Conselhos devem estar atentos à questão da saúde mental

Por que o bem-estar psicológico dos colaboradores deve estar na pauta dos conselhos de administração

Governança Corporativa/Governança / 29 de novembro de 2019
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Ilustração: Rodrigo Auada

Qual a responsabilidade do conselho de administração quanto à saúde mental dos colaboradores? A pergunta pode parecer despropositada, já que, argumentariam alguns, o conselho deveria gastar seu tempo em questões mais objetivas do negócio. Mas se sua missão maior é assegurar o sucesso de longo prazo da organização, essa indagação é cada vez mais relevante.

Os números são alarmantes. Segundo a OMS1, o Brasil é o segundo país que mais perde dinheiro por depressão no trabalho. Outra pesquisa concluiu que um terço dos funcionários tem problemas de saúde mental, com “perda de energia” ou “fadiga avassaladora”. Um terceiro estudo constatou que o burnout2 afeta 30% dos profissionais. E estima-se que cerca de 70% dos brasileiros se sentem infelizes no trabalho, percebendo-o como fardo em vez de fonte de realização.

Há um imperativo ético nesse tema. A maioria das empresas elenca a ética entre seus valores essenciais. Ela vai além da maneira como se faz negócios, pois também diz respeito ao relacionamento das empresas com o mundo, incluídos os efeitos de suas ações ou omissões sobre os empregados. Se a ética é um valor genuíno, então cabe à alta gestão se responsabilizar por um ambiente que propicie boa saúde mental.

Outra justificativa é utilitarista: no século 21, a saúde mental será a cada dia mais importante para o desempenho empresarial. De um lado, as atividades simples e repetitivas serão substituídas por inteligência artificial; de outro, o trabalho exigirá mais colaboração, empatia, criatividade e solução de problemas complexos. Logo, a produtividade dependerá mais da qualidade do pensamento e do estado de espírito do que do tempo alocado a uma tarefa.

Um trabalho recente agregou os resultados de 339 pesquisas feitas com 2 milhões de empregados e concluiu: o bem-estar dos colaboradores tem relação direta com melhor desempenho corporativo em rentabilidade, produtividade individual, lealdade dos clientes e rotatividade. No Brasil, fiz estudo pioneiro baseado em 110 mil avaliações online sobre empresas do Valor 1.000 de 2013 a 2018 e constatei que as empresas cujos colaboradores se mostravam mais satisfeitos obtiveram retorno sobre o patrimônio líquido 2,5 vezes superior ao daquelas com empregados menos satisfeitos — um lucro líquido médio de 76 milhões de reais a mais por ano.

Os passivos materiais que podem resultar de um ambiente lesivo igualmente devem ser considerados. Recentemente, o Santander foi condenado a pagar 274 milhões de reais por prejudicar psicologicamente seus funcionários ao impor metas abusivas. Segundo a sentença, quase três funcionários por dia desenvolveram doença ocupacional mental em 2014 — uma média de uma pessoa afastada a cada 2h48m de trabalho!

O que os conselhos podem fazer? É preciso compreender que o estado psicológico dos colaboradores é consequência da cultura organizacional, sistema de avaliação e conceito de sucesso difundido pelos líderes. É também necessária a implantação de um programa de saúde mental efetivo, com atividades de: prevenção, para conscientizar, eliminar preconceitos e diminuir os casos; intervenção, para oferecer tratamento correto aos afetados; e proteção, para assegurar apoio aos que precisarem de afastamento e sua correta reintegração ao trabalho.

O mais importante é incluir a saúde mental dos colaboradores regularmente na pauta do conselho. Isso levará o órgão a assumir sua parcela de responsabilidade e a desenvolver expertise sobre esse tema cada vez mais crítico.


Prof. Dr. Alexandre Di Miceli da Silveira é fundador da Direzione Consultoria e autor de Ética Empresarial na Prática: Soluções para a Gestão e Governança no Século XXI. O articulista agradece a Angela Donaggio pelos comentários e sugestões.


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