A escassez do “novo petróleo”

Falta de semicondutores no mercado global provoca estragos em diversas indústrias — e, o pior, o martírio deve durar até 2023



Falta de semicondutores no mercado global provoca estragos em diversas indústrias
No setor automotivo, a carência do suprimento provocou a paralisação de fábricas e afetou a produção de carros novos no mercado, fazendo com que os preços dos veículos usados no Brasil saltassem cerca de 20% | Imagem: pikisuperstar – freepik

Os semicondutores estão presentes em absolutamente todos os aparelhos eletrônicos — desde os mais simples, como uma torradeira de pão, até os mais complexos, como os computadores super avançados instalados nas estações espaciais. O avanço tecnológico tornou esses pequenos chips de processamento indispensáveis para diversas atividades econômicas, a ponto de sua importância ser comparada à do petróleo no passado. O potencial do setor — e da mina de ouro que ele representa — não demorou a despertar a atenção do mercado financeiro. Em agosto, a gestora de recursos BlackRock lançou um ETF voltado à indústria global de semicondutores, com acesso a 200 companhias em mais de 15 países. O BTG Pactual também não perdeu tempo e estreou no último mês um fundo multimercado que replica o índice PHLX Semiconductor (SOX). Listado na Nasdaq e composto de ações de renomadas empresas do setor, entre elas Intel, Nvidia e Qualcomm, o indicador subiu cerca de 54% em 2020. 

Mas se como investidores os acionistas estão felizes com a valorização, como consumidores é possível que nem tanto. Isso porque a alta tem um motivo bastante particular: no último um ano e meio, o desequilíbrio entre a oferta e demanda pelo componente se agravou, levando a uma escassez de chips e, consequentemente, a um aumento do seu preço no mercado global — situação positiva para as empresas de semicondutores que puderam lucrar mais. Por outro lado, esse cenário prejudicou fortemente diversos setores da economia, que tiverem de reduzir a produção por falta de peças e elevar substancialmente o valor dos produtos que ainda conseguem entregar para o cliente final.  

No setor automotivo, a carência do suprimento provocou a paralisação de fábricas e afetou a produção de carros novos no mercado, fazendo com que os preços dos veículos usados no Brasil saltassem cerca de 20%, de acordo com a Federação Nacional de Distribuição de Veículos Automotores (Fenabrave). Os fabricantes de smartphones sentiram igualmente o baque. Tanto que a Apple alertou seus investidores de que a falta de semicondutores poderia prejudicar a venda de seu carro-chefe, o IPhone. E para quem busca uma luz no fim do túnel, o prognóstico não é nada positivo: a escassez de semicondutores deve perdurar por anos, alertam especialistas.  

Tempestade perfeita 

Engana-se quem pensa que a crise de abastecimento começou com a covid-19. Embora tenha ajudado a agravar o problema, a falta de semicondutores já assombrava o mercado antes mesmo de a crise sanitária estampar os jornais. Head da equipe de análise da consultoria americana Gartner, Koray Kose explica que o avanço do 5G, dependente de uma complexa rede de sensores, há tempos pressionava as fabricantes de chips. A decisão do governo Donald Trump, em maio de 2019, de impedir a venda de semicondutores e outras tecnologias americanas para a gigante chinesa Huawei, como forma de retaliar a China, também desequilibrou o mercado. Para não perder competitividade, a gigante chinesa comprou quantidades enormes de semicondutores de outros países, a fim de formar um inventário capaz de suprir sua demanda de curto e médio prazos. Ao seguir esse caminho, entretanto, tirou de circulação peças que abasteceriam outras empresas. “A covid-19 foi apenas a gota d’água”, afirma Kose. 

Com a pandemia, a escassez de chips aumentou. Diante das notícias de que fabricantes de semicondutores interromperiam temporariamente a produção por causa do surto de covid-19, empresas de tecnologia decidiram estocar o componente e antecipar encomendas, acirrando ainda mais a disputa por chips. Para piorar, dois episódios inesperados: uma tempestade de neve no Texas, nos Estados Unidos, paralisou fábricas do produto na região; e um incêndio na gigante Renesas Electronics, no Japão, impactou a produção de 30% das peças do mundo.  

