A vez dos blue bonds

Chegada da COP 26 reforça a importância de títulos que financiem a proteção dos oceanos e desenvolvam a chamada economia azul



Blue bonds
Blue bonds são títulos de dívida com foco na preservação dos oceanos e rios e no financiamento de projetos que promovam a chamada “economia azul” | Imagem: freepik

Na costa do Mar Mediterrâneo, perto da pequena ilha hispânica Formentera, uma pradaria marinha de 15 quilômetros de extensão, chamada Posidonia Oceanica, é monitorada de perto por cientistas. A despeito do que pensam os leigos, ela não é formada de algas, mas sim de ervas marinhas — e estas consistem em um potente e eficaz remédio contra a crise climática. Apesar de ocuparem apenas 0,2% do fundo do mar, elas representam 10% da capacidade do oceano de armazenar carbono — o chamado “carbono azul”. Além disso, captam CO2 da atmosfera até 35 vezes mais rápido do que as florestas tropicais. Não à toa a preservação e recuperação das pradarias marinhas estão inclusas em um dos 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) da Organização das Nações Unidas (ONU). E a boa notícia é que os investimentos necessários para o alcance dessa meta podem vir dos agentes dos mercados financeiro e de capitais. Com o início da COP26, em Glasgow, na Escócia, eles devem reforçar suas apostas em ativos que ajudem no combate à emergência climática, entre eles os blue bonds. 

“Se o oceano fosse uma economia, ela seria a sétima maior do mundo, produzindo 2,5% do PIB mundial”, estima Joaquín González, portfolio manager do banco espanhol BBVA, em artigo. O número reforça a importância de os investidores cuidarem bem desse ecossistema. Além das pradarias marinhas, os manguezais e sapais (regiões frequentemente inundadas por água de maré) integram a lista da ONU de áreas que precisam de investimento para serem protegidas. De acordo com relatório do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC), com foco nos oceanos e na criosfera, esses três habitats podem armazenar, em conjunto, até mil toneladas de carbono por hectare, um valor muito mais alto do que a maioria dos ecossistemas terrestres.  



Daí a importância dos blue bonds, títulos de dívida com foco na preservação dos oceanos e rios e no financiamento de projetos que promovam a chamada “economia azul” — conceito que tem como pilar o crescimento das atividades marítimas em conjunto com o uso sustentável dos recursos oceânicos. Relativamente jovens, os blue bonds são uma ramificação dos green bonds, títulos dedicados a iniciativas que preservem o meio ambiente e estimulem o uso de fontes de energia renovável. 

O surgimento dos títulos azuis 

O primeiro blue bond foi ofertado em 2018. Não por uma empresa, mas pelo governo de um dos menores países do mundo: o arquipélago de Seychelles, localizado na costa africana. Feita com apoio do Banco Mundial, a emissão levantou cerca de 15 milhões de dólares com a participação de três investidores internacionais: Nuveen, U.S. Headquartered Prudential Financial Inc. e Calvert Impact Capital. 

A iniciativa abriu os olhos dos países dependentes da economia azul para a chance de financiarem projetos marinhos e de pesca sustentável por meio do mercado de capitais. Além disso, serviu de chamariz para as empresas. Por meio dos blue bonds, elas podem captar recursos para uma variedade enorme de iniciativas — desde aquelas voltadas à aquicultura sustentável e ao desenvolvimento de tecnologias de rastreabilidade de pescados, por exemplo, até ações de ecoturismo. Atento a essa oportunidade, no último dia 15 de outubro, o Banco da China lançou blue bonds no valor de 942,5 milhões de dólares. Os recursos serão usados para acelerar a construção de parques eólicos offshore (que produzem energia limpa no meio dos oceanos) e a instalação de redes para tratamento de águas residuais, entre outros projetos. A oferta foi coordenada pelo BNP Paribas. 

No início deste ano, a americana Seaspan Corp, maior locadora de contêineres do mundo em capacidade de transporte de carga, também usou o instrumento. Ao todo, captou quase um bilhão de dólares, que serão usados para financiar navios que emitam menos carbono. A emissão bilionária aconteceu apenas alguns meses depois de a companhia ter manifestado seu interesse em ofertar blue bonds pela primeira vez, em julho de 2020. Na época, a pretensão era atrair gestores de recursos para uma captação de 500 milhões de dólares. A demanda, entretanto, ficou acima do esperado, e a empresa aumentou a oferta para 750 milhões de dólares. Os títulos foram distribuídos com prazo de vencimento de oito anos e remuneração de 5,5% ao ano.  

Dado o apetite dos investidores por esse tipo de ativo, a expectativa é que os blue bonds sigam a mesma trajetória de sucesso dos títulos verdes. Os primeiros green bonds chegaram ao mercado há cerca de uma década e, atualmente, o volume captado por eles supera a marca de 350 bilhões de dólares nos Estados Unidos, de acordo com dados da Climate Bonds Initiative. O valor ultrapassa o recorde de 2020, de 269, 5 bilhões de dólares. “Os blue bonds têm ganhado mais espaço, diante dos esforços do mercado para aumentar a visibilidade de questões críticas relacionadas ao ambiente marítimo”, comenta Nicholas Pfaff, head de finanças sustentáveis ​​da International Capital Market Association, em entrevista ao Wall Street Journal



Um oceano de obstáculos 

Embora os blue bonds sejam um filão para as empresas da indústria marítima, a verdade é que uma questão prática impede esse segmento de se tornar mais sustentável. Hoje, não existe no mercado um combustível de baixa emissão de carbono a preço acessível que possa ser usado pelos navios. Ainda assim, a Seaspan tem investido na construção de embarcações com tanques que acomodem novos tipos de combustível. Sua expectativa é que, no futuro, os clientes prefiram transportar suas mercadorias em navios que usem fontes menos poluidoras que o gás natural, ainda que isso encareça os custos. A empresa também se debruça sobre projetos pioneiros que consigam alterar a forma e os sistemas de propulsão das embarcações.  

Outro obstáculo a ser considerado é o fato de que iniciativas de carbono azul tendem a custar mais caro para as empresas do que outros meios tradicionais de compensação de carbono, como o plantio de árvores. Já do ponto de vista dos investidores, é preocupante a ausência de um arcabouço regulatório global que previna casos de enganação (o chamado greenwashing) em emissões de blue bonds e outros títulos verdes. Sem regras claras que regulem e fiscalizem essas ofertas e seus agentes, como as empresas de certificação, há o temor de que os valores investidos nesses títulos não sejam aplicados, de fato, em projetos sustentáveis. 

Diante desse cenário, o presidente americano Joe Biden já prometeu que irá lançar, ainda neste ano, um conjunto de regras que tragam mais transparência para os investimentos com foco ESG (sigla, em inglês, para fatores ambientais, sociais e de governança). O mesmo caminho será seguido pela União Europeia. O movimento é visto com bons olhos pelo Principles for Responsible Investment (PRI), maior órgão mundial da indústria para finanças sustentáveis, com 3.500 empresas-membro e 100 trilhões de dólares em ativos. Segundo a organização, o diálogo intergovernamental continua sendo “uma peça faltante no quebra-cabeça” do universo ESG. Mas considerando a onda de investimentos que inunda o mercado de blue bonds e títulos verdes, é de se esperar que os países se organizem. E rápido. 

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