O maior venture capital do mundo é chinês

Em  "O poder da China", Ricardo Geromel aborda a grandiosidade e as principais características dessa indústria no país



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Ilustração: Rodrigo Auada

Uma das maiores superpotências econômicas do mundo, a China é cheia de particularidades — e conhecê-las é fundamental para quem pensa em fazer negócios com o país governado por Xi Jinping. Em ”O poder da China”, Ricardo Geromel detalha aspectos importantes da economia chinesa e explica como, ao longo dos anos, ocorreu a ascensão do mercado digital local, que agora concorre apenas com o dos Estados Unidos. Essa modernização foi também responsável pelo avanço da indústria de venture capital da China, cuja grandiosidade e características são abordadas no trecho a seguir, extraído do capítulo dois do livro. 


Capital é fator fundamental em um ecossistema inovador maduro. Há grande abundância de capital nos principais polos de inovação do mundo. Seja no Vale do Silício, em Israel ou na China, o capital abundante é fundamental para que ideias saiam do papel, mesmo sabendo que a maioria das ambiciosas startups não vingarão. Todo esse capital também serve como combustível para algumas crescerem da maneira mais veloz possível, atropelarem concorrentes, às vezes abrindo mão completamente de lucros no curto prazo. Na era do “winner takes all” (o vencedor leva tudo), a velocidade de crescimento é uma métrica fundamental na corrida para dominar mercados nacionais e internacionais. 

O homem mais rico do Japão, Masayoshi Son, lançou o Vision Fund, com capital de 100 bilhões de dólares, investindo capital próprio no fundo da Arábia Saudita, dos Emirados Árabes Unidos, na Apple, na Qualcomm, na Foxconn e outras gigantes multinacionais. Quem não olha para a China, como muitos da imprensa ocidental parecem fazer, afirma que o Vision Fund é o maior fundo de fundo de capital de risco (VC) do mundo. Quem entende de China sabe que o governo chinês é o maior VC do mundo. 

Ninguém sabe ao certo quanto a China investe ou separou para investir em empresas de alta tecnologia, mas o consenso é que o maior VC do mundo é o governo chinês. No primeiro semestre de 2018, diversos níveis governamentais já estabeleceram 1.171 fundos de orientação, com o objetivo de investir 5,9 trilhões de yuans (856 bilhões de dólares) de acordo com a China Venture. A Zero2IPO¹ coloca o número em mais de 11 trilhões de yuans. O Financial Times² afirma que foram 12,5 trilhões de RMB ou 1,8 trilhão de dólares. Independentemente da quantia exata, a presença do Estado é óbvia. O premier Li Keqiang³ afirmou que: “A China apoiará o desenvolvimento de fundos de capital de risco (VC) como parte de seus esforços para impulsionar a inovação”. 

Esses fundos de investimentos apoiados pelo Estado atuam como capital de risco ou fundos de fundos. O governo entra como sócio minoritário, tentando ser dono de até 30% no máximo, e deixa nas mãos de empreendedores do setor privado o difícil desenvolvimento de áreas como inteligência artificial, robótica, internet das coisas (IoT na sigla em inglês), entre outras. Esses fundos buscam retornos, e a saída mais comum para eles é ou a startup ser adquirida por empresa maior, ou fazer seu IPO (Initial Public Offering), ou seja, abrir o capital na bolsa de valores. Em novembro de 2018, o presidente Xi Jinping⁴ anunciou que a bolsa de valores de Xangai lançaria uma nova plataforma para empresas focadas em alta tecnologia e inovação “para encorajar pequenos e médios investidores a participar em investimentos em ciência e tecnologia por meio de fundos públicos”. 

