Cortina de fumaça encobre ESG na cadeia de alimentos

Mesmo portfólios que se pretendem sustentáveis têm dificuldades para encontrar ativos no setor



Cortina de fumaça encobre ESG na cadeia de alimentos
Entre as 100 empresas globais de capital aberto com gestão mais sustentável é praticamente nula a representatividade do setor de processamento de alimentos | Imagem: freepik

Duas gigantes do setor de petróleo e gás recentemente sentiram na pele os resultados da força da atuação coordenada de investidores e do avanço da pauta ambiental na sociedade. Enquanto na americana ExxonMobil Shell acionistas conseguiram emplacar especialistas em economia de baixo carbono no conselho de administração — uma estratégia para direcionar os esforços da companhia para inovações sustentáveis —, na anglo-holandesa Shell a pressão veio da Justiça, com a determinação de um juiz europeu para que reduza suas emissões em 45% até 2030. Embora sejam relevantes, essas notícias não são surpreendentes num cenário de forte expansão das pautas ESG (fatores ambientais, sociais e de governança). Parece natural cobrar responsabilidade de empresas de combustíveis fósseis. 

Ocorre que essa demanda intensa sobre companhias de óleo e gás acaba criando uma espécie de cortina de fumaça em relação a um outro segmento econômico de importância equivalente quando se trata de efeitos das atividades humanas sobre o planeta: o de processamento de alimentos. Se no caso das multinacionais de combustíveis fósseis é possível — embora não seja fácil — mensurar as emissões de carbono e seus reflexos sobre as condições climáticas, entre as indústrias de alimentos a questão é bem mais difusa. 

Algumas informações dão a dimensão do problema. Uma pesquisa feita pelo jornal The Wall Street Journal mostra que, entre as 100 empresas globais de capital aberto com gestão mais sustentável é praticamente nula a representatividade do setor de processamento de alimentos. A amostra do levantamento incluiu nada menos que 5,5 mil companhias listadas, avaliadas conforme critérios ESG. No top 100, a indústria alimentícia só emplacou a suíça Nestlé.   

Efeitos indiretos 

Produzir comida na escala que a humanidade hoje demanda é uma tarefa que envolve um sem-número de agentes, com suas respectivas e quase infinitas interligações. Nesse cenário, mesmo que tenha a melhor das intenções, uma empresa do setor listada em bolsa que periodicamente apresente ao mercado informações detalhadas num relatório de sustentabilidade pode indiretamente estar ferindo aspectos importantes da agenda ESG. Por exemplo: será que essa companhia mensura os efeitos nocivos de áreas de monocultura administradas por fornecedores sobre a qualidade do solo? Afinal, mesmo que tenha uma certificação de “orgânico”, uma área extensa que tenha apenas uma única cultura pode empobrecer o solo e emitir carbono em excesso, gerando custos ambientais. E ainda que essa área esteja sob os cuidados de um terceiro, se os alimentos vindos desse solo são usados pela empresa para fabricação de seus produtos, talvez não seja o caso de considerá-la sustentável sob a perspectiva ESG.

Não por acaso, esses aspectos pouco evidentes da cadeia de produção de alimentos começam a configurar uma questão sensível para as gestoras que apostam no apelo da responsabilidade socioambiental para montar seus portfólios. Atenta a esse cenário, a organização sem fins lucrativos Ceres, voltada para questões de sustentabilidade, divulgou uma lista de 50 empresas de alimentos e agricultura consideradas intensivas em emissões de carbono. Segundo o trabalho, integrante de uma estratégia mais ampla de engajamento de investidores, a maior parte dessas companhias está deixando a desejar em aspectos chave para suas pretensões de concretizar seus planos relacionados a mudanças climáticas. Diz a Ceres que a maioria das empresas da lista não está dando a publicidade adequada às emissões referentes à agricultura e ao uso do solo. Se as ações dessas companhias estiverem em “carteiras ESG”, portanto, o investidor pode estar levando gato por lebre.     

