Venture capital brasileiro vive sua melhor fase

Apesar da conjuntura política e econômica desfavorável, investimentos em empresas emergentes somam 33,5 bilhões de reais nos nove primeiros meses do ano



Venture capital brasileiro vive sua melhor fase
Nos primeiros nove meses de 2021 os investimentos em venture capital no Brasil atingiram o recorde de 33,5 bilhões de reais, valor que é três vezes maior que o aportado nessas empresas no mesmo período do ano passado. | Imagem: freepik

O Brasil, assim como tantos outros países da América Latina, é lar de problemas estruturais crônicos e dificílimos de serem resolvidos. Se para alguns empreendedores esse contexto é sinônimo de dor de cabeça, para outros representa um incentivo à criação de soluções disruptivas. E a boa notícia é que se há uma década esses destemidos e sagazes empresários tinham poucos nomes aos quais recorrer na indústria de venture capital para levantar recursos para suas ideias, hoje a situação é completamente diferente. Não são só as assets nacionais que estão atrás de startups inovadoras e com alto potencial de crescimento para investir. Gestores internacionais parrudos e com apetite para países emergentes, como o japonês Softbank e o argentino Kaszek Venture, também estão famintos por oportunidades por aqui. Como consequência desse entusiasmo, nos primeiros nove meses deste ano os investimentos em venture capital no Brasil atingiram o recorde de 33,5 bilhões de reais, segundo pesquisa realizada pela Associação Brasileira de Private Equity e Venture Capital (Abvcap) em parceria com a KPMG. O valor é três vezes maior que o aportado nessas empresas no mesmo período do ano passado.  

 “Apesar dos ruídos políticos, da insegurança jurídica e das incertezas econômicas, o Brasil vive a maior onda de empreendedorismo de sua história”, constata Piero Minardi, presidente da Abvcap. Ainda de acordo com a pesquisa da associação, no terceiro trimestre de 2021, fundos de venture capital investiram em 85 empresas, ante 66 em igual intervalo do ano passado. Foram destinados para esses negócios 11,1 bilhões de reais, montante 109% maior do que o registrado no mesmo período de 2020. E a tendência é que esse volume de dinheiro continue a aumentar, à medida que o ecossistema de startups no Brasil amadurece e ganha tração. “Antes de 2010, eram raros os empreendedores típicos do mundo do venture capital. A comunidade era muito condicionada pelo ambiente econômico do País, e não se encontrava com a facilidade de hoje empreendedores com o comportamento adequado para liderar startups”, recorda Francisco Perez, fundador da Inseed Investimentos, em reportagem publicada pela consultoria Distrito. De lá para cá, a cultura de empreendedorismo foi ganhando corpo no Brasil e hoje há uma leva de jovens muito mais preparados para gerir negócios inovadores.  

Unicórnios brasileiros 

Um indicativo do amadurecimento do ecossistema de empresas emergentes é a escalada no número de unicórnios brasileiros. Até o momento, 22 startups nacionais foram avaliadas em mais de 1 bilhão de dólares. O destaque do grupo em termos de valuation é o Nubank, que está prestes a estrear na Nasdaq e pode elevar o seu valor de mercado para 50 bilhões de dólares. Apenas neste ano, seis startups receberam o título de unicórnio, em rodadas de investimento lideradas quase sempre pelo SoftBank. 

Esse foi o caso do e-commerce de móveis MadeiraMadeira, que recebeu em janeiro deste ano um aporte de 190 milhões de dólares. Em agosto, foi a vez da Unico, startup de identidade digital, atingir o status de unicórnio após receber um investimento de 125 milhões de dólares encabeçado pelo Softbank, ao lado da General Atlantic. Quem também alcançou o posto com o auxílio dos japoneses foi a CargoX. Conhecida como “Uber dos caminhões”, a empresa arrecadou 200 milhões de dólares neste mês, numa captação que também contou o apoio da Tencent, o maior e mais utilizado portal de serviços de internet da China. As outras três startups que se tornaram unicórnios brasileiros foram a Hotmart (educação digital), Nuvemshop (e-commerce) e CloudWalk (pagamentos).  

Número de investimentos em venture capital

Retornos tentadores 

A ebulição observada na indústria de venture capital não é resultado apenas de mais oportunidades de investimento. O salto no indicador que mede o retorno sobre o capital investido em empresas emergentes também ajuda a explicar o ânimo dos investidores com o setor. Se antes essa métrica decepcionava ou era inferior à registrada no segmento de private equity, agora seu crescimento começa a justificar o risco maior de se investir em startups. Uma pesquisa recente conduzida pelo Insper, pela Spectra e pela Abvcap mostra que, em média, o múltiplo do capital investido (MOIC) dos investimentos em venture capital subiu de 2,3 vezes em 2018 para 6,2 vezes em 2021, em dólares. 

Apesar de serem uma exceção, os investimentos conhecidos como outliers (que fogem do padrão) chamaram bastante atenção dos pesquisadores. Alguns deles chegaram a multiplicar por até 455 vezes o capital investido. Em 2018, esse número atingiu, no máximo, 60 vezes. Outro dado curioso é que se há três anos os outliers respondiam por apenas 3% das transações de saída (exits), neste ano já representavam 8% — um crescimento relevante para o mercado, uma vez que a maioria dos investidores de fundos de venture capital reaplica o dinheiro resgatado, movimentando a indústria. 

Performance do venture capital por MOIC
Fonte: Insper, Spectra e Abvcap

Ao contrário do segmento de private equity, em que boa parte dos desinvestimentos ocorre via oferta pública inicial de ações (IPO), no venture capital as saídas costumam acontecer por meio de venda de participações para outros fundos, dedicados a etapas diferentes da vida de uma startup. Essa dinâmica tem feito com que essas empresas permaneçam mais tempo com o capital fechado, já que não precisam se apressar para levantar recursos em bolsa de valores. Atualmente, Softbank, Sequoia e General Atlantic são alguns exemplos de gestoras que possuem fundos late stage e que estão oferecendo saída para veículos que investem em startups em estágios menos avançados.  

Com todo o ciclo — do investimento ao desinvestimento — funcionando de forma azeitada, as perspectivas para a indústria de venture capital em 2022 são animadoras. E embora o próximo ano prometa ser intenso em turbulências, resiliência parece ser uma característica intrínseca do setor, tão acostumado a encarar obstáculos como oportunidades. 

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