As baleias falsas de Copacabana

O insider e as fake news não vão desaparecer, mas talvez alguns espertos se deem mal

Crônica / 29 de junho de 2018
Por 


Ilustração: Rodrigo Auada

Leio sobre a iniciativa do ministro Luiz Fux, presidente do TSE: em face das eleições de outubro, ele declara guerra aos boateiros. Sabendo-se o que aconteceu na recente eleição presidencial americana — nenhuma novidade, já que o comitê de Richard Nixon, na campanha da reeleição em 1972, disseminou todos os boatos possíveis contra George McGovern —, é bom mesmo que alguma coisa seja feita. O TSE conta com a Abin e a Polícia Federal, além de poder cobrar as próprias redes sociais.

O distante 1968, aquele que não terminou, foi um ano de chumbo grosso, mas não se passou somente em meio a escaramuças ou coisas piores. Teve seus dias plácidos, como aquele em que dei com a crônica de Rubem Braga na revista Manchete. O título era “Baleias” e, a princípio, pensei em Moby Dick, sempre impressionante.

Pois não tinha a ver. O velho Braga (ele não era tão velho, mas sempre pareceu), falava sobre dois boatos — o aparecimento de duas baleias enormes em Copacabana no Segundo Reinado, que levara o imperador a fazer um longo trajeto para vê-las, e, já nos anos 40 do século passado, o anúncio feito por um poeta ao grupo de moças e rapazes de que Braga tomava parte, dando conta que a esquadra inglesa estava na Lagoa. As moças se encantaram com a história e correram todos para ver, mas não havia nada. Nem esquadra, nem baleias. Ficou a crônica, que guardei.

No mercado, fake news podem se associar às informações privilegiadas e o caso mais famoso tem autoria conhecida. Edmond Dantès, já ornamentado com o título de conde e dando seguimento a sua vingança, aproveitou as brumas de uma certa madrugada e transmitiu para o outro lado do oceano a informação sobre o fim da guerra entre dois países europeus. O término do conflito era verdadeiro, mas ele trocou propositalmente o desfecho: anunciou o país vencido como vencedor. A informação se espalhou e as cotações dos títulos certos despencaram, enquanto os preços dos títulos errados subiram às nuvens. Quando chegou a notícia correta, ele aumentara a própria fortuna e seu inimigo, o traidor general Mondego, falira. O episódio integra o célebre romance O Conde de Monte Cristo, de Alexandre Dumas, pai. Na ficção, pode-se dar nomes aos bois, enquanto na vida real é complicado.

As fake news têm compadrio com a insider information. A matéria-prima de ambas é a notícia, com a diferença de que uma é falsa e, outra, verdadeira. A informação privilegiada pode configurar crime de insider trading, enquanto as fake news implicam manipulação do mercado. São parentes, com DNA diferente.

Também divergem na prática — quem consegue uma informação privilegiada fica na moita, enquanto os boateiros botam a boca na vuvuzela.

Logo desaba uma chuva de ordens de compra ou de venda e a cotação despenca ou alcança os píncaros. Os boateiros, então, realizam seus lucros, deixando os otários pendurados no vento. Nem todos são inocentes úteis, a maioria sabe o que está acontecendo e embarca no trem da alegria. É aí, na esperteza gananciosa, que o fake se nutre.

A Polícia Federal poderia atuar em conjunto com a CVM, a exemplo do que faz com o TSE. O insider e as fake news não vão desaparecer, mas talvez alguns espertos se deem mal.

Para o lugar desses boatos safados, que voltem aqueles, ingênuos, do mestre Rubem Braga, afastando as nuvens num dia de chumbo.


Carlos Augusto Junqueira de Siqueira, advogado, é autor da seção “Crônica”, que passa a ser publicada a cada dois meses na Capital Aberto 




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