores

Investidores apostam no venture capital para buscar negócios disruptivos com potencial de resolver ou amenizar problemas globais | Imagem: Freepik

Algumas tendências de mercado são passageiras, mas existem aquelas que prometem transformar indústrias de forma profunda — e o veganismo parece estar nesse segundo grupo. De hambúrgueres à base de plantas (plant-based) até leites extraídos de oleaginosas, o mercado global de alimentos veganos cresceu cerca de 20% nos últimos dois anos, passando de 12,7 bilhões de dólares em 2018 para 15,4 bilhões de dólares em 2020. Se os dados, obtidos pela Euromonitor Internationaljá são positivos agora, o futuro promete números ainda maiores — especialistas dizem que a onda vegana está ainda no início. Entre as previsões de crescimento mais modestas está a da Expert Market Research, que estima que esse mercado avance 9%¹ entre 2021 e 2026 e atinja cerca de 26,1 bilhões de dólares. Isso explica por que os investidores — sejam eles gestores de recursos ou pessoas físicas — buscam abocanhar uma fatia de empresas que estão se tornando referência nesse setor.  

Por que o veganismo 

A decisão dos consumidores de optar por produtos que não sejam de origem animal está sendo impulsionada principalmente por questões de saúde — obesidade, diabetes, doenças cardiovasculares e câncer são alguns dos males relacionados a uma dieta rica em carnes, ovos e laticínios.  

Mas há fatores secundários, fortemente relacionados à mudança de visão de mundo dos millennials e da geração Z. Um deles é a conscientização sobre os direitos dos animais, o que aumenta a procura por produtos cruelty free (não testados em animais). Também entra na lista a preocupação crescente com as mudanças climáticas e o impacto ambiental massivo da indústria da carne. Segundo a Organização das Nações Unidas (ONU) a pecuária é responsável pela emissão de 7,1 gigatoneladas de COequivalente² por ano, o que corresponde a 14,5% de todas as emissões antropogênicas de gases do efeito estufa. 

Veganismo é tendência mundial 

Hoje, a América do Norte e a Europa são os maiores consumidores de produtos veganos. De acordo com a instituição The Vegan Society, entre 2012 e 2017 a demanda por alimentos sem origem animal cresceu 987% no Reino Unido. O tema se tornou tão popular que a varejista de livros Waterstones, uma das maiores redes britânicas do setor, registrou em seu catálogo de 2020 cerca de 10 mil títulos que contêm a palavra “vegan” — em 2018, esse número era de modestas 944 referências. 

Apesar de o mercado de alimentos veganos ser maior em economias desenvolvidas, ele não está restrito a elas. O Reino Unido, tão proeminente nessa discussão, não é considerado a “capital vegana do mundo”. O título é de Tel Aviv, em Israel, que tem a maior porcentagem de veganos em termos per capita do mundo — 5% dos cerca de 400 mil habitantes da cidade, segundo a organização Israel21c.  


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No Brasil, maior exportador de carne bovina do mundo, também se observa uma mudança surpreendente nos hábitos alimentares da população. Segundo dados do Ibope, a quantidade de brasileiros que não consomem carne quase dobrou entre 2013 e 2018, totalizando cerca de 30 milhões de veganos e vegetarianos no País.

Ainda que os veganos e vegetarianos no Brasil e no mundo representem uma parcela pequena da população, os alimentos veganos não são exclusivos daqueles que seguem essa dieta: têm uma alta penetração de mercado. Um exemplo é o Reino Unido, onde estima-se que 92% dos produtos plant-based foram adquiridos por não veganos em 2018, de acordo com levantamento da Kantar. Também é válido considerar a popularização da dieta flexitariana (“flexível” e “vegetariana”), que promove uma alimentação livre de carnes, ovos e laticínios na maior parte do tempo, mas não proíbe o seu consumo. 

Carne vegetal ou cultivada em laboratório?

