Sim – Tanto em frequência como em volume, há um exagero de informações obrigatórias

Antítese/Relações com Investidores/Edição 126 / 1 de fevereiro de 2014
Por 


O assunto comporta dois focos de abordagem: frequência e volume. No tocante à frequência, convém lembrar que, décadas atrás, as empresas divulgavam apenas um relatório anual. À época, a atividade econômica mais forte era a agricultura, cujo ciclo se balizava pelas safras. Com o crescimento do peso da indústria e, posteriormente, do mercado financeiro, os ciclos foram encurtados: primeiro para seis meses, depois para três. Logo as informações trimestrais (ITRs) se tornaram obrigatórias para as companhias abertas.

Isso tem alguns reflexos negativos para o mercado de capitais: 1. prejudica a visão de longo prazo, indispensável para a sustentabilidade desse meio (há analistas que tiram conclusões sobre a economia chinesa a partir de dados trimestrais — num país que tem 4.200 anos de história!); 2. desencoraja ótimas empresas de abrir o capital, pois elas não querem ver os administradores comprometidos com resultados de curto prazo (a construtora Plaenge, do Paraná, e a multinacional Cargill são bons exemplos); 3. induz muitas companhias abertas ao fechamento de capital para escapar da “ditadura dos resultados trimestrais”. Segundo Lynn Stout (The shareholder value myth), entre 1997 e 2008, o número de empresas listadas nas bolsas americanas caiu de 8.823 para 5.401, muitas delas por esse motivo. Não é de estranhar que, na Europa, a ITR seja opcional e grandes organizações como a Unilever se recusem a falar em resultados trimestrais.

Quanto ao volume, a situação é muito pior. No Brasil, as companhias são obrigadas a publicar o relatório de administração em, pelo menos, dois jornais, um deles sempre o Diário Oficial. Todavia, não podem usar esse veículo tão dispendioso para caprichar nos temas de maior interesse para o mercado, como conjuntura, resultados, estratégia e governança, porque as demonstrações financeiras e, especialmente, as notas explicativas que as complementam absorvem um espaço exagerado.

Fiz um levantamento de vários relatórios publicados em 2013 e verifiquei que, em média, 73,5% do espaço total da publicação era destinado às notas explicativas (a proporção variava de 58% a 84%). No site da Cemig, pode-se ver que, das 195 páginas do documento, 135 são notas explicativas e apenas as 60 restantes trazem informações espontâneas.

No caderno de demonstrações financeiras do Grupo Ultra, de 60 páginas, 55 são destinadas às notas. Algumas delas mereceriam ser chamadas de notas não explicativas. Uma registra que “as demonstrações financeiras foram preparadas de acordo com a lei societária, com as normas do Banco Central e com as da CVM”. Poderia ser diferente? Outra “esclarece” que o teste de impairment dos ativos de longo prazo “foi feito pelo método do fluxo de caixa descontado, às taxas de juros usuais no mercado”. Que taxas são essas? E qual é a necessidade ou conveniência de repetir nas ITRs, integralmente, as notas explicativas do balanço anual?

Tanto sob a perspectiva da frequência como do volume, há excesso de informações obrigatórias. Isso traz reflexos prejudiciais para as empresas e, mais grave, para o próprio mercado de capitais, cujo maior interesse está nas informações espontâneas.

Dê a sua opinião:
[poll id=”8″]


Quer continuar lendo?

Faça um cadastro rápido e tenha acesso gratuito a três reportagens mensalmente.

Tenha o melhor conteúdo do mercado de capitais sem limites ou interrupção.
Assine a partir de R$ 36/mês!
Você está lendo {{count_online}} de {{limit_online}} matérias gratuitas por mês

Você atingiu o seu limite de {{limit_online}} matérias por mês. X

Ja é assinante? Entre aqui >

ou

Aproveite e tenha acesso ilimitado ao melhor conteúdo sobre mercado de capitais!

Básica

R$ 36 00

Mensal

Acesso Digital
-
Desconto de 10% em grupos de discussão, workshops e cursos de atualização
Acervo Digital

Completa

R$ 42 00

Mensal

Acesso Digital
Edição Impressa
Desconto de 10% em grupos de discussão, workshops e cursos de atualização
Acervo Digital

Corporativa

R$ 69 00

Mensal

Acesso Digital - 5 senhas
-
Desconto de 15% em grupos de discussão, workshops e cursos de atualização
Acervo Digital

Clube de conhecimento

R$ 89 00

Mensal

Acesso Digital - 5 senhas
-
Desconto de 20% em grupos de discussão, workshops e cursos de atualização
Acervo Digital | Acervo de Áudios



Participe da Capital Aberto:  Assine Anuncie


Tags:  abertura de capital cemig ITR CAPITAL ABERTO mercado de capitais informação Diário Oficial excesso frequência volume visão de longo prazo notas explicativas Grupo Ultra Encontrou algum erro? Envie um e-mail



Matéria anterior
Não - No Brasil, o analista precisa garimpar informações adicionais e tecer hipóteses
Próxima matéria
Existe excesso de informação por parte das companhias?



Comentários

Escreva o seu comentário sobre este texto!

O seu endereço de e-mail não será publicado.



Recomendado para você





Leia também
Não - No Brasil, o analista precisa garimpar informações adicionais e tecer hipóteses
Informação, do grego antigo, é “dar forma à mente”. No sentido estrito, é uma sequência de símbolos que pode ser interpretada...
{"cart_token":"","hash":"","cart_data":""}