“Prezado presidente do conselho…”

A evolução do chamado ativismo acionário contada por meio de oito casos emblemáticos

Governança Corporativa/Prateleira / 10 de agosto de 2018
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Foto: Divulgação

Segundo o dicionário Aurélio, “ativismo” se refere à “atitude moral que insiste mais nas necessidades da vida e da ação que nos princípios teóricos”. Nesse sentido, pode-se associar “ativismo acionário” à situação em que, perante falhas em princípios de governança, um grupo de acionistas assume a bússola moral para restabelecer o alinhamento de interesses entre executivos/conselho e os donos da empresa. Esse é o pano de fundo de Dear Chairman: Boardroom Battles and the Rise of Shareholder Activism, de Jeff Gramm, professor adjunto da Universidade de Columbia e gestor de fundos com filosofia de investimentos ativista.

Por meio de oito casos emblemáticos ocorridos entre 1920 e 2004, Gramm traça o caminho de uma tensão recorrente do capitalismo: o conflito de interesses entre gestores e donos. A obra até apresenta os originais de cartas em que investidores da estatura de Benjamin Graham, Warren Buffett, Ross Perot, Carl Icahn e Daniel Loeb registram o primeiro salvo de seus canhões contra as posições entrincheiradas de executivos e conselheiros.

Desde os primeiros registros de ativismo, o processo se inicia quando os investidores têm a percepção de que o preço das ações de uma empresa é menor do que o valor intrínseco de seus ativos. Várias hipóteses podem explicar esse efeito, mas a reação desses acionistas junto a seus agentes fiduciários (conselheiros/gestores) é questionar o porquê desse desvio e demandar ações para sua correção. Uma vez tornada pública sua insatisfação, os dois grupos tipicamente se engajam em verdadeiras batalhas de relações públicas para angariar votos nas assembleias de acionistas e, assim, fazer prevalecer suas visões — de mudança ou não.

A magnitude desses conflitos cresceu à medida que as estruturas acionárias saíram de um controle mais concentrado para mais pulverizado. Esse distanciamento entre acionistas e gestores acabou exacerbando os conflitos de agência, um conceito formalizado academicamente apenas em 1976. No início (anos 20 até 60), os ativistas eram rotulados de “proxyteers”, pois não detinham muito capital e usavam esse instrumento jurídico (“proxy fight”) para mudar o conselho e a gestão das empresas. Em seguida, há a ascensão dos “corporate raiders” (anos 60 a 80), situação em que investidores com fácil acesso a capital ameaçavam empresas de baixo desempenho. Finalmente, chega-se ao rótulo atual dos “ativistas”, que abarca gestores que se dedicam a encontrar essas distorções entre preço e valor e a elaborar campanhas sofisticadas junto à comunidade de investidores. Como exemplo, vale a pena pesquisar o material (pelo menos 300 slides!) de Bill Ackman sobre a Herbalife (com que ele perdeu muito dinheiro).

A narrativa favorece o entendimento de que os ativistas modernos prestam um serviço de valor aos mercados, pois estão sempre vigilantes em relação a prejudiciais conflitos de interesses. Mas deve-se registrar que suas campanhas tipicamente visam ganhos em menos de um ano, em detrimento da criação e valor a longo prazo, o que nos leva a outro potencial conflito de interesses. Caveat emptor!

Dear Chairman: Boardroom Battles and the Rise of Shareholder Activism

Jeff Gramm

Editora: Harper Business

325 páginas

1a edição, 2016


Peter Jancso é sócio da Jardim Botânico Investimentos e conselheiro independente

1Do latim. Literalmente, significa “comprador, cuidado!”.




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