A redução do consumo de produtos de origem animal, principalmente da carne, já começa a impactar a indústria de processamento de proteína animal em toda a sua cadeia, da agricultura até o abate e a distribuição. Mas, para preencher essa perda, cada vez mais startups surgem com inovações na produção de produtos similares à carne. Hoje, as duas principais fabricantes de “carne” vegetal são as americanas Beyond Meat e Impossible Foods. Ambas usam produtos derivados de plantas para imitar o sabor e a textura de carne e já fecharam negócio com grandes redes de restaurantes, como Bareburger e Burger King.  

Também existem outros métodos para se produzir proteína sem envolver a exploração e a morte de animais, principalmente a partir de cultivo celular em laboratório. Entre os nomes mais conhecidos desse ramo estão a Memphis Meats, a New Age, a SuperMeat e a Aleph Farms. Porém, o principal desafio de todas elas é o mesmo: produzir em larga escala “carne” à base de células cultivadas em laboratório. A israelense AlepFarms foi a primeira a anunciar ter conseguido desenvolver uma plataforma capaz de cumprir esse objetivo e deve apresentá-la em 2022. 

Paralelamente, o que se observa agora é uma corrida entre os maiores players do mercado para ampliar seus portfólios e evitar a perda de market share. A Tyson Foods, por meio do braço de venture capital da companhia (Tyson Ventures), investe em startups como a Memphis Meats e a Future Meat Technologies, além de desenvolver uma linha própria de produtos plant-based. Já a Unilever preferiu adquirir a holandesa The Vegetarian Butcher, enquanto a Nestlé fez o mesmo com a Sweet Earth, que produz uma variedade de alimentos veganos. 

Aposta do venture capital

A pandemia de covid-19 evidenciou uma série de questões preocupantes que podem impactar a economia mundial. Como resultado, estimulou a transição de recursos para investimentos de impacto e sustentáveis, com potencial de resolver ou amenizar problemas. Nesse cenário, o venture capital se tornou a principal escolha de investidores em busca de negócios disruptivos. 

Em janeiro, a Blue Horizon Ventures, empresa de capital de risco voltada à indústria de alimentos sustentáveis, estruturou um fundo de 183 milhões de euros que investirá em startups, desde aquelas voltadas à produção de proteínas alternativas até o desenvolvimento de embalagens inteligentes. Segundo a Blue Horizon, a meta inicial era arrecadar 100 milhões de euros, e o fundo já está fazendo aportes em startups como The Livekindly Co., produtora de carnes vegetais, e a Mosa Meat BV, que cultiva carnes em laboratório. 

Outro fundo de capital de risco com foco em investimentos plant-based é o Veg Capital. Criado em 2020, o fundo britânico tem tíquetes de investimento que variam de 50 mil libras a 250 mil libras. Segundo o Vegan Business, o Veg Capital se uniu ao investidor-anjo Christian ‘Crica’ Wolthers para ampliar seus investimentos no mercado brasileiro, principalmente em foodtechs. 

A próxima Beyond Meat 

Em seu dia de estreia na Nasdaq, a Beyond Meat tinha ações negociadas a 25 dólares — ao final do pregão, os papéis já valiam 65 dólares, resultado que classificou a oferta inicial de ações da empresa como o melhor IPO de 2019. 

Isso mostra o interesse no mercado plant-based e incentiva a busca por companhias com o mesmo potencial da Beyond Meat. Até mesmo um ETF voltado a investidores alinhados com as ideias por trás do veganismo foi criado — o VEGN. O ETF evita investimentos em empresas cujas atividades contribuam diretamente para o sofrimento animal, destruição do meio ambiente e mudanças climáticas. Além da Beyond Meat, acompanha as ações de bigtechs, entre elas Apple, Microsoft e Facebook. Entre setembro de 2019 e 2020, intervalo de um ano após seu lançamento, o ETF superou o S&P 500 — registrou retorno de 27,7%, enquanto o S&P ficou em 19,6%.  

Segundo a Bloomberg, a mais nova promessa que entra no radar do mercado de capitais é a sueca Oatly AB, fabricante de alimentos e bebidas veganas — a empresa busca uma uma possível listagem nos Estados Unidos. 


¹Considerando a compound anual rate growth (taxa composta anual de crescimento) 

²A medida inclui, além do carbono, a concentração de outros gases de efeito estufa

 

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