Benjamin Graham, o pai da análise fundamentalista — Parte 2

Alexandre Póvoa*/ Ilustração: Julia Padula Em nosso último artigo [Benjamin Graham, o pai da análise fundamentalista — Parte 1, edição 35 de SELETAS], falamos da resistência ao tempo dos ensinamentos desse grande mestre, aplicáveis mesmo para o atípico mundo de investimentos de hoje. Essa segunda …

Seletas/Colunistas/Edição 43 / 11 de agosto de 2016
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Alexandre Póvoa*/ Ilustração: Julia Padula

Em nosso último artigo [Benjamin Graham, o pai da análise fundamentalista — Parte 1, edição 35 de SELETAS], falamos da resistência ao tempo dos ensinamentos desse grande mestre, aplicáveis mesmo para o atípico mundo de investimentos de hoje. Essa segunda parte mostra detalhes menos conhecidos da grandiosa contribuição desse personagem ímpar do mundo das finanças.

Graham batalhou incansavelmente pelo status da profissão de analista de investimentos — que, na visão dele, exigia qualidade técnica e um código de ética e conduta profissional. A proposta enfrentou forte oposição em sua época, mas a luta acabou resultando na criação do certificado Chartered Financial Analyst (CFA), título que hoje representa uma virtual obrigatoriedade para os analistas de investimentos no mundo e a garantia de bons empregos para milhares de profissionais.

Não foi só como analista e gestor de recursos que ele teve um papel destacado: suas opiniões econômicas sempre foram respeitadas. Na década de 1930, apesar de ser histórico defensor do capitalismo, Graham não foi dogmático. Em plena tentativa dos EUA de sair da grande depressão, ele reconheceu a importância do governo para o esforço do bem-estar social — citando, sobretudo, o papel do seguro-desemprego. Para ele, a mão invisível de Adam Smith deveria continuar prevalecendo, mas não na exagerada vertente do laissez-faire. Graham se mostrou participativo em discussões com congressistas sobre assuntos polêmicos como impostos, margens de garantia no mercado financeiro, previdência, entre outros.

Em 1944, no provavelmente mais importante encontro econômico do século 20 —a conferência financeira e monetária internacional de Bretton Woods — foi discutida uma proposta de Graham para substituição do chamado padrão-ouro por uma moeda conversível por uma cesta de commodities a ser definida. Os três objetivos eram: estabilizar o preço das principais matérias-primas no longo prazo, incentivar a produção de commodities agrícolas e metálicas para evitar escassez futura e permitir que países mais pobres ganhassem importância no jogo econômico. A sugestão não foi aceita, mas o mundo atual comprova o poder quase premonitório da ideia.

Nos últimos anos, a explosão de demanda por commodities (sobretudo pela inserção mais profunda de parte relevante da Ásia, capitaneada pela China, na cadeia de consumo e investimento mundial) resultou em um boom de preços só contido pela crise financeira nos países desenvolvidos. Olhando para o futuro: há um consenso ao redor das teses de uma nova força de demanda de países emergentes (que veio para ficar) e de que a oferta de commodities —principalmente de comida — pode ser um problema importante no médio-longo prazo. Talvez se o mundo tivesse prestado mais atenção à sapiência de Graham em Bretton Woods hoje essas preocupações seriam menores.

O pai da análise fundamentalista fez jus ao título ao sempre criticar investimentos em ações de crescimento. Segundo ele, a instabilidade de informações e surpresas positivas e negativas pode acabar levando ao insucesso do investimento. O chamado fator segurança — não perder dinheiro em primeiro lugar —, tão defendido por ele, perde completamente a relevância na ação de uma empresa que se enquadre nessa categoria. Há, no discurso de Graham, uma defesa explícita ao pagamento de dividendos vis-à-vis à retenção de lucros, posição que deriva do seu estrutural desconforto em “comprar” crescimento.

Os discípulos de Graham driblaram a chamada bolha da internet, em que sonhos foram vendidos. Suas definições geniais de mercado, como “lugar onde grandes bull markets são seguidos por grandes bear markets” ou “lugar onde aparentes almoços grátis serão pagos em dobro amanhã”, podem ilustrar os ciclos que se repetem. Warren Buffett, o único na história que conseguiu tirar uma nota “A” como aluno de Graham, seguiu religiosamente essas lições e não participou da euforia e da depressão que se sucedeu à bolha da internet — tornando-se, também, um mito ainda vivo da indústria mundial de gestão de recursos.

Graham legou aos profissionais do mercado financeiro um espírito desafiador que deve servir de modelo para carreiras e, por que não, para nossas próprias vidas. Em 1932, quando o ânimo dos investidores americanos estava em nível muito baixo, ele escreveu artigos em que defendia a compra de ações. Com o seu inegociável rigor fundamentalista para investimentos e com um título sugestivo — “As companhias americanas valem mais mortas do que vivas?” — ele estimava que um terço das ações nos EUA estavam sendo negociadas em patamar inferior aos seus respectivos caixas líquidos.

Em um mundo financeiro recheado de teorias vazias, que normalmente têm validade restrita a um ciclo de alta ou de baixa, e de muitos analistas e gestores que mensuram o valor de suas profissões pela busca de retorno financeiro de curto prazo, ler Ben Graham é, antes de tudo, um grande alívio. Qualquer um pode ter discordância teórica com o pai da análise fundamentalista. Mas a força de sua essência e a longevidade de suas teses mostram que vale a pena buscar um ideal, independentemente do tamanho de uma conta bancária.


*Alexandre Póvoa (alexandre.povoa@canepaasset.com.br) é presidente da Canepa Asset Brasil e autor dos livros Valuation, como Precificar Ações e Mundo Financeiro, o Olhar de um Gestor


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Tags:  gestão de recursos Benjamin Graham análise fundamentalista analista de investimentos Adam Smith Encontrou algum erro? Envie um e-mail



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