A tempestade perfeita, como não podia deixar de ser, foi um aumento astronômico nos preços dos semicondutores. Maior fabricante de chips do mundo, a Taiwan Semiconductor Manufacturing Co. (TSMC) disse aos clientes, em agosto, que planejava reajustar os preços dos seus produtos em até 20%, maior aumento já aplicado pela companhia de uma só vez. No Brasil, empresas que montam placas eletrônicas relatam disparos de preços que se aproximam de 280% e atraso de até seis meses na entrega dos semicondutores.  

O drama das montadoras 

Um dos setores mais afetados pela carência do insumo foi o das montadoras. Com a desaceleração da produção de veículos e fechamento de fábricas por causa da covid-19, muitas suspenderam encomendas de semicondutores. Como consequência, os componentes foram direcionados para outros setores, como o de computadores e smartphones, que viram a procura por seus produtos subir com o avanço do home office e da educação a distância. O problema é que, quando decidiram retomar o ritmo de produção, as montadoras foram colocadas no “fim da fila”. 

Até mesmo empresas importantes do setor que tinham estoques enormes de semicondutores foram obrigadas a reduzir o ritmo de suas fábricas. É o caso da Toyota, maior montadora do mundo em volume de vendas. Desde o terremoto de 2011 que atingiu o Japão e o desastre nuclear de Fukushima, a companhia tem como política estocar chips, o que evitou que sua linha de montagem fosse interrompida até o mês passado, quando foi obrigada a cortar a produção global em 40%. Não à toa, uma onda de pessimismo atingiu o setor. O CEO da Daimler estima que o sofrimento com a escassez de semicondutores durará até 2023. Já o presidente da Volkswagen evita cravar uma data, mas compartilha a visão de que a crise irá perdurar por anos. 

A falta de previsibilidade assusta a indústria automotiva, extremamente dependente dos semicondutores para a sua produção. Os automóveis utilizam chips para diversas funções, que vão desde o gerenciamento do motor por computador de bordo até o uso de recursos de assistência ao motorista, como freios de emergência. Para se ter ideia, um modelo SUV de médio porte, como o Volkswagen Taos, usa cerca de 300 chips. Já o Chevrolet Onix embarca aproximadamente mil semicondutores. Uma das principais fabricantes de chips do mundo, a Intel estima que esses componentes serão responsáveis por mais de 20% dos custos de carros premium em 2020, contra 4% em 2019.  

Hora de investir 

Mas se a escassez veio para ficar — pelo menos por mais alguns anos — o que é possível fazer para contornar a situação? No âmbito governamental, países como Estados e Europa — responsáveis por 12% e 9% da produção global de semicondutores, respectivamente — estudam formas de aumentar a produção local de chips, para reduzir a dependência de importações de países asiáticos.

Já a indústria de semicondutores está investindo pesado para dar conta da crescente demanda. A taiwanesa TSMC, por exemplo, anunciou que vai destinar 100 bilhões de dólares nos próximos três anos para reforçar a capacidade de produção de suas fábricas. Já o grupo Samsung pretende gastar 205 bilhões de dólares no mesmo período. A Intel informou que tem planos de investir até 95 bilhões de dólares na próxima década para construir instalações para a fabricação de chips na Europa.

A questão é que, como as próprias empresas evidenciam em seus planejamentos, levará um tempo até que esses investimentos se transformem em produção. De acordo com a Gartner, em 2020, foram fabricados mais de 1 trilhão de semicondutores. Essas vendas geraram, no mundo, 440 bilhões de dólares em faturamento, valor 10,4% maior do que o registrado em 2019. E a previsão é que até 2028 esse montante cresça 8,6% ao ano. “A crise não será resolvida até este Natal, e acho difícil que seja solucionada até o fim de 2022″, afirma Koser. Uma péssima notícia para os consumidores, que devem acompanhar os preços dos produtos eletrônicos subirem ainda mais.  

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