Os últimos meses de 2020 prometem ainda mais emoções

Ameaça de Brexit sem acordo, falta de cooperação, Trump com covid-19 e China mais incisiva complicam ainda mais este surreal ano

Colunistas/Bolsas e conjuntura/Internacional / 9 de outubro de 2020
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Colunista Walter Pellecchia comenta o mercado de capitais a nível internacional

*Colunista Walter Pellecchia é advogado especialista em mercado financeiro, integrante do escritório Reed Smith LLP em Londres | Ilustração: Julia Padula

O Brasil é sempre o primeiro país a discursar na Assembleia Geral das Nações Unidas. Não existe nenhuma norma escrita na ONU determinando esse rito, mas a tradição é seguida desde 1955. Existem algumas teorias para explicá-la. A principal é de que seria um reconhecimento do importante papel desempenhado por Oswaldo Aranha na formação da entidade — o diplomata gaúcho, inclusive, foi o primeiro a presidir a reunião, em 1947. Outra tese defende que teria sido um prêmio de consolação, já que o Brasil ficou de fora da lista de membros permanentes do conselho de segurança.

Independentemente do motivo, fato é que a tradição mais uma vez foi mantida no último dia 15 de setembro, na abertura da 75ª Assembleia Geral da ONU — desta vez com vídeos previamente gravados pelos chefes de Estado. Antes da fala do Brasil (para um pavilhão praticamente vazio), o secretário-geral António Guterres ressaltou a importância da cooperação internacional e da existência de instituições multilaterais como a ONU e a necessidade de os mais abastados e poderosos prestarem assistência aos mais vulneráveis. Diplomata de carreira e internacionalista de grande experiência, ele sabe que o pêndulo da História recente tem cada vez mais visitado os sentimentos egoísticos, nacionalistas e beligerantes.

Belo exemplo disso foi a recente declaração do primeiro-ministro britânico, Boris Johnson, de que o Reino Unido não cumprirá o acordo de saída da União Europeia (UE), negociado e assinado por ele mesmo no início do ano. Mais uma vez, o problema é a fronteira entre a Irlanda do Norte (país integrante do Reino Unido) e a República da Irlanda (país integrante da União Europeia). De forma a salvaguardar os efeitos do Good Friday Agreement de 1998, que selou a paz na região, o acordo do Brexit assinado em janeiro de 2020 prevê que não seriam implementados controles fronteiriços na Irlanda do Norte. Isso praticamente mantém a Irlanda do Norte na UE e transfere a fronteira para dentro do Reino Unido. Johnson quer voltar atrás nesse ponto e obviamente inflamou as já difíceis negociações para um acordo comercial entre a UE e as terras da rainha, que precisa ser assinado até 31 de dezembro para que não ocorra um Brexit “sem acordo”.


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Nesse sentido, a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, trouxe a público em 1º de outubro que a UE formalmente notificou o Reino Unido sobre possível violação das normas de Direito internacional caso mantenha a posição de não cumprir com o acordo do Brexit. O governo britânico tem um mês para responder à notificação antes que o caso seja transformado em ação judicial na Corte de Justiça da UE. Há quem diga que essa é uma tática de Johnson para pressionar a UE a aceitar suas propostas de acordo comercial.

Do outro lado do Atlântico, os americanos assistiram, em 29 de setembro a um show de horrores no primeiro debate presidencial entre Donald Trump e Joe Biden — recheado de interrupções e agressões, a maioria partindo do atual inquilino da Casa Branca. Enquanto as regras dos próximos debates estavam sendo discutidas entre as campanhas para se tentar evitar um novo caos televisivo, que atearia ainda mais fogo no parquinho americano, Trump anunciou, em 2 de outubro, que ele e a primeira-dama, Melania, foram diagnosticados com covid-19.

Presidente Trump ergue punho e discursa para plateia

Presidente Trump anuncia estar com covid-19 a 32 dias das eleições americanas

Faltando apenas 32 dias para as eleições americanas, esse novo fato pode causar uma reviravolta. Claro que todos os compromissos de campanha de Trump precisam ser cancelados até que ele se restabeleça. Se ele não se recuperar, os 168 membros do Comitê Nacional Republicano terão que indicar um novo candidato para o partido. Fato interessante é que mais de um milhão de americanos já votaram nos estados em que o voto pelos correios é permitido.

Embora na assembleia-geral da ONU Xi Jinping tenha enfatizado uma China “paz e amor” e a necessidade da atuação conjunta internacional no combate à covid-19 e a seus efeitos, nos bastidores a fala não é tão pacífica. A China deixou claro que não vai mais aceitar os ataques de Trump e a intervenção americana nas questões “internas” chinesas no que diz respeito a Taiwan e Hong Kong, inclusive ameaçando aplicar sanções contra empresas americanas.

Que o ano de 2020 não está sendo fácil para ninguém, todo mundo já sabe. Agora é colocar mais pipoca no micro-ondas porque este fim de ano promete.


* Walter Pellecchia, advogado especialista em mercado financeiro, integrante do escritório Reed Smith LLP em Londres (wpneto@reedsmith.com). O texto reflete opiniões do autor e não deve ser considerado como consultoria de qualquer natureza.


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