Sem cerimônia

Interventores (ativistas, inclusive) chegam com ares de César triunfante e com disposição de Jack, o Estripador

Crônica / 24 de agosto de 2018
Por 


Ilustração */ Rodrigo Auada

Sem fazer cerimônia, chega a notícia da intervenção. O substantivo é neutro mas, habitualmente, vem associado a eventos desagradáveis. Por exemplo, intervenções militares, cirúrgicas, urbanas, políticas, econômicas, externas.

E ainda as perigosas intervenções da natureza, na forma de erupções vulcânicas, tsunamis, terremotos e tempestades — como aquela dos ventos desatados que levou o capitão de longo curso Vasco Moscoso de Aragão a amarrar seu navio com todas as cordas, ferros, espias e manilhas, salvando, dessa forma, um intrépido Ita, da Costeira de Navegação, na divertida história de Jorge Amado.

As intervenções desconhecem limites, mas nem todas são nocivas. No final dos anos 1960, as guitarras, até então restritas ao iê-iê-iê da Jovem Guarda, decidiram intervir nos gêneros mais tradicionais da MPB e mesmo Elis Regina, que em 1967 liderou até passeata contra elas, acolheu depois os guitarristas, nas bandas que a acompanhavam. Nos anos seguintes, as guitarras, merecidamente, conquistaram espaços.

Em 1975, Paulinho da Viola arrematou essa conversa no interessante samba Argumento e, como se estivesse dialogando com os defensores da intervenção — ou com as próprias guitarras —, cantou com sabedoria. “Faça como um velho marinheiro, que durante o nevoeiro, leva o barco devagar.”

Com as devidas adaptações e analogias, o bom conselho (eles existem), vale para qualquer caso de intervenção.

Tradicionalmente, os acionistas se dividem em diversas categorias. Não faz muito, juntaram-se às já existentes a dos denominados ativistas, que, quando na extremidade do novo ramo, são chamados de abutres. Dentre estes, uma parte pressiona a administração e outra parte resolve exercê-la.

Acabam atingindo todo o quadro acionário: a intervenção de um ativista pode determinar a retirada dos demais e já se formou um consenso de arrasa-quarteirão quando esses investidores atingem o alvo. Por conta do ingresso do fundo Elliot na Telecom Italia, assumindo a maioria das vagas no conselho e ávido por dinheiro no curtíssimo prazo, a venda da Tim Brasil pode entrar na pauta. Também a alemã ThyssenKrupp se movimenta, pressionada pelo indesejado ingresso do Elliot em seu quadro.

Por aqui, tais sucessos vêm acontecendo e alguns interventores chegam com ares de um César triunfante, como diria Nelson Rodrigues, e disposição do Jack, o Estripador, de olho grande na alma e nas tripas da empresa, cortando rendas, babados e custos, a qualquer preço, inclusive com a dispensa de funcionários qualificados, logo acolhidos pela concorrência agradecida. É difícil avaliar os efeitos no day after das companhias, mas podem ser demolidores.

Nesses casos, não sei como os interventores se reportam à administração, antes de o barco adernar, apesar das promessas iniciais de grandes resultados. Alguma coisa desafina, escorregando entre as notas desse arranjo – quem chega, desmonta a operação e ainda é pago para isso.

Passada a borrasca, vem o pesadelo na última linha do balanço. Desse jeito, o substantivo ainda acaba associado também aos contos de fadas. Ou do vigário. Afinal, quem responde pela má gestão?

Quanto aos demais acionistas, diante da tempestade, devem mesmo se precaver, amarrando seus barcos cautelosamente, como fez Moscoso de Aragão.


Carlos Augusto Junqueira de Siqueira, advogado, é autor da seção “Crônica”




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