O valor da narrativa

Aswath Damodaran demonstra como conciliar histórias e números na avaliação de empresas

Relações com Investidores/Prateleira / 15 de fevereiro de 2019
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O valor da narrativa

Fonte: Divulgação

Como explicar que empresas que nunca registraram lucros consigam atrair investimentos bilionários? Por que algumas startups obtêm recursos a múltiplos estratosféricos enquanto outras não captam um centavo? Com base em suas jornadas como acadêmico e investidor individual, o renomado Aswath Damodaran, professor de finanças da New York University, encontrou um caminho para conciliar a arte de contar histórias com a objetividade seca de números e planilhas. Narrative and numbers descreve como o autor, originalmente um fiel seguidor da modelagem financeira clássica, acabou por acreditar que narrativas fortes potencializam oportunidades de investimento.

Investidores, em teoria e na prática, estão constantemente buscando balancear risco e retorno, comparando suas expectativas do valor de uma ação em relação ao seu preço no mercado. Damodaran argumenta que, embora uma planilha seja fria e calculista ao computar um valor estimado para uma empresa, é a narrativa por trás das premissas que suportam cada célula que pode persuadir os investidores mais cautelosos a tomar risco. Em outras palavras: investidores “compram” uma história contada pela empresa (ou não!), “pagando pra ver” se ela consegue entregar a narrativa convertida em resultados, e então incorporam o feedback da realidade a seus modelos.

O livro é recheado de casos práticos, muitas vezes ligados a investimentos reais vividos pelo autor. Tem linguagem humilde e autocrítica, passando longe da pretensão dos falsos oráculos que apenas contam seus casos de sucesso. Aliás, Damodaran faz questão de realizar “autópsias” de investimentos com os quais perdeu dinheiro, para identificar que parte da narrativa estava errada.

De maneira resumida, ele sugere um processo de avaliação de negócios que envolve cinco imperativos: desenvolva uma narrativa para o negócio; teste a narrativa para ver se ela é possível, plausível e provável (o que ele rotula como “3 Ps do investimento”); converta a narrativa em premissas numéricas; construa um modelo financeiro com as premissas; mantenha a cabeça aberta para incorporar feedback que modifique a narrativa. Um exemplo presente no livro é ilustrativo. Ao fazer sua primeira avaliação do Uber, ele construiu narrativas alternativas para entender como elas se manifestariam sobre os números. Em outro caso, contemplando empresas mais estabelecidas, como Apple e Amazon, ele mostrou como a história de uma empresa pode expandir ou limitar suas perspectivas e seu valor de mercado.

Damodaran iniciou sua carreira como um “quant” (analista de números), mas se desenvolveu enormemente na arte de construir narrativas ao enfrentar o conceito estabelecido de que a modelagem financeira era insuficiente para explicar a realidade. Ao evidenciar a importância de se combinar histórias persuasivas e modelos financeiros consistentes e robustos, o livro torna-se leitura obrigatória para analistas financeiros e investidores em empresas públicas e privadas (venture capital e private equity). No campo das finanças, o casamento do lado criativo do cérebro (direito) com o lado quantitativo (esquerdo) nunca foi tão surpreendente e poderoso.

Narrative and Numbers: The Value of Stories in Business

Aswath Damodaran

Editora: Columbia Business School Publishing)

296 páginas

1a edição, 2016


Peter Jancso é sócio da Jardim Botânico Investimentos e conselheiro independente


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