Veja alguns resultados que tamanha quantidade de capital gera: a China apresenta mais de duzentos unicórnios na primeira metade de 2019⁵ e investe massivamente em startups ao redor do mundo. Em um envolvente relatório oficial⁶ do Escritório do Representante de Comércio dos Estados Unidos, fica claro que o governo norte-americano acredita que o Vale do Silício está sendo infiltrado pela China. O relatório cita o caso da Oriza Holdings, 100% de propriedade de um braço do município de Suzhou (cidade próxima a Xangai, conhecida como a Veneza da China), que investiu em 61 empresas de estágio inicial apenas nos Estados Unidos. De acordo com os norte-americanos, a Oriza já investiu 2,7 bilhões de dólares em 593 projetos e montou 84 fundos de capital de risco (VC) como subsidiários que gerenciam 10,2 bilhões de dólares e investiram em mais de 1.200 empresas. 

Não é só nos Estados Unidos que investidores chineses focados em tecnologia estão apostando suas fichas. De drones autônomos a startups focadas em mobilidade, de diagnósticos baseados em inteligência artificial a meios de pagamentos, dinheiro oriundo da China está sendo investido nos quatro cantos do globo, ampliando o acesso chinês à elite mundial de tecnologia, acumulando novos dados valiosos e solidificando a crescente influência e domínio tecnológicos. 

A China já é uma superpotência no mundo de investimentos em empresas de alta tecnologia e está sentando à mesa onde estão os maiores negócios. Investidores chineses estão envolvidos em mais de 90 bilhões de dólares em negócios, perdendo apenas para os Estados Unidos  repare que cinco anos antes, a cifra investida era de apenas 11,5 bilhões de dólares. 

No final do dia, o que importa é o resultado gerado de todos esses massivos investimentos. Entre 1997 e 2018, as empresas chinesas de capital de risco registraram melhor resultado, em média, que suas rivais norte-americanas, retornando 1,79 vezes o valor investido, em comparação com 1,7 vezes nos Estados Unidos, de acordo com a análise de 4 mil fundos feita pela eFront.⁷ 

O investimento de VCs na China é muito concentrado. As principais gigantes de tecnologia da Baidu, da Alibaba e da Tencent (BAT) são conglomerados ávidos compradores de empresas jovens. Quando as empresas chinesas atingem 5 bilhões de dólares de valor de mercado (valuation), cerca de 80% já aceitou investimentos de um desses três gigantes.⁸ Apenas a Tencent já investiu em mais de setecentas empresas  inclusive em mais de 120 unicórnios. A ByteDance, gigante mais nova e menor, vem seguindo a mesma cartilha e já reservou 3 bilhões de dólares para investir em outras empresas. 

Na primeira metade de 2018, as startups situadas na China levantaram mais dinheiro do que as startups nos Estados Unidos: 56 bilhões de dólares na China versus 42 bilhões de dólares nos Estados Unidos. A velocidade desse crescimento é surpreendente: em 2010, apenas 4,6 bilhões de dólares haviam sido investidos em startups na China por VCs; em 2017, o valor cresceu quase catorze vezes, atingindo 64 bilhões de dólares.⁹ Veja a seguir a tabela com os fundos mais ativos da China: 

Venture Capital: China

Infografia: Rodrigo Auada

A velocidade de crescimento do setor de VC na China é algo que não tem nenhum paralelo na história da humanidade. Em dez anos, foi de um setor inexistente da economia para líder mundial junto com os Estados Unidos. Repare no crescimento na quantidade de negócios realizados por VCs: 

Venture Capital: China

Infografia: Rodrigo Auada

Apesar de os números do recente passado serem ascendentes, o futuro da indústria de VC na China tem que ser analisado com altas doses de ambiguidade. Quando o governo chinês decidir desalavancar a economia, uma das medidas prováveis será o fim do crescimento expansivo do financiamento de capital de risco, reduzindo os estímulos fiscais e diminuindo a oferta monetária para desencorajar empréstimos. Enquanto eu escrevo, os esforços de desalavancagem da China foram temporariamente revertidos por causa do atual conflito comercial com os Estados Unidos. A indústria de fundos de capital de risco na China é extremamente nova e nunca passou por um período de baixa. Não experimentaram ainda a inevitável seca que vem com as crises econômicas. Eu acredito que o inverno chegará, mas não vai matar o setor de VC chinês. Pelo contrário, vai doer no curto prazo, mas vai deixar o setor de VC do país mais forte no longo prazo. Quando a maré baixa, enxergamos quem está nadando pelado. Muitos no oceano sofrerão demais, alguns morrerão; os que ficarem, serão melhores nadadores. Os mais pessimistas dizem que 2020 será o pior ano desta década e o melhor da próxima. 

