Avaliação de empresas: ciência e arte

A análise de empresas requer uma abordagem multidisciplinar, que engloba diversas áreas do conhecimento — economia, gestão, ética empresarial e comportamental, direito societário, finanças e contabilidade são algumas delas. Como requisitos para uma boa análise, o analista/gestor deve ser …



Ana Siqueira*/ Ilustração: Julia Padula

A análise de empresas requer uma abordagem multidisciplinar, que engloba diversas áreas do conhecimento — economia, gestão, ética empresarial e comportamental, direito societário, finanças e contabilidade são algumas delas. Como requisitos para uma boa análise, o analista/gestor deve ser questionador e curioso. Precisa ter capacidade analítica, habilidade de comunicação e muita disposição para pesquisa e estudo. A reflexão é o fio condutor que conecta conhecimento e competências; e a prática contínua ao longo dos anos é fundamental para o amadurecimento da observação crítica e o consequente aprimoramento das avaliações.

O valor de uma empresa está intrinsecamente relacionado aos seus fundamentos e à qualidade de sua governança corporativa, que é importante instrumento de controle de risco. É essencial a realização de uma detalhada análise do estatuto social da organização, de seu relacionamento com os stakeholders e do histórico de acionistas controladores, membros do conselho de administração e diretoria.

A Petrobras é um exemplo dramático da relevância de uma boa governança. Os fundamentos da companhia eram extraordinários até recentemente: longo histórico de sucesso, aliado à descoberta do pré-sal, à obtenção do selo de investment grade e a um cenário de elevados preços do petróleo no mercado internacional. Enormes falhas em sua governança corporativa, entretanto, deixaram profundas marcas sob a forma de destruição de valor.

O conselho de administração de uma empresa é o guardião da governança e o responsável pelo direcionamento estratégico dos negócios. Os integrantes desse órgão corporativo precisam ser altamente qualificados, cientes das próprias responsabilidades e do dever de lealdade com a empresa. O grupo de trabalho energia e combustíveis do Ministério Público Federal (MPF) elaborou minucioso relatório analisando a conduta do conselho de administração da Petrobras e dos conselheiros, individualmente, em relação à política de preços de combustíveis no período de 2008 a 2014. O relatório recomendou a adoção de critérios técnicos para reajuste de preços da gasolina e do diesel e a tomada das providências julgadas cabíveis, pela 5º câmara de coordenação e revisão do MPF, quanto à apuração das responsabilidades individuais diante dos indícios da prática de eventuais atos de improbidade administrativa e possíveis infrações penais.

A composição do conselho de administração da Petrobras passou por importante alteração em abril de 2015, mudança que incluiu a presidência do conselho — cargo de extrema relevância, por ser o responsável pelo direcionamento dos trabalhos no órgão. Desde então, o conselho tem feito importante esforço de recuperação da companhia, processo que será longo e árduo, com muitos desafios e oportunidades.

A análise e o monitoramento de investimentos demandam muita disciplina. Durante esse processo, podemos nos deparar com eventos imprevisíveis (globais, locais, setoriais e até mesmo relativos à própria empresa), mas não podemos ser surpreendidos por não ter feito adequadamente o “dever de casa”.

As principais metodologias de avaliação econômico-financeira são fluxo de caixa descontado e múltiplos. A qualidade das projeções está essencialmente associada à qualidade das premissas escolhidas. Múltiplos como EV/Ebitda e P/E, por serem de simples cálculo, são muito usados em avaliações. É fundamental haver coerência entre o Ebitda projetado e o nível de investimento e capital de giro necessários para o alcance dos respectivos Ebitdas. Satisfeita essa coerência, resta o desafio de se lidar com diferentes valores de múltiplos obtidos para os distintos anos projetados. Como escolher o múltiplo de apenas um ano de forma que reflita a avaliação de uma empresa?

Durante um curso no Rio de Janeiro em 1997, um aluno perguntou ao professor Aswath Damodaran, referência internacional no assunto, por que as avaliações realizadas pelo método de fluxo de caixa descontado geram valores inferiores aos preços de mercado. Damodaran explicou que múltiplos eram muito usados na precificação de ativos e que, com esse método, era possível vender “dogs”. Usando tradução livre, os múltiplos permitem que se venda qualquer coisa — até mesmo gato por lebre. Sábio
Damodaran!


*Ana Siqueira (ana.siqueira@mapleconsult.com.br) é sócia da Maple Consultoria


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Tags:  Governança Petrobras avaliação de empresas análise de empresas Encontrou algum erro? Envie um e-mail



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