O futuro das corporações exige de nós trocar as lentes
O problema não está na pauta, mas, sim, no que alguns players fazem com ela. Precisamos com urgência iniciar uma nova fase do ESG, com maior conhecimento, reflexão e ação
Ana Siqueira
Ana Siqueira é sócia fundadora da Artha Educação | Ilustração: Julia Padula

O acrônimo ESG (ambiental, social e governança) ganhou expressiva notoriedade nos últimos três anos, em parte face às tensões ambiental e social, esta última exacerbada pela pandemia de Covid-9. Além disso, parte do fenômeno deve-se ao fato de que o acrônimo representa três áreas muito relevantes e indissociáveis nas organizações. 


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É possível, no entanto, observar, uma intensa e crescente avalanche de críticas ao ESG, que pode ser compreendida por alguns fatores:  

  1. Possível exagero no otimismo em relação à pauta ESG, seja na velocidade de sua compreensão, assim como em sua adoção e resultados. O tema não é novo para especialistas, mas é, sim, novo para uma parcela expressiva do mundo corporativo. 
  1. O acrônimo ESG ganhou tamanha atenção da mídia ao ponto de gerar uma verdadeira corrida por parte de empresas que queriam fazer algo relacionado à pauta, sem necessariamente se preparar adequadamente para a jornada. É necessária uma verdadeira transformação cultural para esse conceito realmente ser inserido nos modelos de negócios, de forma a permear toda a companhia. Importante ressaltar que não existe um modelo único. A jornada se inicia com a aquisição de conhecimento sobre o tema e, à luz do autoconhecimento da cultura organizacional, visão e valores da companhia, a empresa estará apta para definir seus objetivos e a estratégia a ser implementada. 
  1. Por último, uma razão menos nobre: muitas empresas têm incorporado o tema sustentabilidade à sua comunicação corporativa, visando turbinar as suas vendas e/ou captação de recursos, ou seja, vislumbraram no ESG um instrumento de marketing. Esta abordagem não só não terá vida longa, como estas empresas estão perdendo valioso tempo no qual poderiam estar se preparando de forma genuína para suas respectivas jornadas de sustentabilidade. 

Os excessos podem ocorrer em cenários de novas tecnologias, de novo conhecimento, dentre outros casos. O movimento pendular, que aprendemos na física, explica, em parte, eventuais excessos cometidos com o ESG, em sua primeira fase sob os holofotes.  

Volta ao equilíbrio

Um pêndulo simples é um sistema composto por uma massa ligada a um suporte por um fio inextensível, que lhe permite oscilar em torno de uma posição fixa. A massa sofre efeito da força da gravidade e da força da tração, que não se anulam, sendo a força centrípeta a resultante destas duas. Quanto mais afastarmos a massa de sua posição de equilíbrio, maior será a sua oscilação em direção ao lado oposto à posição na qual foi liberada. Este movimento se repete continuamente em torno do ponto de equilíbrio.  

Talvez a agenda ESG tenha sido exageradamente afastada da sua posição de equilíbrio. Isto não significa, de forma alguma, a decretação do fim do ESG. Pelo contrário, houve um importante avanço no conhecimento, no interesse e na atuação em torno da pauta. Entretanto, o desafio da coerência da comunicação corporativa com a prática persiste em muitas empresas. O greenwashing é uma questão global, e o endurecimento da regulamentação e da fiscalização que está em curso tende a contribuir para inibir tais ações.  

Adicionalmente, no Brasil ainda não fomos capazes de resolver o problema do governancewashing. Podemos observar, nos últimos anos, casos expressivos de corrupção, disputas societárias e, mais recentemente, de “inconsistências contábeis” — eufemismo utilizado para se referir a um fato muito grave e ainda desconhecido como o que ocorreu nas Lojas Americanas. O mesmo acontece com a pauta ESG. O problema não está na pauta, mas, sim, no que alguns players fazem com ela. Precisamos com urgência iniciar uma nova fase do ESG, com maior conhecimento, reflexão e ação sobre o tema. 

Questão de integridade

Ao longo de mais de 30 anos interagi com muitos administradores de empresas e investidores institucionais. Aprendi logo no início da minha carreira de analista de equity research que o valor de uma empresa está intrinsecamente relacionado aos seus fundamentos, à qualidade de sua cultura organizacional, à ética, aos valores, à gestão e à governança corporativa — um importante instrumento de controle de risco e geração de valor. Uma frase marcante do Sir Adrian Cadbury, referência global em governança, me acompanha há décadas:  

“Integrity means both straightforward dealing and completeness. What is required of financial reporting is that it should be honest and that it should present a balanced picture of the state of the company’s affairs. The integrity of reports depends on the integrity of those who prepare and present them.”  

The Committee on the Financial Aspects of Corporate Governance – 1992  

Sir Adrian Cadbury – chairman 

Alguns conselhos tendem a dar grande ênfase aos resultados financeiros e à estratégia. Ocorre que cultura organizacional e liderança caminham juntos com estratégia e resultados financeiros, já que estes últimos apenas reportam o passado — não garantem o futuro.  

Precisamos de novas lentes para analisar questões determinantes para o futuro e que impactam a perenidade das companhias. Gosto muito de referenciar o Refrator de Greens, instrumento utilizado pelos oftalmologistas para medir o grau necessário das lentes de que precisamos para enxergar adequadamente, tanto de perto como de longe. Algo semelhante às lentes que precisamos para tratar dos temas ambiental, social e de governança nas companhias, seja no curto ou no longo prazo.  

O tema governança corporativa é conhecido há décadas no Brasil. Já os tópicos social e ambiental ainda apresentam amplo espaço para nos aprofundarmos. O conhecimento, absolutamente fundamental, é o que nos capacita a usar as lentes adequadas para analisar o presente e o futuro. Não conseguimos enxergar e tampouco compreender o que não conhecemos. 

Ana Siqueira, CFA ([email protected]) é conselheira de administração 

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