O algoritmo da excelência

Fundador de um dos maiores fundos de hedge do mundo compartilha seus princípios de vida e sucesso

Governança Corporativa/Prateleira / 7 de dezembro de 2018
Por 


Principios Ray Dalio

Fonte: Divulgação

Quando um titã que administra 160 bilhões de dólares decide compartilhar suas ideias, o mundo se aquieta e apura os ouvidos. Em Princípios, Ray Dalio, fundador da Bridgewater Associates, discorre sobre as diretrizes que norteiam sua vida pessoal e profissional e mostra como elas estão intimamente correlacionadas com seu sucesso.

Nascido em família de classe média e estudante pouco brilhante até o ingresso na universidade, ele descobre na gestão de investimentos algo que finalmente desperta seu interesse — o que acaba transformando sua vida. Segundo Dalio, o ponto de partida fundamental é entender o que se quer, para então proceder à jornada para alcançar o objetivo. Aí entra em jogo a mente cartesiana e estruturada do autor, para quem a vida, a gestão empresarial e os investimentos podem ser sistematizados com base em regras e aperfeiçoados, como um código de programação.

Após uma breve seção de apresentação de seu contexto de vida, o autor subdivide a obra em duas seções mais pesadas: princípios de vida e princípios de trabalho. Curiosamente, o estilo da redação ao longo de todo o livro lembra um algoritmo, em que cada grande seção de código é composta por várias sub-rotinas — estas compostas por comandos ainda mais elementares. Diferentemente de uma narrativa tradicional, o modelo é ostensivamente prescritivo, num formato de “bullet list”.

Na primeira seção, Dalio estabelece um princípio que permeia todos os aspectos de sua vida: a transparência radical. Segundo essa ideia, deve-se sempre ter a mente aberta para se receber críticas honestas, por mais dolorosas que sejam, pois só assim são instigados reflexão e crescimento. No melhor estilo Dalio, o texto postula a equação “dor + reflexão = progresso”. Isso ilustra um traço importante do autor, que é sua busca incansável pela raiz dos problemas. Ao se ater a esse princípio no início de sua carreira, Dalio descobriu que as pessoas não vêm “programadas” para abraçar essa prática, o que o levou a consultar neurocientistas para entender como ser mais efetivo no embate humano entre ego e razão. A partir daí, princípios para a tomada de melhores decisões (individuais e coletivas) e a criação de um ambiente para a “meritocracia de ideias” podem florescer.

A seção sobre princípios de trabalho se constrói sobre essa diretriz principal: como fazer com que as melhores ideias prevaleçam. Em organizações “tradicionais”, a posição do porta-voz das ideias muitas vezes importa mais do que sua qualidade, por causa do respeito à hierarquia e à autoridade. Avaliando seus erros, Dalio entendeu que deveria mudar sua perspectiva de “eu sei que estou certo” para “como eu sei que estou certo?”. Essa reflexão o levou a cercar-se de pessoas brilhantes que discordavam dele, e a tentar entender seu raciocínio lógico — trazendo à tona a meritocracia de ideias e construindo equipes sólidas.

Pode-se compreender princípios como verdades fundamentais que constituem os alicerces do comportamento. Tendo passado quase a totalidade de sua vida profissional na empresa que fundou, Dalio não foi contaminado pelo modelo de “ser organizacional” prevalente nas empresas tradicionais, o que lhe permitiu ser um iconoclasta radical na gestão. Seguiu o que diria Steve Jobs, “think different”.

 

Princípios

Ray Dalio

Editora: Intrínseca

586 páginas

1a edição, 2018


Peter Jancso é sócio da Jardim Botânico Investimentos e conselheiro independente


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