ESG deve ser modelo genuíno, refletido e bem estruturado 

É fundamental responder a três questões básicas: por que, o quê e para quem reportar 



Colunista Ana Siqueira

Empresas em países desenvolvidos, particularmente na Europa, estão à frente na jornada de sustentabilidade em função da atuação de governos, reguladores, investidores e sociedade civil | Ilustração: Julia Padula

O capitalismo das partes interessadas (stakeholders capitalismé um caminho sem volta. A pauta ESG tem sido um tema recorrente na mídia e na comunicação corporativao que em primeira análise é uma boa notícia. No entanto, o histórico recente do País demanda uma ressalva: é fundamental haver coerência e aderência entre a comunicação e a atuação corporativa.  

O ponto central envolve resposta a três perguntas essenciais. “Por que”, que” e “para quem reportar aspectos ESG nas atividades corporativas. As questões são interdependentes e, em algumas situações, são impactadas pela indústria, pelo segmento pela região em que as empresas atuam.  

Por quê?  

O relatório de sustentabilidade é um importante instrumento de gestão e comunicação. Trata-se de uma das principais formas de a empresa prestar contas à sociedade, ao mercado de capitais e aos demais stakeholders sobre a sua atuação e apresentar seus indicadores sociais, econômicos e ambientais com maior transparência.  

Para quem? 

Para diferentes grupos de stakeholders  instituições responsáveis por standards e frameworks, auditores, provedores de dados, bancos de investimentos, investidores (gestores e proprietários de ativos), reguladores, think-thanks, sociedade, prestadores de serviços, etc.  

O quê? 

A materialidade dos temas é um conceito fundamental para se gerar informações úteis para a tomada de decisões. No entanto, a sua aplicação não deixa de ser complexa, face a abrangência e a heterogeneidade das questões ESG. Diferentes grupos de stakeholders exercem influência sobre a natureza e forma como as informações ESG são reportadas e utilizadas. Apesar de, muitas vezes, esses stakeholders terem visões distintas sobre o tema, existem consensos construídos sob a forma de standards e frameworks de reporte.  

Agenda 2030 

Num movimento histórico, líderes globais têm se unido para discutir soluções para os desafios globais. A Agenda 2030 para o Desenvolvimento Sustentável, estruturada em 2015, reafirma os resultados de todas as grandes conferências e cúpulas das Nações Unidas que estabeleceram uma base sólida para o desenvolvimento sustentável. 

As empresas têm papel fundamental no cumprimento das metas contidas nos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODSsda Agenda 2030, em função da sua capacidade de investimento, gestão e inovação. Elas têm condições de viabilizar uma economia sustentável, trabalhando com instituições governamentais e sociais. Empresas em países desenvolvidos, particularmente na Europa, estão à frente na jornada de sustentabilidade em função da atuação de governos, reguladores, investidores, sociedade civil e também por questões culturais. 


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Desde 2015, o financiamento direcionado para a Agenda 2030 não tem sido suficiente na escala e velocidade necessárias para o atingimento dos ODSsem grande parte por causa da baixa participação de investidores do setor privado. covid-19 exponencionou ainda mais esse desafio, face o imenso rastro de destruição e geração de pobreza causados pela pandemia. 

CFO Principles on Integrated SDG Investments and Finance, lançado em setembro de 2020 pelo Pacto Global da ONU, tem imenso potencial de contribuição, pois seu objetivo é engajar a comunidade global de CFOs para alinhar os investimentos e finanças corporativas com os ODSs. Os CFOs (chief financial officer, ou diretor financeiro), são guardiões de investimentos da ordem de trilhões de dólares e, na visão do Pacto Global, constituem a última peça do quebra-cabeça das finanças sustentáveis.  

Pressão de investidores e sociedade 

A sociedade civil e os investidores institucionais — estes na qualidade de provedores de recursos para as empresas — ocupam posição privilegiada para demandar que as empresas assumam sua responsabilidade nesse processo de mudança na forma de atuar. Vale mencionar a atividade de stewardshipmovimento global que promove o senso de propriedade nos investidores institucionais, criando padrões de engajamento responsável. 

O UK Stewardship Code 2020 é uma relevante fonte de inspiração, por ter estabelecido um padrão muito mais elevado do que a sua versão anterior. O novo código marca uma mudança substancial de “declarações de políticas” para foco nas atividades (o que os investidores fizeram) e seus resultados (qual foi o resultado alcançado). Vale observar que a atividade de stewardship chegou ao Brasil em 2016, com o Código Amec de Stewardship.   

Não existe um caminho único, mas é certo que ele precisa ser genuíno, refletido e bem estruturado. Empresas que se limitarem a tornar a sua “vitrine” mais atrativa, sem realmente inserir sustentabilidade no seu modelo de negócios e estratégia, correm sério risco de perder licença para operar. De forma análoga ao jogo de xadrez: se não houver visão e estratégia, o jogador pode ter de abandonar prematura e compulsoriamente o tabuleiro. 


Ana Siqueira, CFA (ana.siqueira@artha.net.br) é sócia fundadora do Artha Educação


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