Conceito por trás do “S” é colocado à prova 

Caso Carrefour evidencia o perigo do “washing” e reforça a importância do pilar social do ESG



ESG

Caso Carrefour deixou a sensação de que as preocupações sociais do ESG ainda não chegaram ao ponto de sensibilizar quem está atrás de retorno financeiro no mercado brasileiro | Imagem: Freepik

O conceito por trás do “S” da já famosa sigla ESG foi efetivamente colocado à prova nesse estranho ano de 2020. Estariam as empresas de fato preocupadas e atentas às repercussões sociais de suas atividades? 

A eclosão da pandemia, de um lado, e o fortalecimento das lutas antirracistas, de outro, colocaram as organizações sob a pressão de realidades como as desigualdades sociais e o tratamento muitas vezes criminoso destinado aos negros, por exemplo — como comprova o lamentável caso da morte de João Alberto por seguranças de uma loja do Carrefour em Porto Alegre. A questão que se coloca, para as empresas, é como inserir de forma genuína ações sociais à sua cultura e mensurar seus impactos sobre a sociedade, nesse caso representada por colaboradores, consumidores e cidadãos. E, ainda, como comunicar o que tesido feito para os investidores de forma adequada. 

O comportamento inicial dos mercados no episódio do assassinato no Carrefour foi um mau sinal: as ações da empresa subiram logo depois do ocorrido, o que deixou a sensação de que as preocupações sociais do ESG ainda não chegaram ao ponto de sensibilizar quem está atrás de retorno financeiro no mercado brasileiroNesse contexto, o ESG continuaria a se resumir a palavras edificantes e fotos sugestivas de “diversidade” impressas em relatórios de sustentabilidade. É razoável, no entanto, considerar que uma avaliação global da adesão de uma empresa ao ESG deve ter mais que fatos isolados, incluindo também atitudes que são tomadas diante de problemas.  

O desafio das métricas 

Um ponto relevante, observa Tereza Kaneta, sócia da Brunswick, é que o aspecto social — embora seja essencial em termos de riscos de reputação — ainda enfrenta dificuldades de estruturação de métricas mais concretas. Diferentemente do aspecto ambiental, em que existe um problema mais visível de caráter global, no social cada cultura, cada país tem particularidades, o que dificulta o estabelecimento de medidas comparativas. 

Definir materialidade do S virou assunto do dia nas empresas. E continua sendo um desafio para os investidores a tarefa de avaliar seus efeitos”, destaca Kaneta, lembrando que esse pilar do ESG não está relacionado à filantropia, mas a temas como diversidade, inclusão, cuidado com colaboradores e acompanhamento dos riscos da cadeia de fornecedores. Até mesmo áreas que aparentemente teriam pouco a ver com essa ideia, como cibersegurança, podem estar no pilar S, à medida que cuidar bem de dados pessoais de clientes denota respeito com esse público. 

Esforços x impactos 

Kaneta destaca que já existe um ecossistema formado para direcionamento dos reportes de ESG, inclusive dos fatores sociais. “Esses parâmetros, que vêm de várias instituições, já estão à disposição das empresas. Assim, a desculpa de falta de ferramentas não serve.” Especificamente no caso do pilar social, segundo ela, a hora é de as empresas saírem da demonstração de esforços para demonstração de impactos. Ou seja, é necessário agora mostrar que a política x gerou impacto y — apenas ter normas, regras não é suficiente. 

Segundo a sócia da Brunswick, existe um consenso de que balanço financeiro diz muito, mas não diz tudo, por isso existem outros padrões complementares de reporte de indicadores não financeiros. “Com eles as empresas já podem estruturar um balanço social.”  

