Impérios

As destruições provocadas por figuras como Xerxes e Eike Batista

Crônica / 20 de dezembro de 2018
Por 


Impérios

Ilustração: Rodrigo Auada

A única obra de Pollock em acervo público no Brasil (doada por Nelson Rockefeller) foi colocada à venda, para assegurar a sobrevivência do MAM. Diante dessa miséria, os chamados fundos patrimoniais filantrópicos (endowments) poderão dissipar certas lembranças incômodas, desde que adotados por doadores e gestores comprometidos com a educação e o futuro.

O investidor, então maior acionista pessoa física do Banco do Brasil, reclamou comigo — a instituição estaria transformando uma importante agência em “lugar de violões e cachaçadas”. Referia-se ao Centro Cultural Banco do Brasil, instalado no prédio neoclássico que abrigou a sede da ACRJ, o pregão da bolsa de valores e a sede do próprio banco.

Relembrei essa história ao ver as imagens do Museu Nacional em chamas, confundindo-se com cenas do filme Quo Vadis?, de 1951, que não é lá essas coisas, mas tem o impagável desempenho de Peter Ustinov personificando Nero.

Ao que consta, Nero dedilhava sua lira enquanto Roma ardia, dado o imperial desejo de reconstruir a cidade, ao seu jeito poético. À exceção de Júlio César, dos imperadores Augusto, Marco Aurélio e mais uns poucos, os líderes romanos não fariam má figura no consultório do doutor Philippe Pinel.

Cláudio submeteu aos senadores a relevante questão sobre a impossibilidade de viver sem os tira-gostos. O Senado estranhou, mas, ajuizadamente e por unanimidade, declarou que a vida seria insuportável. Domiciano, por sua vez, consultou a Casa sobre um molho que experimentara. Também em decisão unânime, os senadores decretaram que se tratava de molho picante. Sem maiores preocupações culinárias, Calígula nomeou seu cavalo, Incitatus, como senador.

Nenhum deles, porém, superou Xerxes, o jovem rei da Pérsia, filho de Dario. O Estreito de Dardanelos é enjoado, especialmente quando invasores se aventuram por lá. Durante a Primeira Guerra, Churchill planejou uma operação ali e o desastroso episódio quase encerrou sua carreira.

Pois muito antes da belicosa Era Cristã, Xerxes esbarrou na travessia do mesmo obstáculo. Preparou uma ponte amarrando seus barcos, mas o mar destruiu rapidamente a improvisada obra.

Xerxes açoitou o mar com 300 chibatadas, um castigo reservado aos escravos. O mar não pareceu se importar, tanto que, séculos depois, destruiria parte da ciclovia de São Conrado, no Rio de Janeiro, logo depois de concluída.

Por falar no Rio — e sem comparações indevidas —, no início do século 21 o mercado financiou alguns empreendimentos do império X, acima e abaixo da linha d’água.

Mas, em terra firme, o império torpedeou o histórico Hotel Glória, de 1922. Na bucólica Marina da Glória, que é tombada, atracaria um shopping vertical. A antiga sede do Flamengo, no Morro da Viúva, quase foi reduzida a escombros.

Mais dramático foi o despejo do Canecão, a icônica casa de Botafogo, onde se escrevia a história da MPB. Pois também para lá o império apontou seu periscópio. O Canecão acabou e hoje, a exemplo do Hotel Glória, hospeda roedores e insetos.

Quanto a Xerxes, após superar uma tenaz resistência na famosa batalha das Termópilas, foi derrotado pela democracia grega em Salamina e Plateias. O episódio das Termópilas, levado às telas em Os 300 de Esparta, 1962, teve nova versão no atual século (300) que, recheada de efeitos digitais, foi exibida nos EUA, no Brasil e em outros países.


Carlos Augusto Junqueira de Siqueira, advogado, é autor da seção “Crônica”, publicada a cada dois meses na Capital Aberto


Leia também

Desafio à lógica: As surpresas que vêm depois das eleições 

As baleias falsas de Copacabana

Interventores (ativistas, inclusive) chegam com ares de César triunfante e com disposição de Jack, o Estripador

 


Quer continuar lendo?

Faça um cadastro rápido e tenha acesso gratuito a três reportagens mensalmente.

Tenha o melhor conteúdo do mercado de capitais sem limites ou interrupção.
Assine a partir de R$ 36/mês!
Você está lendo {{count_online}} de {{limit_online}} matérias gratuitas por mês

Você atingiu o seu limite de {{limit_online}} matérias por mês. X

Ja é assinante? Entre aqui >

ou

Aproveite e tenha acesso ilimitado ao melhor conteúdo sobre mercado de capitais!

Básica

R$ 36 00

Mensal

Acesso Digital
-
Desconto de 10% em grupos de discussão, workshops e cursos de atualização
Acervo Digital

Completa

R$ 42 00

Mensal

Acesso Digital
Edição Impressa
Desconto de 10% em grupos de discussão, workshops e cursos de atualização
Acervo Digital

Corporativa

R$ 69 00

Mensal

Acesso Digital - 5 senhas
-
Desconto de 15% em grupos de discussão, workshops e cursos de atualização
Acervo Digital

Clube de conhecimento

R$ 89 00

Mensal

Acesso Digital - 5 senhas
-
Desconto de 20% em grupos de discussão, workshops e cursos de atualização
Acervo Digital | Acervo de Áudios



Participe da Capital Aberto:  Assine Anuncie


Tags:  EIKE BATISTA Encontrou algum erro? Envie um e-mail



Matéria anterior
Aprovação de MP de fundos patrimoniais só depende de sanção presidencial
Próxima matéria
Fabio Luchetti: Gestão com antroposofia



Comentários

Escreva o seu comentário sobre este texto!

O seu endereço de e-mail não será publicado.



Recomendado para você





Leia também
Aprovação de MP de fundos patrimoniais só depende de sanção presidencial
Na quarta-feira, 12 de dezembro, o plenário do Senado aprovou a criação dos chamados fundos patrimoniais de apoio...
{"cart_token":"","hash":"","cart_data":""}