Quando os gênios falham

O que podemos aprender com as apostas desastrosas feitas por investidores emblemáticos

Gestão de Recursos/Prateleira / 5 de outubro de 2018
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Big Mistakes: The Best Investors and Their Worst Investments

Fonte: Reprodução

O estudo das estratégias de sucesso dos grandes investidores tem rendido uma profícua safra de livros. Todos parecem querer beber na fonte da sabedoria, e — quem sabe? —, emulá-la. Será que um olhar diametralmente oposto também poderia render bons frutos na observação da arte de se investir com sucesso? Pois esse é o caminho escolhido por Big Mistakes: The Best Investors and Their Worst Investments, de Michael Batnick, que encapsula 15 pílulas de sabedoria na forma de capítulos que descrevem casos de insucesso dos grandes investidores do passado e do presente.

O livro aborda nomes como Warren Buffett, Bill Ackman, Stanley Druckenmiller, Jack Bogle, John Maynard Keynes, em um verdadeiro desfile de notáveis no campo dos investimentos a partir do início do século 20. O ponto comum entre todos os casos de insucesso apresentados é a capacidade de se aprender com os erros para tentar evitá-los no futuro — ainda assim, nem sempre com êxito. O comentário de Confúcio no prefácio do livro sintetiza bem essa ideia: “Há três formas de se alcançar sabedoria: a primeira, por auto-reflexão, é a mais nobre; a segunda, por imitação, é a mais fácil; a terceira, por experiência, é a mais amarga”.

Um paralelo interessante com o “jogo” dos investimentos é abordado no capítulo 10, que começa comentando o livro Winning the loser’s game, de Charles Ellis, sobre tênis. Diz esse autor que os jogadores profissionais batem forte e com precisão, e “ganham” os pontos ao dificultar as respostas dos adversários. Nos jogos entre amadores, no entanto, os pontos são vencidos por aqueles que cometem menos erros. A conclusão simplista é que profissionais devem jogar “pra ganhar”, enquanto amadores devem jogar “pra não perder”, isto é, cometendo menos erros. Uma leitura mais profunda do livro de Batnick permite a classificação de erros em categorias úteis:

  • alavancagem excessiva, posições muito grandes em ativos de baixa liquidez (Jesse Livermore, LTCM);
  • investimento fora de área de domínio na gestão de um montante elevado de capital (Paulson, Druckenmiller, Steinhardt);
  • excesso de confiança e soberba; a inabilidade do ser humano em processar informações que contradizem o ego (LTCM, Ackman, Buffett)
  • medo de “ficar de fora” (Druckenmiller ao investir em ações de tecnologia um mês antes de a bolha estourar; o contra-exemplo é Buffett, ao evitar ações de internet)

Mais um ponto importante diz respeito à questão de “ser inteligente”. QI não garante nada no mundo dos investimentos! Reiteradamente, Batnick se refere à questão fundamental da capacidade de manutenção da disciplina emocional diante do insucesso. Devemos reconhecer que os seres humanos vêm com um defeito de programação comportamental chamado “viés de retrospectiva” (hindsight bias), que nos leva a acreditar que “sabíamos” o que ia acontecer, quando, na realidade, não tínhamos a mínima ideia. Essa “pseudo-capacidade” nos leva a remorso (“eu sabia que isso ia acontecer, por que não agi?”), e o remorso é o melhor amigo de más decisões de investimento. Pior que perder dinheiro é a cicatriz emocional que permanece por muito tempo depois de ele ter ido embora.

 

Big Mistakes: The Best Investors and Their Worst Investments

Michael Batnick

Editora: Bloomberg Press

193 páginas

1a edição, 2018

 


*Peter Jancso é sócio da Jardim Botânico Investimentos e conselheiro independente

Obs.: O título desta coluna é uma referência a When genius fail, de Roger Lowenstein, livro que narra a derrocada do fundo Long Term Capital Management (LTCM)




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