Warren Buffett, o melhor aluno de Ben Graham — Parte 1

A impressionante trajetória do investidor que se transformou em referência de sucesso com a Berkshire Hathaway

Bolsas e conjuntura/Colunistas / 10 de agosto de 2018
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Alexandre Póvoa*/ Ilustração: Julia Padula

Medo e ganância são duas doenças contagiosas que sempre atacam o mundo dos investimentos. O calendário dessas epidemias é imprevisível. Nós simplesmente tendemos a ficar com medo quando os outros estão gananciosos e gananciosos quando os outros estão com medo.”

Warren Buffett nasceu em 30 de agosto de 1930, na cidade de Omaha, no estado americano de Nebraska. Filho de um corretor de bolsa e membro do Congresso do país, Buffett já respirava, desde muito novo, os ares do mercado financeiro.

Em 1950, ingressou na Columbia Business School, da Universidade de Columbia, onde lecionavam Benjamin Graham e David Dodd, expoentes da área de análise de investimentos. Já dando sinais de seu brilhantismo como gestor de recursos, foi o único aluno em toda a história da universidade a receber o grau máximo (A+) no curso ministrado pelo lendário Ben Graham.

No ano seguinte, Buffett descobriu que Graham presidia a Geico, uma grande empresa do ramo de seguros. Após pegar um trem para Washington em um sábado, Buffett bateu à porta dos diretores da seguradora e insistiu para ser atendido. O impetuoso jovem de 21 anos conseguiu então engatar uma conversa de quatro horas sobre seguros com vários “medalhões” da empresa. Lorimer Davidson, então vice-presidente, estava na reunião e escreveu anos mais tarde que, em 15 minutos de conversa, percebeu que estava diante de um “homem extraordinário”, com inteligência muito acima da média.

Após graduar-se na Columbia, Buffett decidiu trabalhar em Wall Street, mas tanto seu pai quanto seu maior guru — Ben Graham — preferiam que ele seguisse outro caminho. Ainda assim, ofereceu-se para trabalhar de graça para Ben Graham, que recusou. Diante disso, comprou um posto de gasolina a título de investimento, mas o retorno não foi satisfatório. Ao mesmo tempo, fez um curso para aprender oratória, tendo utilizado esse aprendizado para ministrar o curso “Princípios de investimento” na Universidade de Nebraska. Seus alunos tinham, em média, o dobro de sua idade.

Em 1954, finalmente Ben Graham ofereceu-lhe um posto em seu fundo de investimentos. Lá, ele receberia um salário inicial de 12 mil dólares por ano e trabalharia em conjunto com Walter Schloss.

Dois anos mais tarde, Ben Graham se aposentou e fechou o negócio. Buffett, que já acumulava economias em torno de 140 mil dólares, voltou para Omaha e criou o seu próprio fundo de investimentos: a Buffett Partnership, Ltd. Em 1962, ele decidiu unir as diversas carteiras em uma única estrutura societária, centrada em uma empresa de asset management. Baseado na análise fundamentalista tão bem aprendida junto ao mestre Ben Graham, começou a comprar ações de uma empresa têxtil chamada Berkshire Hathaway, ao preço de 7,60 dólares por ação. O sucesso de um dos maiores gestores da história mundial estava apenas começando.

Apenas três anos depois da fundação da gestora, o retorno dos investimentos do portfólio alcançava 251%, contra 75% do índice Dow Jones. Buffett continuava comprando papéis da Berkshire Hathaway de forma agressiva, a um preço que já girava em torno de 15 dólares. Ainda em 1965, Buffett assumiria o controle desse negócio. No ano seguinte, fechou seu fundo de investimentos para novos aportes de capital.

Já em 1967, a Berkshire Hathaway pagou dividendos pela primeira e única vez (10 centavos de dólar por ação). Em 1968, Buffett tomou a frente da Berkshire Hathaway, começando uma nova fase empreendedora. Dez anos após o início das atividades, os fundos de investimento foram encerrados e os cotistas não tinham do que reclamar da Buffett Partnership. O portfólio do então já reconhecido guru de investimentos acumulava a impressionante marca de 1.156% de alta, ante 123% do Dow Jones no mesmo período.

No fim da década seguinte, em 1979, as ações da Berkshire subiram 70%. O patrimônio de Buffett atingia a casa dos 600 milhões de dólares, e ele passava a integrar a lista dos 400 homens mais ricos do mundo, de acordo com o ranking da revista Forbes.

Em 1983, o número de acionistas da Berkshire chegou a 3 mil; em 1986, a empresa, já com 22 bilhões de dólares em participações, começou a adquirir ações do canal de televisão ABC. Em 1988, passou a comprar papéis da Coca-Cola Company, chegando a adquirir cerca de 7% da empresa — um dos seus investimentos mais lucrativos, que mantém até hoje. Naquele ano, as ações da Berkshire foram listadas na Bolsa de Nova York. A empresa cresceu tanto que passou a centralizar todas as compras de Buffet, como uma holding.

Embora dono de uma imensa fortuna, Buffett sempre levou uma vida sem grande ostentação: ainda mora na mesma casa, no bairro de Dundee, em Omaha, comprada em 1958 por 31,5 mil dólares. Quando questionado sobre o destino de sua fortuna, disse que deixaria para os filhos “apenas o suficiente para que fizessem o que quisessem”, e não dinheiro demais, “senão eles não fariam coisa alguma”. Foi o que fez. Em junho de 2006, anunciou que doaria 85% de seu patrimônio, na época, uma quantia equivalente a 37,1 bilhões de dólares, ação que ficou conhecida como o maior ato de caridade da história.

Em 2008, com 78 anos e uma fortuna estimada em 62 bilhões de dólares, tornou-se o homem mais rico do mundo conforme a lista da Forbes, destronando Bill Gates, que havia ocupado o posto por 13 anos. Apesar de ter sido o mais famoso discípulo de Ben Graham, Buffett desenvolveu um estilo próprio com algumas variantes em relação à teoria de seu mestre. Mas esse é um assunto para a parte 2 deste artigo.


*Alexandre Póvoa (alexandre.povoa@canepaasset.com.br) é presidente Canepa Asset Brasil e autor dos livros Valuation, Como Precificar Ações e Mundo Financeiro, o Olhar de um Gestor

 

 

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