DeFi: o revolucionário — e incerto — futuro do sistema financeiro 

Disruptivo e de rápido crescimento, ecossistema descentralizado traz novidades sedutoras e riscos imponderáveis



DeFi: o revolucionário — e incerto — futuro do sistema financeiro 

As plataformas de Finanças Descentralizadas, ou simplesmente DeFi, são desenvolvidas a partir da tecnologia de blockchain e possibilitam que produtos financeiros sejam negociados sem a figura de intermediários, como bancos e corretoras | Imagem: freepik

Enquanto o bitcoin e outras criptomoedas entravam para o mainstream, outra “cria” do espaço cripto com grande potencial disruptivo passava despercebida: as plataformas de Finanças Descentralizadas, ou simplesmente DeFi. Desenvolvidas a partir da tecnologia de blockchain, elas possibilitam que produtos financeiros sejam negociados sem a figura de intermediários, como bancos e corretoras, por qualquer pessoa que delas queira fazer parte — atualmente, nem mesmo um documento de identificação é requerido dos atores que povoam essas arenas. A missão é clara: permitir que compradores, vendedores, investidores, financiadores e tomadores de empréstimos interajam entre si diretamente, livrando-se dos altos custos associados ao sistema financeiro tradicional e transferindo os rendimentos para os donos do capital. Na atual conjuntura, usuários de plataformas descentralizadas como Ethereum e Maker DAO podem ganhar de 7% a 10% de taxa de juros sobre seus criptoativos — alternativa que se torna particularmente atraente no contexto de alta na inflação e rendimentos negativos. A inovação não demorou a ganhar adeptos. De acordo com a consultoria DeFi Pulse, o valor dos ativos digitais negociados em plataformas DeFi cresceu de 1 bilhão de dólares em 2019 para mais de 15 bilhões de dólares no fim de 2020 e ultrapassou 50 bilhões de dólares em junho de 2021. O pico foi de mais de 80 bilhões de dólares em maio de 2021.  

A proposta soa atraente, mas o mercado DeFi tem sido um dos investimentos mais arriscados em um já instável ecossistema financeiro. No artigo “The opportunities and dangers of decentralizing finance”¹, o professor de estudos jurídicos e ética empresarial da Universidade da Pensilvânia Kevin Werbach observa que os sistemas descentralizados podem ser tanto um meio de atingir metas importantes de política pública, como formação de capital mais eficiente e inclusão financeira, como também geradores de danos que esmaguem todos os benefícios. “Agora é o momento de abordar estas preocupações”, diz ele. “Uma melhor compreensão do fenômeno DeFi é um primeiro passo essencial.” 

Adeus aos intermediários 

Múltiplas tecnologias e protocolos são usados para alcançar a descentralização das operações financeiras. Uma plataforma DeFi pode consistir, por exemplo, em uma mistura de blockchain, tecnologias de código aberto e softwares exclusivos. A chave para que esse ecossistema funcione sem intermediários é o uso de smart contracts, que automatizam os termos dos acordos entre os pares. 

“O ecossistema de DeFi oferece solução para cinco problemas-chave que surgem do atual sistema de finanças centralizadas: controle centralizado, acesso limitado, ineficiência, falta de interoperabilidade e pouca transparência. A tecnologia ainda é incipiente, mas o lado positivo é promissor”, defendem os pesquisadores Campbell R. Harvey, Ashwin Ramachandran e Joey Santoro no artigo “DeFi and the future of finance”², publicado no Harvard Law School Forum on Corporate Governance. Até o momento, o ecossistema de finanças descentralizadas se concentra na Ethereum, que ainda não é capaz de abarcar todos os usuários ansiosos por utilizar a plataforma. Entretanto, um plano de atualização está a caminho que, se bem-sucedido, removerá o limite para o número de usuários. 

Riscos desconhecidos 

Junto com os muitos benefícios aparecem os riscos. Como tudo relacionado ao mundo cripto hoje, existe uma expectativa exacerbada sobre DeFis. Os retornos extraordinários — e insustentáveis — a curto prazo distorceram as expectativas dos investidores e atraíram tanto programadores inteligentes quanto maus atores. Além disso, a maioria das atividades de DeFi ainda é especulativa, de alavancagem e conduzida por quem já pertence à comunidade cripto. Seu jovem repertório já coleciona exemplos notáveis de fraude, ataques cibernéticos, conflitos de governança e outras falhas. A mesma flexibilidade, adaptabilidade e composição que tornam os serviços DeFi tão poderosos também descortinam sua face sombria. 

Os ataques às plataformas DeFi foram responsáveis por 156 milhões de dólares dos 432 milhões de dólares em criptos roubados entre janeiro e abril de 2021, de acordo com um relatório da empresa de análise CipherTrace. A soma é mais do que o total abocanhado por trapaças ao sistema DeFi em todo o ano de 2020. A CipherTrace adiciona a esse cálculo outros 83,4 milhões de dólares roubados através de fraudes em geral relacionadas a DeFis. 

Parceria possível? 

Se os bancos digitais e as criptomoedas já foram um incentivo para as instituições financeiras saírem da zona de conforto, as plataformas DeFi significam uma urgência ainda maior. No estudo “Lessons learned from decentralised finance”³, o ING Bank, com sede na Holanda, defende que o ecossistema DeFi será mais disruptivo para os bancos do que o bitcoin. O ING reforça que o DeFi carrega grandes riscos e sinaliza ser justamente neste ponto que os bancos devem atuar, promovendo um ambiente de auxílio mútuo. “Apesar de os serviços financeiros centralizados e descentralizados parecerem diferentes, prevemos que esses dois serviços combinados trarão benefícios para as instituições centralizadas, para a DeFi e, mais importante, para os clientes”, conclui o estudo. 

Sinuca para os reguladores 

Com o crescente interesse mundial em finanças descentralizadas, o Fórum Econômico Mundial (FEM) desenvolveu um conjunto de ferramentas para ajudar os órgãos reguladores a moldar novas regras para os mercados de ativos digitais. As diretrizes foram desenvolvidas com o apoio do Blockchain and Digital Asset Project da Universidade da Pensilvânia e também de empresários, reguladores e profissionais de direito ligados ao setor. Os reguladores que contribuíram para o documento incluem representantes dos Estados Unidos e legisladores envolvidos na criação de normas dos European Markets in Crypto Assets (MiCA). 

Sheila Warren, diretora-adjunta do Centro FEM para a Quarta Revolução Industrial, diz, em nota, que as diretrizes preveem regras capazes de garantir que as empresas DeFi não fiquem em desvantagem em relação às já existentes no setor. “Isto é algo em que passamos muito tempo pensando, tanto em relação ao apoio a empresas inexperientes que impulsionam a inovação, como também ao que isso significa em termos de acesso. O custo da conformidade pode significar que certos participantes sejam desencorajados a entrar no mercado, o que tanto sufoca a inovação como reproduz a desigualdade de poder existente no sistema atual”, afirma Warren. Os desafios para a consolidação do ecossistema DeFi ainda são grandes e prometem grandes intempéries. Mas, ao que tudo indica, um futuro descentralizado para o sistema financeiro parece inevitável. 


Notas

¹ The Opportunities and Dangers of Decentralizing Finance 
² DeFi and the Future of Finance 
³ Lessons Learned from Decentralised Finance  
 Decentralized Finance Police-Maker Toolkit 

 

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