Charlie Munger, o fiel escudeiro de Warren Buffet
Pé no chão, braço direito do grande mito das finanças defendia simplicidade nos investimentos
Alexandre Povoa

O ditado diz que ao lado de um grande homem está sempre uma grande mulher (ou vice-versa). A mesma lógica se aplica ao mercado financeiro. Em paralelo a um renomado gestor de recursos, que normalmente é quem está sob os holofotes, encontra-se uma equipe de ótimo analistas, economistas, funcionários de backoffice e, também, outros competentes gestores.

Warren Buffet é considerado pela comunidade financeira como o maior gestor de ações dos séculos XX e XXI. O investidor fiel, que acreditou na genialidade do alcunhado de “Oráculo de Omaha”, não tem muito do que reclamar. Quem aplicou U$ 1 mil nas ações da Berkshire Hathaway (empresa que concentra os investimentos de Buffet) em 1962, sem nenhuma retirada ou aporte, teria acumulado, depois de todos os movimentos de mercado, US$ 71,7 milhões até o final de 2023, o que representa um retorno médio impressionante de 20,1% ao ano. O investidor que, alternativamente, preferiu aplicar seus recursos em um fundo indexado ao S&P (desconsiderando taxas), teria chegado a apenas US$ 66,6 mil (7,1% anuais) no mesmo período.

Porém, apesar de excepcional, podemos encontrar no mercado até retornos históricos superiores de outros gestores. Mas o mito ao redor de Warren Buffet não se resume somente à rentabilidade, indo muito além, com suas ideias e conceitos. E quem estava ao lado de Buffet, como o seu braço direito, durante boa parte dessa longa história (desde 1978)? Charlie Munger que, como Buffet, também nasceu em Omaha, Nebraska, em 1º de janeiro de 1924. Ele teve nove filhos, sendo sete legítimos e dois enteados. Charlie Munger era filho de Alfred Munger, um advogado formado em Harvard, e de Florence Munger.

Charlie desenvolveu sua formação acadêmica de forma, no mínimo, curiosa. Entrou para a Universidade de Michigan em 1941 para estudar matemática, mas saiu logo para servir o exército. Enquanto atuava na carreira militar, ele frequentou a famosa California Institute of Technology (Caltech) em Pasadena, Califórnia, tendo cursado física e meteorologia. Nunca teve um diploma de graduação, o que quase o impediu de entrar mais tarde na Harvard Law School, feito que só conseguiu graças à influência de seu pai. 

Em 1948, finalmente se formou em advocacia e seguiu carreira até 1965. Nesse ano, decidiu abandonar tudo para se dedicar à carreira na área de investimentos. Apesar de desempenho “pré-Buffet” ser pouco reconhecido, ele alcançou muito sucesso até 1975/76, quando, aí sim, enfrentou anos muito ruins de performance.

Sua relação com o Warren Buffet surgiu em 1959, quando foram apresentados em uma festa em Omaha. A partir daí, se tornaram amigos, falando regularmente, mesmo quando Munger ainda exercia somente a advocacia. Em 1978, finalmente começaram a trabalhar juntos, quando Charlie foi indicado vice-presidente da Berkshire Hathaway, tendo assumido depois vários outros cargos no grupo.

Sua filosofia para escolha de onde investir coincidia com a de Buffet. Ele era muito direto e sempre pregava não apostar em casos de investimentos complicados. “Se algo for muito difícil, recorremos a outro. Somos apaixonados por tornar as coisas simples”, dizia.

Munger também analisava o comportamento do investidor que, segundo ele, normalmente se move em manadas. Por isso, sempre pregou paciência em investimentos de longo prazo. Na crise de 2008, essa virtude foi testada após a ousadia na compra de ações da Wells Fargo no meio da tormenta, investimento que veio a se tornar muito vencedor após a recuperação das bolsas nos anos seguintes.

Em relação à atuação no mercado, ele ensinou que o fracasso em alguns investimentos é inevitável: “Capitalismo sem fracasso é igual à religião sem inferno”. Mas ele explicava que tentava fugir dele com a seguinte lição: “Meu jogo na vida sempre foi evitar todas as formas padrão de fracasso. Você me ensina a maneira errada de jogar pôquer e eu vou evitá-la. Se você me ensinar a maneira errada de fazer outra coisa, vou evitá-la. E, claro, evitei muito, porque sou muito cauteloso.”

Além disso, ele era radical na não aceitação de desvios de comportamentos nas empresas: “Bons negócios são negócios éticos. Um modelo de negócios que depende do engano está fadado à ruína.” Durante os eventos anuais de apresentação de resultados da Berkshire Hathaway a cotistas, que costumavam lotar estádios de futebol com 20 mil pessoas (com vários telões em volta), com convidados de dezenas de faculdades e países (hoje esses eventos são realizados on-line), Munger ficou conhecido por repreender o que chamava de excessos corporativos. Certa vez, ele qualificou como “louca” e “imoral” a remuneração dada ao alto escalão de algumas companhias.

Charlie também se destacou por ser um grande crítico do bitcoin, que chamava de “veneno nocivo”. Ele defendia a extinção total das criptomoedas, qualificando-as como “estúpidas e imorais”. Ele e Buffet concordaram que não comprariam todos os criptoativos do mundo por algumas dezenas de dólares, uma vez que criptomoedas, na opinião deles, “não geram fluxo de caixa. Enfim, não valem nada fora do que os especuladores enxergam de valor neles.”

Essa forma direta de se expressar lhe trouxe muitos admiradores, mas também incomodou muitos dirigentes de empresas e investidores. Mas Munger era constantemente elogiado por Buffet, que disse certa vez de que a pior coisa do mundo são sócios bajuladores e por isso ele seria o seu braço direito ideal. 

Munger acumulou fortuna de US$ 2,3 bilhões na sua vida. Ele dizia que muito melhor do que a serventia para comprar Ferraris e outros luxos, o importante do dinheiro era a conquista de liberdade e autonomia. Foi um grande doador para a Universidade de Michigan e outras causas filantrópicas.

Seu sarcasmo e língua afiada podem ser ilustrados na seguinte frase, repetida por Warren Buffet: “Meu parceiro Charlie diz que existem apenas três maneiras pelas quais uma pessoa inteligente pode ir à falência: álcool, senhoras e alavancagem”. Por fim, Munger reconhecia dois vícios na vida: amendoim e diet coke. Sabia que faziam mal e podiam encurtar a vida: Mas decretou: “Não dou a menor importância”.

Charlie Munger, o fiel escudeiro e melhor amigo de Warren Buffet (sétimo homem mais rico do mundo, segundo o ranking 2024 da Forbes com patrimônio de US$ 120 bilhões), faleceu aos 99 anos no dia 28 de novembro 2023. Para a sua longevidade, apontava a principal razão: “Evite a loucura a todo custo”. Porém, após a sua partida, fica o exemplo pessoal e profissional nas mentes de todas as gerações do mercado financeiro que estão por vir.  

Leia mais
Warren Buffett, o melhor aluno de Ben Graham — Parte 1


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