A revolução do propósito das empresas

Momento é de evolução da teoria da firma, sob impulso de novas demandas de stakeholders

Colunistas/Bolsas e conjuntura / 14 de fevereiro de 2020
Por 


Colunista da Capital Aberto Evandro Buccini

*Evandro Buccini | Ilustração: Julia Padula

Os estudantes de Economia há anos aprendem, em seus primeiros cursos de microeconomia básica, que o objetivo das firmas é maximizar lucro. Essa ideia baliza grande parte da teoria econômica moderna e continua útil como simplificação da realidade. No entanto, ela tem sido questionada pela redefinição do propósito de uma empresa, discussão que está sendo levada adiante tanto pelos consumidores quanto pelas próprias empresas.

O foco na maximização de lucros remonta originalmente ao século 19, com os economistas da escola marginalista, como Walras, Marshall e Jevons. A teoria marginalista diz que o objetivo das firmas é maximizar lucros — assim o fazem quando, ao produzirem e venderem uma unidade adicional, obtêm em receita pelo menos o que têm de custo. Essa abordagem aparentemente simplista deu origem a todas as demais interpretações sobre o objetivo das firmas.

Na primeira metade do século 20, o campo se expandiu para o que é hoje a economia das organizações, com os trabalhos de Coase, explicando a existência de uma empresa pelos custos das transações a mercado. Em seguida, o desenvolvimento do mercado de capitais e a conjuntura econômica ajudaram a evolução da teoria da firma. Duas questões-chaves motivaram essa mudança: o surgimento de oligopólios e a separação de propriedade da diretoria.

Novos modelos surgiram para adequação a essa nova realidade, mas com uma base comum: as firmas otimizam alguma variável. Muitos insights interessantes surgiram nessa leva de modelos, destacando uma estrutura moderna de gerência e humanizando os gestores, levando em consideração suas aspirações e vieses. William Baumol propôs que as firmas maximizam receitas de venda, mesmo que isso prejudique o seu lucro. O racional por trás desse objetivo é que aumentar as vendas aumentaria o tamanho da organização, o que melhoraria o salário e o status do presidente. Alternativamente, o economista Robin Marris propôs que as firmas maximizam crescimento, o que conciliaria os desejos dos acionistas (que querem maximizar lucros, market share e produção) com os desejos do gestor (que busca prestígio, poder e dinheiro). O prêmio Nobel Olivier Williamson também tem contribuições na mesma linha.

Mais recentemente, novos objetivos não previstos nos modelos tradicionais se tornaram importantes na tomada de decisão das empresas: os impactos sociais e ambientais. Em um primeiro momento, esses elementos eram cobrados de países, em um nível macro, com apoio de organismos multilaterais e governos. Depois passaram para o nível das empresas, com a cobrança de medidas que reduzam a poluição e ampliem a integração com a sociedade. Deixou de ser suficiente para uma parcela dos consumidores um produto apenas com uma boa relação custo-benefício. Passou a ser relevante que a empresa defenda os mesmos valores do consumidor nas mais diversas esferas, o que é especialmente difícil em tempos de ampla polarização política.

Algumas empresas estão tomando a frente nesse processo e não apenas se adaptando a esse novo ambiente. Em agosto de 2019, a Business Roundtable, associação americana formada por quase 200 CEOs, lançou um comunicado sobre o propósito de uma empresa, com o compromisso de seus membros de liderar suas companhias para o benefício de um número maior de stakeholders, o que inclui clientes, empregados, fornecedores, comunidade e acionistas. Desde 1978, os comunicados da entidade reforçavam a primazia do interesse do acionista; no ano passado foi a primeira vez que ampliou a responsabilidade corporativa para um número maior de interesses.

Esse novo direcionamento das empresas já tem consequências efetivas no ambiente de negócios. Há pouco tempo, oito estúdios de Hollywood ameaçaram sair da Geórgia se o estado americano aprovasse a proibição do aborto. O banco de investimentos Goldman Sachs só fará IPOs de empresas que tenham mulheres no conselho. Investimentos sustentáveis têm ganhado cada vez mais destaque no universo de investimentos.

Houve uma mudança estrutural nas preferências dos consumidores e eles não vão parar de demandar que as empresas das quais são clientes se alinhem com sua visão de mundo. Para satisfazer esse desejo, as empresas terão que ser mais transparentes e redefinir o seu propósito, de modo a se comprometer com o bem-estar de uma ampla gama de atores. Se as atuais empresas não satisfizerem essa demanda, haverá quem satisfaça: afinal, o lucro ainda importa, certo?


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*Evandro Buccini é economista-chefe da Rio Bravo Investimentos. Com colaboração de Luis Bento


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