E essa situação tende a ser mais comum do que imaginam os investidores. Dada a obscuridade dessa cadeia produtiva, a exposição de fundos de investimento com o selo ESG a companhias de alimentos que de alguma forma não ajudam (ou até prejudicam) práticas ambientalmente corretas pode aumentar de maneira pouco clara os riscos das carteiras. Um problema que agora pode não parecer relevante, mas que diante do avanço das demandas ESG e das métricas para esse recorte tem possibilidade de virar um gargalo no futuro. 

Aspecto social 

Ainda mais nebulosa é a ligação da indústria de alimentos e das empresas agropecuárias com o “S” do ESG, o fator de mais difícil avaliação objetiva entre as três letras da sigla. Identificar, quantificar, precificar e avaliar os riscos envolvidos em questões sociais no campo são tarefas bastante difíceis. Uma abordagem mais rigorosa do pilar social incluiria, por exemplo, os efeitos negativos da exposição de trabalhadores rurais e empregados de unidades de processamento de alimentos (como abatedouros e frigoríficos) a produtos químicos e/ou processos insalubres. Não é necessário pensar muito para concluir que é extremamente difícil “monetizar” os impactos dessas situações sobre a saúde pública. E nunca é demais lembrar que o lema das empresas atualmente, pelo menos em tese, é a preocupação com todos os stakeholders. Todos.  

A análise ESG de empresas de alimentos enfrenta também a barreira da mensuração dos reflexos socioambientais da distribuição dos produtos. Transportes de mercadorias para longas distâncias evidentemente envolvem emissões de carbono, mas a medida dessa parte da cadeia sobre os negócios das indústrias é abstrata. Para contornar esse problema, um caminho que vem sendo adotado por algumas gestoras de recursos no exterior é investir em empresas menores que, com cadeias menos extensas, permitem uma avaliação menos imprecisa dos impactos da operação em termos de ESG. A gestora Canopy Asset, sediada no estado americano da Geórgia, por exemplo, aporta recursos numa empresa nova-iorquina cuja atividade principal é conectar pequenos produtores a consumidores da metrópole. Para os investidores dispostos a seguir essa estratégia, o desafio é encontrar ativos com características mais mensuráveis, mas que não ofereçam riscos significativos por causa da escala menor das atividades.

CRAs verdes 

Há, ainda, outras rotas fora do universo das grandes empresas listadas para investidores interessados em financiar a “comida sustentável”, mas ainda dentro da roda do mercado de capitais. Tem crescido recentemente no País a demanda por certificados de recebíveis do agronegócio (CRAs) com uma “pegada” de sustentabilidade — o papel até já recebeu a alcunha de “CRA verde”. Um caso emblemático é o da Fazenda da Toca, maior produtora de ovos orgânicos da América Latina. Em emissão da securitizadora Ecoagro e coordenada pela Necton Investimentos (corretora recentemente incorporada pelo banco BTG Pactual) no último mês de maio, a empresa obteve 25 milhões de reais para investimento no negócio. Detalhe importante: a demanda pelos papéis superou em 240% a oferta. Entraram na operação 48 investidores, pessoas físicas inclusive. 

Vale uma breve apresentação da Fazenda da Toca. Gerida pelo empresário Pedro Paulo Diniz, filho de Abilio Diniz, a empresa opera numa área de 2,3 mil hectares que antes era ocupada por uma produção extensiva (e nada orgânica) de laranjas na cidade de Itirapina, no interior de São Paulo. A aposta de Diniz (filho) foi na agricultura regenerativa, que recupera e enriquece o solo por meio de um manejo adequado de culturas e criação de animais — isso bem antes de ESG virar sigla conhecida. O modelo também envolve o cuidado com os trabalhadores, que têm carteira assinada e escola de qualidade para os filhos dentro dos limites da fazenda (o “S”). Dentre os sócios no projeto está a Península Participações, empresa de investimentos da família Diniz. 

O sucesso dos CRAs verdes evidencia que existem boas ideias na indústria de alimentos para atender demandas ESG de investidores. Segundo Moacir Teixeira, sócio-executivo da Ecoagro, cerca de 60% das operações que a securitizadora fez em 2021 até meados do ano eram CRAs verdes. Ele estima um potencial de 163 bilhões de reais nos próximos nove anos. O volume dá uma ideia do potencial de captação de recursos por companhias do setor que levam a sério a sua responsabilidade socioambiental. Pressão para que elas andem na linha não vai faltar. 

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