Copo meio cheio, meio vazio

Um levantamento de avanços, retrocessos e possíveis caminhos para o fortalecimento do mercado de capitais brasileiro

Bolsas e conjuntura/Prateleira / 6 de abril de 2018
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Em 2016, o grupo de mercado de capitais do Núcleo Brasil de Estudos Estratégicos (NBEE), que faz parte da Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo, lançou Desenvolvimento do mercado de capitais no Brasil – temas para reflexão. No ano seguinte o trabalho continuou, com a edição de Perspectivas para o mercado de capitais no Brasil – agenda para o seu desenvolvimento, livro que faz as vezes de um “segundo tomo” sobre o tema. Enquanto a primeira obra se concentra no estabelecimento de um diagnóstico de todas as dimensões desse mercado (como câmbio, renda fixa e renda variável, entre outras), a segunda apresenta duas linhas de discussão que se complementam: uma revisão histórica para se identificar a linha de evolução do mercado (saber, afinal, “como chegamos até aqui”) e uma lista de sugestões para o fortalecimento e a aceleração dessa trajetória (“para onde devemos ir”).

A obra publicada no ano passado começa, portanto, apresentando um balanço da jornada do mercado de capitais brasileiro e indicando possíveis trilhas para se seguir a partir de então. Trata-se de uma preparação para a exposição de um argumento que se sustenta sobre a importância dos mercados para o desenvolvimento de uma sociedade, considerando a visão da bolsa de valores e do regulador — a Comissão de Valores Mobiliários (CVM) — sobre a questão. Por fim, os dois últimos capítulos abordam desafios do momento atual e arriscam uma agenda para o futuro.

Assim como acontece muitas vezes com franquias de sucesso no cinema, é difícil afastar, nesse caso dos livros da NBEE, a impressão de que “o primeiro filme é melhor que o segundo”. Embora o “elenco” das duas obras seja composto de personagens altamente reconhecidos — ambas são conjuntos de artigos com forte viés técnico —, o “enredo” mais articulado, talvez pelo efeito da novidade, causa mais impacto no primeiro encontro. Ao mesmo tempo, há um par de situações nas quais os autores demonstram mais preocupação em abordar legados de suas próprias gestões em vez de discutir situações altamente negativas para os mercados de capitais, o que seria, em tese, o interesse do público leitor desse tipo de publicação.

Mas um texto em particular merece destaque, sob vários aspectos. “Sobre fênixes e lobisomens”, escrito por Mauro Rodrigues Cunha, aborda de forma estruturada e incisiva a capacidade que o mercado brasileiro tem de renascer das cinzas em momentos obscuros, assim como a dificuldade que tem para encontrar as míticas “balas de prata” para eliminação de práticas deletérias. É um posicionamento claro e transparente, exatamente em contraposição a posturas de caráter mais institucional.
Como diz o provérbio em inglês (e também uma música de Eric Clapton), “Where there is a will, there is a way” (“onde há vontade, há um caminho”, em livre tradução). Precisamos de menos líderes de torcida com pompons e mais cidadãos que consigam mobilizar a vontade política para que o Brasil evolua em direção a um crescimento realmente sustentável. O povo brasileiro tem grande anseio em voar como águia, mas a dura realidade do voo de galinha teima em nos assombrar.

Perspectivas para o mercado de capitais no Brasil – agenda para o seu desenvolvimento
Amarílis Prado Sardemberg e Pedro Guerra (org.) e outros
Editora: Sociologia e Política
364 páginas
1a edição, 2017


* Por Peter Jancso, sócio da Jardim Botânico Investimentos e conselheiro independente




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Tags:  mercado de capitais livro perspectivas Encontrou algum erro? Envie um e-mail



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