Neil Shen, o Messi dos VCs  

Você sabe quem é o Messi do mundo de investimentos em tecnologia? Quem é o melhor VC do planeta? Tente ao menos adivinhar a nacionalidade do camarada! 

O melhor investidor em tecnologia do mundo é chinês!!! De acordo com a Forbes, Neil Shen, da Sequoia Capital China, é o bicampeão da lista Midas 2018 e 2019 — na mitologia grega, tudo o que o Rei Midas tocava virava ouro. 

Neil Shen nasceu em Xangai e seu nome original era Shen Nanpeng. Muitos chineses adotam um nome ocidental e, na China, o sobrenome vem primeiro. Para ficar claro: eu seria Geromel Ricardo em vez de Ricardo Geromel. Shen Nanpeng foi estudar nos Estados Unidos, virou Neil Shen na prestigiosa Yale (onde também estudaram George W. Bush, Hillary e Bill Clinton, Meryl Streep, Edward Norton e outros poderosos) e trabalhou no mercado financeiro em Wall Street para o Deutsche Bank, a Lehman Brothers e o Citibank  antes de voltar à China para empreender. 

Ele foi cofundador e CFO do Ctrip.com, espécie de KAYAK ou Expedia Group da China. O Ctrip é um dos apps essenciais que recomendo para todos que vêm visitar ou passar uma temporada por aqui. A chinesada usa o Ctrip para comprar passagens de trem, de avião e muito mais. Uma anedota interessante do Ctrip é que a empresa cresceu com Shen e seus sócios apostando que as pessoas gostariam de falar com alguém antes de comprar os bilhetes. Então, foram na contramão da economia digital e empregaram um gigantesco número de pessoas em call center  enquanto os competidores não ofereciam essa opção. A estratégia deu certo e o Ctrip hoje vale mais de 19 bilhões de dólares. 

Depois de ser um empreendedor de muito sucesso, Shen decidiu voltar para o mundo dos investimentos e foi convidado para liderar o escritório da Sequoia na China. A Sequoia é o Real Madrid dos fundos focados em tecnologia. Eles simplesmente investiram cedo em Apple, Google, WhatsApp, Facebook e outras empresas que fazem parte do cotidiano de bilhões de pessoas ao redor do mundo. Parte essencial do trabalho do investidor profissional em empresas de tecnologia (os famosos VCs) é identificar os melhores talentos o mais cedo possível. Seria como identificar Messi ou Cristiano Ronaldo ou o zagueiro do Grêmio Pedro Geromel (eleito o melhor zagueiro do campeonato brasileiro em 2015, 2016, 2017 e 2018 e o melhor irmão do mundo nos últimos trinta anos) quando eles eram crianças com menos de 5 anos, apostar firme neles, ajudar a bancar seu crescimento, dar conselhos e sugestões nas tomadas de decisões e torcer para o craque mirim não se lesionar de maneira grave. 

Na liderança da Sequoia na China, Shen tornou-se bilionário em dólares. A China só está atrás dos Estados Unidos em números de bilionários. Shen teve papel fundamental em levar para a China o LinkedIn, rede social entre profissionais, e o Airbnb, que permite pessoas alugarem quartos de sua casa para estranhos; também liderou investimentos na Alibaba, a gigante com o maior IPO da história da humanidade; na agressiva varejista JD.com, espécie de Amazon da China e na DJI, empresa chinesa que vende mais de 70% dos drones comerciais no planeta. 

Além de investir em empresas que somadas valem mais de 1 trilhão de dólares e liderar bilhões de dólares em investimentos, Shen é conhecido por carregar três celulares, ser rigoros