O perigo do washing 

A crescente importância dos aspectos sociais das operações das empresas evidencia o perigo do washing” — que em bom português poderia ser traduzido como “faça o que eu digo, mas não faça o que eu faço”. “O washing, que aparece quando uma empresa reporta algo que na realidade não pratica, é uma saída aparentemente fácil. Mas é bastante enganosa, porque pode ser facilmente desmascarada, comprometendo o negócio. Não basta falar: é preciso também provar”, ressalta Kaneta. Fica claro que uma empresa que se declara “diversa” não pode receber esse adjetivo se na alta gestão, por exemplo, só tiver homens brancos. 

Doações na pandemia 

O Instituto Ethos é uma organização da sociedade civil que tem como público as empresasadotando como norte a responsabilidade social empresarial — que poderia ser traduzida como a conduta responsável e compatível com desenvolvimento sustentável. A filantropia faz parte dessa dinâmica, mas conceito vai além: a visão deve ser para dentro da empresa, considerando governança, transparência e gestão trabalhista. Ações filantrópicas de empresas durante a pandemia foram muito positivas, na avaliação de Ana Lucia Melo, diretora-adjunta do Instituto Ethos, mas precisam ser mais que pontuais e não podem estar desconectadas das estratégias e práticas corporativas. 


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E do ponto de vista do investidor, como esse tipo de ação é avaliada? Laura Vélez, analista ESG da Fama Investimentos, sublinha que os aspectos ESG não podem ser vistos como indicadores estáticos, atitudes isoladas ou ações pontuais. “Prezamos pela consistência da empresa em relação a vários tópicos ESG e isso passa por líderes, decisões e ações. É mais um olhar para dentro da operação. Um exemplo: como a empresa contribuiu com os fornecedores em dificuldades durante a pandemia? Como lidou com os funcionários em termos de saúde mental e segurança nesse período?”, diz Vélez, lembrando que a Fama adota uma visão holística de ESG, acompanhando vários ângulos da operação.  

Outro ponto curioso é o da relação entre diversidade e inclusão — ou seja, não é suficiente que a empresa apenas tenha colaboradores de diversas origens: é preciso que eles realmente sejam integrados. “É como o exemplo de uma festa. Diversidade é ser convidado, inclusão é ser chamado para dançar”observa. 

A importância da cultura 

A Fama Investimentos, particularmente, dá bastante peso para a cultura corporativa na avaliação dos ativos, observando a maneira como a companhia “pensa”. “A sustentabilidade só caminha se estiver junto com a estratégia do negóciocom os tomadores de decisões considerando todos os stakeholders, afirma Vélez. Por isso, é muito rico entender a cultura da empresa”, acrescenta. 

O caso do Carrefour, por exemplo, pode ter um componente sintomático de uma cultura corporativa que precisa de reparos. No episódio do homicídio de João Alberto, os funcionários que presenciaram o crime se omitiram ou até tentaram impedir a divulgação das imagens da agressão. É possível imaginar que esses colaboradores não estejam trabalhando num contexto que incentive valores como empatia e humanidade — uma grave falha no pilar social. 

Algumas circunstâncias — como pandemia e crise econômica — reforçam necessidade de observação das questões ESG, além de revisão da cultura organizacional em direção ao desenvolvimento sustentável, reforça Melo. “Bom observar que os relatórios de sustentabilidade cada vez menos têm sido um esforço desconectado da cultura”, observa, acrescentando que esses documentos aos poucos estão deixando de ser mera formalidade periódica.  

“O relatório não pode ser ferramenta inicial — ele é subsequente a uma mudança interna. Se for apenas um instrumento de comunicação, ele pode ser frágil”, ressalva a analista da Fama Investimentos.   

Nesse contexto, é compreensível a pressa das empresas para responder às pressões que vêm de todos os lados, diz Kaneta. “Mas é preciso entender que o ESG é uma jornadae ela tem vários passos: identificação, planejamento, medição, integração e transformação, enumera. Outro fator importante: C-level e o conselho de administração precisam estar envolvidos. Só assim o ESG deixará de ser apenas uma carta de intenções.  

 

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